21/Sep/2026
A crise de oferta e de preços do enxofre entrou em uma nova fase no mercado brasileiro de fertilizantes, com os efeitos sobre a matéria-prima passando a atingir diretamente a operação das fábricas de fosfatados. Mosaic, EuroChem e OCP reduziram operações em diferentes unidades, em um momento em que a demanda brasileira por fertilizantes também está mais fraca. A Mosaic paralisou unidades no Brasil e avalia a venda da fábrica de Araxá (MG). A EuroChem realizou layoff na unidade de Serra do Salitre (MG), enquanto a OCP, um dos maiores produtores mundiais de fertilizantes fosfatados, reduziu em cerca de 30% a produção no Marrocos diante das condições de mercado. Os movimentos indicam ajuste da oferta industrial em resposta à elevação dos custos de produção e à menor demanda. O principal impacto do encarecimento do enxofre ocorre sobre os fertilizantes fosfatados, cuja fabricação depende da matéria-prima para a produção de ácido sulfúrico e de outros insumos intermediários.
A Mosaic já havia indicado em junho que, em alguns produtos, o custo de produção havia superado o preço de venda, levando à paralisação temporária de unidades no Brasil e nos Estados Unidos. O mercado passou, assim, a operar com dois movimentos simultâneos. De um lado, o produtor brasileiro perdeu poder de compra em razão dos preços dos insumos, das condições financeiras das propriedades e do custo do crédito. De outro, a indústria enfrenta custos elevados para produzir, principalmente nos fosfatados, em razão da valorização e da dificuldade de obtenção do enxofre. Esse descompasso cria uma dinâmica em que preços elevados dos fertilizantes reduzem a disposição de compra do produtor, enquanto a menor demanda não necessariamente resolve o problema de oferta, porque as empresas também enfrentam dificuldades para manter a produção economicamente viável. A redução do consumo, portanto, pode coexistir com redução da capacidade industrial.
Em julho, a discussão estava concentrada na contradição entre a estratégia brasileira de reduzir a dependência de fertilizantes importados e a perspectiva de diminuição da capacidade doméstica. Entre os três principais grupos de nutrientes, os fosfatados apresentam uma das maiores participações da produção nacional. Mesmo assim, as empresas já sinalizavam redução de capacidade, movimento que agora avançou para ajustes efetivos nas operações industriais. O cenário, contudo, não representa necessariamente uma falta generalizada de fertilizantes no mercado brasileiro. As importações continuam sendo uma fonte de abastecimento, há estoques remanescentes e existe possibilidade de redirecionamento de produtos entre diferentes mercados. A Mosaic também indicou a possibilidade de utilizar produção de suas unidades na América do Norte para atender ao Brasil, caso haja disponibilidade e demanda.
A diferença relevante está entre a disponibilidade imediata de produto e a capacidade de produção para responder rapidamente a uma eventual recuperação da demanda. A manutenção de unidades paralisadas reduz a capacidade de reação da indústria caso o consumo volte a crescer antes da normalização do fornecimento de enxofre. A demanda brasileira por fertilizantes está mais fraca em 2026, com dados e projeções indicando desaceleração das compras. Os preços dos fosfatados também recuaram nas últimas semanas, em parte em razão da menor procura brasileira por importações. O superfosfato simples (SSP), por exemplo, acumulou queda de aproximadamente 30% entre o início de maio e o fim de agosto. A combinação de menor demanda e preços mais baixos poderia indicar uma trajetória de normalização do mercado, mas a equação industrial é diferente. Para parte das empresas, o custo de produção continua elevado e, em determinados casos, supera o valor de comercialização do fertilizante.
Nesse ambiente, reduzir a utilização das fábricas pode ser economicamente mais viável do que manter a produção em plena capacidade. Se a demanda continuar fraca, a redução da capacidade instalada poderá não produzir efeitos imediatos sobre a disponibilidade de fertilizantes. O risco aumenta, porém, caso o consumo se recupere antes da normalização do mercado de enxofre e da retomada das unidades atualmente paralisadas. Nesse cenário, o produtor poderá voltar ao mercado em um momento em que parte da capacidade industrial esteja temporariamente indisponível. O episódio também evidencia uma limitação estrutural da estratégia brasileira de redução da dependência externa de fertilizantes. A ampliação da produção doméstica não depende apenas da existência de reservas minerais ou da construção de novas plantas industriais. É necessária uma cadeia competitiva de matérias-primas, acesso a capital, infraestrutura e condições econômicas que permitam operar as unidades de forma sustentável.
No caso dos fosfatados, a pressão sobre o enxofre mostra que a existência de rocha fosfática e de capacidade industrial instalada não garante produção economicamente viável em qualquer cenário de preços. A competitividade da indústria depende de toda a cadeia de insumos e da relação entre custos de produção, preços internacionais e demanda doméstica. O enxofre, que tradicionalmente recebeu menor atenção nas discussões sobre segurança do abastecimento de fertilizantes, passou a exercer influência direta sobre decisões de produção. A principal mudança no mercado brasileiro é que a crise deixou de representar apenas um problema de custo da matéria-prima e passou a afetar a quantidade de capacidade industrial efetivamente disponível. Esse fator ganha relevância para o planejamento da oferta de fertilizantes nas próximas safras. Enquanto a demanda permanece enfraquecida, as paralisações podem ser absorvidas pelo mercado. Uma recuperação das compras, contudo, poderá encontrar uma indústria com menor capacidade operacional caso a oferta e os preços do enxofre não se normalizem. Fonte: CNN Brasil. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.