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30/Sep/2026

Insumos: indústria vê recuperação lenta no Agro

A queda dos juros e a recuperação das cotações agrícolas melhoram as perspectivas para o agronegócio, mas a indústria de insumos ainda trabalha com um cenário de recuperação lenta e desigual. Executivos de Syngenta, Mosaic, Cibra, Corteva, FMC, Helm e Biotrop avaliam que o setor ainda passa por um processo de ajuste de balanços, estoques, capital e crédito, que deverá limitar uma retomada mais rápida. Parte das empresas considera que o pior momento ficou para trás, mas outras avaliam que o setor ainda não encerrou a fase mais difícil. A percepção de melhora está associada principalmente à trajetória dos juros e à valorização das commodities agrícolas. A Selic, que encerrou 2025 em 15% ao ano, foi reduzida para 13,75% em setembro. No Porto de Paranaguá (PR), a soja passou de cerca de R$ 130,00 por saca de 60 Kg no início do ano para R$ 162,00 por saca de 60 Kg agora, segundo a Pátria Agronegócios.

Para a Agrolend, instituição financeira especializada em crédito ao agronegócio, a queda dos juros tende a prosseguir e caracteriza o início de um ciclo de alta para o setor. Entre os fabricantes de insumos, contudo, a avaliação é mais cautelosa. A Mosaic Fertilizantes considera que ainda há um volume relevante de ajustes a serem realizados e projeta desafios para os próximos 12 meses. Os recursos privados liberados até o momento no Plano Safra 2026/2027 estão 20% abaixo do volume registrado em igual período do ano passado, enquanto apenas 10% das linhas com juros subsidiados foram efetivamente contratadas. No mercado de capitais, as emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) recuaram 50,4% no primeiro semestre, para R$ 7,1 bilhões, de acordo com a Anbima. O nível de endividamento acumulado no campo é apontado como um dos principais fatores para a lentidão da recuperação.

A Syngenta Proteção de Cultivos estima que a dívida dos produtores com bancos, indústria e distribuição corresponda a cerca de cinco vezes o lucro da atividade. No primeiro trimestre, o agronegócio registrou 474 pedidos de recuperação judicial, alta de 21,9% ante igual período de 2025, segundo a Serasa Experian. O mercado tende a melhorar, mas o processo será prolongado. A crise, inicialmente associada a fatores conjunturais, também está provocando mudanças mais permanentes na gestão de capital e estoques pelas empresas. O saneamento dos balanços também deverá demandar tempo. A Corteva Agriscience estima um período de 24 a 36 meses para a recuperação dos balanços do setor, mesmo em um cenário de juros menores e preços agrícolas mais elevados. A atual crise apresenta características distintas de ciclos anteriores porque o País caminha para o quinto ano consecutivo de juros restritivos.

O estresse financeiro começa no produtor, alcança a distribuição e posteriormente chega à indústria, o que proporcionou às fabricantes mais tempo para se protegerem. As empresas de insumos, contudo, também enfrentam efeitos da deterioração do crédito. A Syngenta, avalia que o desempenho de crédito da companhia, tradicionalmente marcado por histórico considerado sólido, está atualmente fora dos padrões observados anteriormente. A escassez de recursos também evidencia diferenças na capacidade de organização financeira acumulada pelas empresas durante os períodos de maior rentabilidade. A dimensão da transformação em curso ainda divide as avaliações dentro do setor. A Cibra considera a possibilidade de o agronegócio estar passando por uma mudança estrutural, embora não tenha segurança quanto a essa interpretação.

A dificuldade de transmitir a dimensão da crise a acionistas estrangeiros é atribuída à sequência de safras recordes observada no Brasil, que contrasta com a deterioração financeira em parte da cadeia. A combinação entre cenário doméstico e ambiente geopolítico também dificulta o planejamento de médio e longo prazo, diante da influência de fatores externos sobre custos, mercados e disponibilidade de insumos. A Helm avalia que a própria expectativa de um novo ciclo favorável pode representar um fator de risco. A combinação de juros baixos, preços elevados das commodities e condições climáticas favoráveis esteve entre os elementos que antecederam a atual crise. Nesse contexto, a simples espera por um novo ciclo positivo não seria suficiente para solucionar os desequilíbrios acumulados. Na FMC Brasil, a expectativa é de um período prolongado de estabilidade nas vendas destinadas à distribuição.

A projeção é de faturamentos próximos da estagnação, acompanhados por melhora da qualidade das operações e redução de custos. Na Biotrop, a avaliação é de que a recuperação ocorrerá, mas ainda sem prazo definido. O setor atravessa um ciclo de inadimplência e retração e deverá posteriormente entrar em uma fase de recuperação e, na sequência, de expansão. A duração de cada etapa permanece como uma das principais incertezas para as empresas de insumos. O cenário, portanto, combina sinais positivos nas variáveis de mercado, como juros menores e preços agrícolas mais elevados, com restrições ainda relevantes no crédito e nos balanços dos agentes da cadeia. A velocidade da recuperação dependerá da redução do endividamento, da normalização do acesso a recursos, da recomposição financeira de produtores, distribuidores e indústrias e da capacidade das empresas de operar com maior disciplina de capital e estoques. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.