03/Sep/2026
A Bayer inicia a safra brasileira 2026/27 com "otimismo cauteloso" diante da perspectiva de produção elevada, melhora recente das margens em algumas culturas e um mercado de insumos que vem se comportando dentro do esperado, diz o CEO da Bayer Brasil, Márcio Santos. Em entrevista durante o Bayer Innovation Showcase, realizado em Huxley, no Estado americano de Iowa, para apresentar o portfólio de tecnologias agrícolas da empresa, o executivo disse que as vendas no Brasil estão em linha com as projeções, embora o período mais relevante de comercialização de insumos para a nova safra ainda esteja por vir. "O grosso do mercado é agora. Tem muita coisa para acontecer ainda", disse.
Santos também tratou da Intacta 5+, nova geração de sementes de soja da Bayer que reúne, numa mesma semente, resistência a diferentes pragas e tolerância a vários herbicidas. A tecnologia, que está sujeita à aprovação regulatória do Ministério da Agricultura (Mapa), deve chegar ao mercado brasileiro na safra 2027/28. Para o executivo, ela representa um avanço maior do que o observado com a chegada da primeira geração da Intacta, sobretudo por ajudar o produtor a lidar com plantas daninhas resistentes a herbicidas - um dos maiores desafios da lavoura brasileira hoje. "Eu vejo um salto tecnológico maior do que o que a gente teve com a chegada da Intacta", afirmou.
A companhia não detalhou projeções de vendas ou de ritmo de adoção específicas para o Brasil. O executivo comentou ainda as disputas judiciais envolvendo royalties de tecnologias da Intacta e o ambiente de crédito no agronegócio brasileiro. Segundo ele, a Bayer considera o Brasil um mercado institucionalmente estável e segue confiante no País, mas reconhece que questionamentos recorrentes sobre aspectos essenciais do ambiente de negócios podem, com o tempo, pesar sobre decisões de investimento de qualquer empresa. Em relação a crédito, Santos disse que a percepção de risco no mercado brasileiro permanece elevada e que a companhia tem sido mais criteriosa na escolha dos clientes atendidos por novas linhas de financiamento. Segue a entrevista:
A safra 2026/27 começa agora em algumas regiões do Brasil, com expectativa de produção elevada de soja. Qual é a visão da Bayer para o novo ciclo?
Márcio Santos: É um otimismo cauteloso, mas também embasado. O Brasil segue como um ambiente importante para produção de alimento e energia. A área está lá, o produtor está lá, o sistema está instalado, existe toda uma cadeia de insumos desenvolvida, e o papel do produtor é produzir. O nosso papel é estar com ele, levando soluções para produzir melhor e mais. Somos uma empresa que investe em inovação e estamos em uma grande safra de lançamentos, em químicos, sementes de milho e soja e biotecnologia. As vendas acontecem dentro do esperado, não abrimos o número do País, mas está em linha com a projeção. O grosso do mercado é agora, então ainda tem muita coisa para acontecer.
A Intacta 5+ está prevista para chegar ao Brasil na safra 2027/28. Qual pode ser o tamanho dessa tecnologia no País? A adoção deve ser rápida?
Márcio Santos: O potencial divulgado é do conjunto da tecnologia como um todo, em nível global. O Brasil é um mercado importante, mas uma variação da tecnologia também está sendo lançada nos Estados Unidos - não é exatamente a mesma semente, mas parte da mesma família de tecnologia, então é preciso colocar os valores em perspectiva. No Brasil, dependemos primeiro das aprovações regulatórias globais, por isso somos sempre cautelosos com prazo. Podemos ter produto em campo já na safra 2027/28, mas isso depende de como avançarem essas aprovações. Sobre adoção, ainda precisamos ter as variedades corretas para cada agricultor. Não dá para dizer se será uma substituição imediata. Mas, como agrônomo e como alguém que trabalha no Brasil há 35 anos, vejo um avanço maior do que tivemos com a chegada da Intacta.
Por quê?
Márcio Santos: Porque essa tecnologia ataca um problema muito latente, que é o manejo de plantas daninhas. Além de ampliar o controle de pragas, ela traz uma solução inovadora para um problema que hoje é muito difícil para o agricultor manejar e está piorando a cada ano. A combinação com diferentes opções de manejo químico, com herbicidas aplicados antes e depois do surgimento das plantas daninhas, representa um salto. Já estamos vendo ganhos significativos de produtividade em campo pela nossa metodologia de introgressão de traits (transferência de gene, técnica usada para incorporar novas características genéticas em variedades já estabelecidas no mercado), o que também deve acelerar a adoção.
Há disputas judiciais envolvendo tecnologias Intacta no Brasil. Isso preocupa a Bayer do ponto de vista de investimento?
Márcio Santos: Temos um corpo jurídico trabalhando nisso e respeitamos o funcionamento das instituições. O Brasil criou um ambiente de negócios estável, o que não significa um ambiente sem problemas, mas um ambiente em que, no fim, as instituições funcionam. Nosso mercado é extremamente regulado, e enxergamos o Brasil como um mercado estruturado. Se você começa a ter muitos questionamentos sobre coisas essenciais, isso pode, em algum momento, adicionar alguma incerteza sobre o mercado como um todo, não só para a Bayer, mas para qualquer investidor. Ainda assim, seguimos confiantes de que o Brasil vai continuar sendo atrativo para investimentos.
O agronegócio teve aumento nos pedidos de recuperação judicial, enquanto empresas como a Bayer passaram a estruturar financiamento próprio. Essa é uma resposta ao crédito mais restritivo?
Márcio Santos: Trabalhamos, sim, em novas modalidades de crédito. Mas também existe uma discussão sobre quais clientes conseguimos atender com esse crédito. Hoje há uma percepção de risco mais elevada no mercado brasileiro, e nós operamos dentro dessa realidade. Por isso, precisamos ser mais criteriosos na liberação: qualquer operação precisa ser estruturada para que, no final, seja liquidada e funcione bem. Trabalhamos tanto em novas metodologias de crédito quanto na definição dos grupos de clientes que conseguimos atender.
O ambiente econômico do produtor começa a melhorar?
Márcio Santos: Quando olhamos os preços, vemos situações diferentes: o café vive um momento interessante, enquanto a cana ainda passa por um cenário mais desafiador. Olhando a soja nas últimas semanas e a tendência do milho, parece que estamos voltando para um momento em que as margens ficam mais saudáveis. Isso traz otimismo para todo o setor, sem dúvida.
Fonte: Broadcast Agro.