ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

15/Oct/2026

Máquinas: entrevista com Igor Calvet - Anfavea

O mercado brasileiro de máquinas agrícolas deve encerrar 2026 em queda superior à do ano anterior, quando as vendas do setor recuaram 3,6%, para cerca de 49,8 mil unidades, projeta a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Em entrevista, o presidente da entidade, Igor Calvet, cita os juros altos, o endividamento dos produtores e o recuo nos preços das commodities como fatores a desestimular o investimento no campo. Para ele, o avanço de concorrentes asiáticos, como China e Índia, no mercado nacional e gargalos na operacionalização de linhas de financiamento pressionam a indústria nacional. "O produto nacional pode ter um custo aparente mais alto porque inclui custos trabalhistas, tributários e logísticos, mas ele gera empregos, renda e arrecadação no País", afirma. Segue a entrevista:

O setor de máquinas agrícolas fechou 2025 em queda e o acumulado deste ano sinaliza novo recuo. Qual é a projeção da Anfavea para o encerramento de 2026?

Igor Calvet: No ano passado, fechamos com vendas de quase 50 mil unidades de máquinas agrícolas no mercado interno, o que representou uma queda de 3,6% ante 2024. Neste ano, o mercado deve recuar ainda mais e ficar abaixo das 49,8 mil unidades de 2025. No acumulado de janeiro a julho de 2026, as vendas internas de máquinas agrícolas caíram 15,3%, somando 23,2 mil unidades. O grande destaque negativo vem das colheitadeiras, que despencaram 39,1% no período, passando de 2,1 mil para 1,3 mil unidades. Nos tratores de rodas, o recuo foi de 13,3%. Se projetarmos esse ritmo, o mercado total deve fechar o ano entre 4 mil e 5 mil unidades abaixo de 2025, próximo de 45 mil unidades.

A que fatores macroeconômicos e setoriais a Anfavea atribui esse cenário desfavorável?

Igor Calvet: Internamente, o principal vetor é o endividamento do agricultor, intensificado pela manutenção de taxas de juros elevadas por um longo período. A Selic em patamares altos aumenta o custo do crédito e desestimula investimentos de longo prazo. A inadimplência no crédito rural de pessoa física atingiu 7,3% em julho, com projeção de chegar a 10% no ano. Externamente, houve uma queda de cerca de 8,1% nos preços das commodities agrícolas nos últimos 12 meses, o que corrói a rentabilidade do produtor. Além disso, o Brasil passou a ser um forte importador. No acumulado até agosto, as importações de máquinas agrícolas saltaram 54%, alcançando 10,3 mil unidades.

Com essas margens apertadas e o crédito caro, houve migração do produtor para máquinas de menor potência e menor tecnologia?

Igor Calvet: Sim. O agricultor precisa renovar seu maquinário, mas os juros inviabilizam a compra de modelos "topo de linha". Como segunda melhor opção, ele busca tratores menores e mais baratos. As estatísticas mostram que a queda (nas vendas) atinge praticamente todas as faixas de potência na produção nacional, mas 91% dos tratores importados de janeiro a agosto têm potência de até 100 HP (cavalo de potência), com a faixa de 50 a 100 HP liderando os volumes, em 5,9 mil unidades, e crescendo 67%. Essa migração acaba favorecendo os importados, uma vez que a especialização da indústria doméstica está nos modelos de maior potência, gerando um ciclo que prejudica a balança comercial e a produção local.

Como a Anfavea avalia a concorrência dos produtos asiáticos, especialmente de Índia e China, no mercado nacional?

Igor Calvet: É um desafio estrutural. Entre janeiro e agosto de 2026, a Índia liderou as importações agrícolas com 5 mil unidades, alta de 21% ante igual período do ano passado, e a China enviou 4,6 mil unidades, o que representa um crescimento de 146% na comparação anual. Grande parte desse salto das marcas chinesas ocorre via compras públicas. Em 2025, uma em cada três máquinas licitadas pelo poder público no Brasil foi de origem chinesa. No caso específico dos tratores agrícolas em licitações, os importados responderam por 65% do total. Isso é preocupante porque gera problemas graves de pós-venda, escassez de peças e falta de rede concessionária para manutenção, resultando em máquinas paradas em pátios públicos. Além disso, a perda de tração da indústria nacional afeta toda a cadeia de suprimentos local, de pneus e aços a componentes eletroeletrônicos e plásticos, estes últimos já pressionados por tarifas de importação e custos adicionais.

Qual seria a alternativa para conter esse efeito nas licitações públicas?

Igor Calvet: A solução passa pelo aprimoramento dos normativos de compras públicas, com o estabelecimento e aplicação efetiva de margens de preferência para os produtos fabricados no Brasil. O produto nacional pode ter um custo aparente mais alto porque inclui custos trabalhistas, tributários e logísticos, mas ele gera empregos, renda e arrecadação no País. A margem de preferência é o mecanismo adequado para equilibrar essa disputa contra importações predatórias em licitações.

Em relação às linhas de financiamento, como a Anfavea analisa o fluxo de recursos da linha da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) - empresa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) - e a efetividade do Plano Safra?

Igor Calvet: A linha da Finep trouxe taxas de juros mais atrativas, de 9,2% ao ano, do que a do Moderfrota (Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras), de 13,5%, mas enfrenta gargalos operacionais sérios. A Finep não é uma instituição bancária comercial, é voltada para inovação, o que exigiu adequações regulatórias. O problema central foi que a Finep não credenciou os bancos das próprias montadoras, como o Banco John Deere e o Banco CNH, que são justamente os agentes que estão na ponta em contato com o produtor rural. Sem esses bancos credenciados, o recurso de R$ 10 bilhões anunciado pelo governo em junho, não chega com agilidade ao interior do País. Sobre o Plano Safra, a efetividade foi aquém da esperada. Tivemos uma competição entre programas com taxas diferentes e um ambiente macroeconômico adverso, marcado por alto endividamento e necessidade de repactuação de dívidas.

Apesar do cenário desafiador, há otimismo em relação a 2027?

Igor Calvet: Somos moderadamente otimistas. Não prevemos uma expansão forte de 10%, mas acreditamos no fim do ciclo de queda livre. Há espaço para retomar os níveis de 2025. Historicamente, o agronegócio vive ciclos de anos muito positivos seguidos de períodos de ajuste. Independentemente do cenário político, o País terá de seguir uma agenda de ajuste fiscal, o que sinalizará espaço para redução contínua da taxa de juros. Com o juro caindo, a inadimplência tende a ceder e a demanda represada por renovação de frota pode começar a ser atendida, devolvendo estabilidade ao setor.

Fonte: Broadcast Agro.