05/Oct/2026
A possibilidade de os Estados Unidos suspenderem por 90 dias as exportações de diesel elevou o risco de uma nova pressão sobre os preços do combustível no Brasil. Embora a possibilidade de desabastecimento seja considerada remota, a exposição brasileira ao diesel norte-americano aumentou de forma expressiva nos últimos dois anos, período marcado por interrupções no comércio internacional de combustíveis associadas às guerras na Rússia e no Oriente Médio. O diesel dos Estados Unidos já representa 32,7% das importações brasileiras, ante 8,7% anteriormente. O Brasil depende do mercado externo para atender entre 25% e 30% do consumo total de diesel. Caso uma restrição às exportações norte-americanas seja efetivada, a necessidade de substituição por outros fornecedores poderá elevar o custo de aquisição do combustível e gerar impacto indireto sobre a inflação brasileira. A margem para que o governo amplie subsídios ou adote mecanismos de amortecimento de novas altas também é considerada limitada, em um cenário de maior restrição fiscal.
O imposto sobre a exportação de petróleo, que vinha contribuindo para o financiamento de subvenções aos combustíveis, tende a apresentar capacidade menor de compensação com a redução dos preços da commodity em relação aos picos observados anteriormente. A eventual restrição norte-americana ainda não foi incorporada aos cenários de inflação, diante da ausência de confirmação oficial. A possibilidade está relacionada à intenção manifestada pelo governo dos Estados Unidos de elevar os estoques domésticos e reduzir os preços de energia, mas o plano ainda não foi confirmado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos. Mesmo assim, a adoção de algum mecanismo de restrição é considerada plausível diante da pressão política para redução da inflação nos Estados Unidos às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, previstas para novembro. No Brasil, eventual impacto sobre o índice de preços ao consumidor ocorreria principalmente de forma indireta, por meio do aumento dos custos do transporte rodoviário, e dependeria da resposta do governo e da Petrobras.
A desaceleração da atividade econômica, associada aos juros elevados e ao maior endividamento das famílias, também tende a limitar a capacidade de repasse dos custos adicionais aos preços finais. Outro fator de amortecimento no curto prazo é a formação de estoques de diesel para o início do plantio da safra de soja, período em que tratores, colheitadeiras e caminhões operam em níveis elevados de utilização. Com estoques reforçados, um eventual choque de oferta teria potencial para levar aproximadamente três meses até produzir efeitos mais relevantes sobre o mercado brasileiro. O Brasil ampliou a dependência do diesel norte-americano ao mesmo tempo em que reduziu a participação da Rússia no fornecimento externo. Entre janeiro e agosto, a fatia dos Estados Unidos nas importações brasileiras passou de 8,7% para 32,7%, enquanto a participação russa caiu de 72,1% para 51%. A redução das compras de diesel da Rússia está relacionada ao embargo imposto pelo Kremlin às exportações de combustíveis após ataques de drones ucranianos contra refinarias.
A participação do diesel dos Emirados Árabes Unidos também recuou, de 7% para 6,4% do total importado pelo Brasil. Em sentido contrário, a Arábia Saudita elevou sua participação de 1,3% para 3,8% em dois anos, embora ainda permaneça abaixo do nível de 2023, quando respondia por 5% das importações brasileiras. A concentração no mercado norte-americano aumentou ainda mais recentemente. Entre julho e agosto, 68,1% do diesel importado pelo Brasil teve origem nos Estados Unidos, refletindo principalmente a menor disponibilidade de produto russo e a interrupção de embarques de fornecedores do Oriente Médio. Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Omã permaneceram durante meses sem realizar embarques de diesel para o Brasil em razão dos impactos da guerra no Oriente Médio.
Uma eventual restrição das exportações dos Estados Unidos elevaria o risco de pressão sobre a inflação brasileira, especialmente por meio dos custos logísticos. Até o momento, entretanto, o choque nos preços do petróleo provocado pela escalada dos conflitos no Oriente Médio apresentou repasses limitados para a inflação subjacente. Um novo choque relevante no diesel poderia ampliar os reajustes de preços e salários, embora a desaceleração gradual da economia e a política monetária ainda restritiva tendam a limitar a capacidade das empresas de transferir integralmente o aumento de custos aos preços. As cargas de diesel já contratadas oferecem uma margem adicional de segurança para o abastecimento no curto prazo, reduzindo o risco imediato de falta do produto.
A intensidade e a duração de eventual impacto sobre os preços dependerão, portanto, da efetivação ou não de restrições norte-americanas, da disponibilidade de fornecedores alternativos, das condições do mercado internacional e das medidas adotadas pelo governo brasileiro e pela Petrobras. Ainda, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, negou na sexta-feira (02/10) que o governo norte-americano estivesse considerando, de fato, impor uma proibição às exportações de diesel e elogiou a contribuição europeia para a injeção de 100 milhões de barris de petróleo no mercado global. "Nunca esteve realmente sobre a mesa", afirmou o presidente. "Nós nunca íamos fazer um banimento de exportação de diesel". Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.