03/Sep/2026
Os desembolsos relacionados aos litígios do Roundup nos Estados Unidos não limitam os investimentos da Bayer na América Latina, afirma o presidente da Bayer Crop Science para a região, Maurício Rodrigues. Roundup é uma marca de herbicidas à base de glifosato da Monsanto, controlada pela Bayer, e está no centro de um contencioso judicial que dura anos nos Estados Unidos. Autores de ações alegam que a exposição ao produto está associada ao desenvolvimento de câncer, incluindo linfoma não Hodgkin. A Bayer contesta essa relação e sustenta que avaliações de órgãos reguladores respaldam a segurança dos herbicidas à base de glifosato quando utilizados conforme as orientações. Em fevereiro, a Bayer elevou de € 7,8 bilhões para € 11,8 bilhões as provisões e passivos relacionados ao conjunto de seus litígios, dos quais € 9,6 bilhões correspondem ao contencioso envolvendo glifosato. A companhia estimou ainda aproximadamente € 5 bilhões em desembolsos relacionados a litígios em 2026.
No mesmo mês, a Monsanto anunciou um acordo coletivo proposto de até US$ 7,25 bilhões para resolver determinadas reivindicações atuais e futuras nos Estados Unidos que alegam lesões por linfoma não Hodgkin relacionadas ao glifosato. O acordo não implica admissão de responsabilidade pela companhia e permanece sujeito ao processo de aprovação judicial. A situação jurídica teve uma mudança relevante em junho. Por 7 votos a 2, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu a favor da Monsanto no caso Durnell e concluiu que a legislação federal impede aquele tipo de ação estadual baseada na alegação de que o rótulo do Roundup deveria conter uma advertência sobre câncer diferente daquela aprovada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). A decisão restringiu uma importante tese usada em ações contra a Monsanto, mas não encerrou o contencioso relacionado ao Roundup nos Estados Unidos.
É nesse contexto que Rodrigues afirma que o passivo não alterou os planos da Bayer para a América Latina. “Não limita”, disse ao Broadcast Agro, durante o Bayer Innovation Showcase, evento realizado pela companhia em Huxley, Iowa. Segundo ele, os valores relacionados aos processos já estavam incorporados ao planejamento e não provocaram redução dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação na região. “Continuamos investindo em ciência e tecnologia, continuamos investindo em inovação na mesma proporção que a gente estava antes.” Rodrigues disse também que o Brasil permanece entre os mercados prioritários da Bayer no processo global de concentração de investimentos em países, culturas e tecnologias com maior potencial. Segundo ele, a companhia pode descontinuar pontualmente produtos que já não tenham demanda, mas não prevê redução do “apetite” pelo mercado brasileiro. “Em relação ao Brasil, essa preocupação é zero”, afirmou. Segue a entrevista:
Os gastos relacionados aos litígios do Roundup nos Estados Unidos limitam os investimentos da Bayer na América Latina?
Maurício Rodrigues: Não limitam. Evidentemente, precisamos passar por essa questão do litígio, precisamos resolvê-la de forma significativa. Acreditamos na consistência do nosso produto, acreditamos na ciência por trás dele e queremos conseguir investir em outras coisas, e não em litígio. Mas isso não inviabiliza nem gera uma situação diferente daquela que já temos no planejamento. Continuamos investindo em ciência e tecnologia, continuamos investindo em inovação na mesma proporção que antes. Todos esses números já eram considerados. O resultado da Suprema Corte foi positivo e acreditávamos que seria positivo. Há saídas no curto prazo, acreditando que, no médio prazo, não tenhamos mais essa questão do litígio por trás. Como estamos falando de investimento de médio prazo, o cenário é positivo.
As discussões sobre royalties e propriedade intelectual no Brasil podem alterar a estratégia da Bayer para novas biotecnologias?
Maurício Rodrigues: A gente acredita e espera atuar no máximo possível de países onde exista respeito à propriedade intelectual e segurança jurídica, porque isso é fundamental para conseguir trazer inovação. Historicamente, o Brasil tem se mostrado bastante sólido nesse aspecto. Discussões e debates fazem parte de um ambiente democrático. Desde que exista respeito à propriedade intelectual, seguimos acreditando que o Brasil esteja nesse caminho. Em qualquer debate que exista, inclusive perante o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), trabalhamos com o órgão regulador, damos o máximo de informação possível e buscamos assegurar transparência. Não vejo mudança, pelo menos na nossa forma de enxergar. A execução pode ter ajustes aqui e ali, mas, de forma geral, espero que não haja mudança nessa direção. Segurança jurídica e respeito à propriedade intelectual têm um histórico importante, mas precisamos também olhar para frente. Se o Brasil não mudar esse curso, não deveríamos mudar nada na nossa estratégia.
A Bayer vem concentrando investimentos globalmente. Qual é a posição do Brasil nesse processo?
Maurício Rodrigues: Essa escolha veio de um processo de priorização muito grande, e ele é difícil. Temos interesse em estar no máximo possível de culturas e países, mas muitas vezes isso não é viável. Não dá para apostar em tudo. Precisamos definir quais países têm maior potencial e onde devemos concentrar os investimentos. Nesse exercício, o Brasil desponta totalmente. Em relação ao Brasil, essa preocupação é zero. Pode existir a descontinuação pontual de uma tecnologia que já não tenha utilidade ou demanda, mas não existe mudança no nosso apetite pelo País. Foi um exercício global de priorização justamente para investir mais nos países e cultivos nos quais temos uma aposta maior.
O que explica o ritmo mais fraco dos negócios da Bayer na América Latina no primeiro semestre?
Maurício Rodrigues: O primeiro semestre foi mais atrasado, e boa parte disso veio de um atraso geral da safra. Isso foi importante no Brasil, na Argentina e no México. Tivemos uma coincidência de esses três países estarem atrasados nessa primeira metade do ano. O primeiro semestre também não é o período mais relevante para a América Latina. Nosso resultado acontece muito mais no segundo semestre. Então não chega a ser uma preocupação para o ano, mas é um ponto de atenção para garantir que este segundo semestre seja o mais eficiente possível.
A situação de liquidez do produtor também adiou decisões?
Maurício Rodrigues: Em alguns casos, sim. Houve atraso no plantio e atraso na decisão de comprar. Parte dessa postergação veio de questões de liquidez. O cenário macroeconômico não faz necessariamente com que a decisão deixe de existir, mas pode fazer com que seja adiada. Estamos bastante confiantes neste segundo semestre. Existe um fator adicional, que é o El Niño, e isso coloca mais complexidade neste ano. Ainda assim, acreditamos em um crescimento leve e um pouco acima do mercado em 2026.
Fonte: Broadcast Agro.