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11/Sep/2026

Tecnologia: produtor prioriza retorno antes de investir

O produtor rural entrou em uma fase de maior exigência por retorno sobre investimento (ROI) antes de ampliar os gastos com tecnologias e insumos, independentemente da categoria, incluindo produtos biológicos, inteligência artificial, fertilizantes, máquinas e softwares. A constatação faz parte do relatório Global Farmer Insights 2026, da McKinsey & Company, elaborado a partir de entrevistas com 5.500 agricultores de dez países entre abril e julho de 2026. A decisão de compra passa a ser cada vez mais orientada pela capacidade comprovada de uma solução de elevar a rentabilidade da propriedade. Custo e retorno sobre investimento aparecem como os principais critérios de compra de insumos biológicos na Europa e na América do Norte, citados por 54% e 60% dos produtores, respectivamente. O indicador supera a reputação da marca, apontada por apenas 4% dos produtores europeus e 12% dos norte-americanos.

No recorte global, o desempenho comprovado é considerado relevante por 47% dos produtores, enquanto apenas 15% apontam a marca como fator determinante para a compra. A mesma lógica aparece na administração do orçamento em períodos de redução das margens. O fertilizante é o primeiro item a sofrer cortes quando a rentabilidade diminui, citado por 36% dos entrevistados, mas também é o primeiro a ter os gastos retomados quando as condições financeiras melhoram, apontado por 48%. O comportamento caracteriza um movimento de redução e retomada dos investimentos conforme o retorno esperado, com menor influência de fidelidade a categorias ou marcas. O interesse por inovação permanece elevado, mas a adoção ocorre de maneira mais gradual e seletiva.

No Brasil, um produtor de soja, milho e algodão participante da pesquisa descreve a introdução de novas tecnologias como um processo progressivo, com testes em escala reduzida antes da ampliação da utilização, à medida que os custos e os retornos são calculados. O comportamento reflete o ambiente de maior cautela que caracteriza as decisões de investimento no campo em 2026. O cenário geopolítico e econômico também passou a influenciar diretamente as decisões de gasto. A pesquisa foi realizada em um período marcado por choques nas cadeias de fertilizantes e commodities após o fechamento do Estreito de Ormuz no início do ano, além do início do fenômeno El Niño e de instabilidades econômicas na América Latina, China e Índia. Nesse ambiente, a intenção líquida de aumento dos gastos dos produtores nos 12 a 18 meses seguintes recuou 24% no total global em relação a 2024, embora a maioria dos agricultores ainda projete aumento dos desembolsos no período.

A retração foi mais acentuada na Argentina, com queda de 49 pontos porcentuais na intenção líquida de aumento dos gastos. A McKinsey relaciona o movimento à incerteza macroeconômica e às condições de política econômica do país, mesmo após a estabilização do peso. Os custos dos insumos permanecem como o principal risco para os lucros entre produtores europeus e norte-americanos, citados por 58% e 66% dos entrevistados, respectivamente, em meio às disrupções nas cadeias de suprimentos observadas durante a realização da pesquisa. No Brasil, a adoção de tecnologias agrícolas, ou agtechs, também apresentou retração. A parcela de produtores que utiliza ao menos uma solução de agtech recuou 3% no período pesquisado, em movimento contrário ao observado na Argentina, com alta de 7%, na Alemanha, com avanço de 5%, e na Índia, com crescimento de 11%.

As condições econômicas da América Latina ajudam a explicar a maior cautela dos produtores brasileiros e da região. O levantamento ocorreu em um ambiente de incerteza econômica, enquanto o fenômeno El Niño provocava estiagem, calor extremo e chuvas intensas. As condições climáticas foram apontadas por 58% dos produtores latino-americanos como o principal risco aos lucros, à frente dos custos dos insumos, citados por 42%. O custo de financiamento também apresenta maior peso na região: 25% dos produtores latino-americanos incluem esse fator entre os três principais riscos à rentabilidade, o maior percentual entre todas as regiões pesquisadas. O comportamento de compra na América Latina também apresenta maior divisão entre produtos de proteção de cultivos de marca e genéricos. Entre os produtores de grãos, 33% esperam migrar para produtos de marca nos próximos dois anos, enquanto 23% projetam migração para genéricos.

O movimento contrasta com o observado na Europa e na América do Norte, onde a migração para produtos genéricos predomina. A inteligência artificial generativa, por outro lado, apresenta ritmo acelerado de adoção e tende a se consolidar entre as tecnologias agrícolas de disseminação mais rápida. A América Latina lidera a utilização, com 26% dos produtores recorrendo a alguma ferramenta de IA, dos quais 7% utilizam versões pagas. Na América do Norte, a adoção chega a 23%, com 10% dos produtores utilizando versões pagas. Nos Estados Unidos, a parcela de agricultores que já paga por soluções de IA generativa alcança 11%, ritmo de adoção comparável ao registrado pela tecnologia de aplicação em taxa variável nos primeiros cinco anos após seu lançamento. Entre os produtores que já utilizam IA generativa na propriedade, o principal uso está no planejamento da safra, citado por 43%, seguido pelo manejo da lavoura, com 33%.

Apesar da expansão da tecnologia, a confiança para decisões de compra ainda é limitada. Apenas 6% dos produtores consideram chatbots de IA uma fonte confiável para orientar compras, enquanto 56% ainda apontam agrônomos técnicos e representantes de vendas como os principais influenciadores das decisões. O cenário indica que a inovação permanece incorporada às estratégias de gestão das propriedades, mas sua expansão está condicionada à comprovação objetiva de retorno econômico. A combinação entre margens mais pressionadas, custos elevados de insumos, riscos climáticos, financiamento mais caro e incertezas geopolíticas tende a manter o produtor rural mais seletivo, favorecendo tecnologias capazes de demonstrar ganhos de produtividade, redução de custos ou aumento direto da rentabilidade. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.