28/Aug/2026
As entregas de fertilizantes no Brasil devem recuar de 49 milhões de toneladas em 2025 para uma faixa entre 42 milhões e 45 milhões de toneladas em 2026, segundo estimativas de consultorias de mercado e das principais indústrias do setor. O intervalo representa queda superior a 10% e ocorre em um cenário de menor rentabilidade das lavouras, dificuldade de acesso a crédito, juros elevados e impactos dos conflitos no Oriente Médio sobre a oferta e os preços das matérias-primas. A Agroconsult trabalha com 45 milhões de toneladas para 2026, mas considera possível um volume ainda menor. A Agrinvest, que anteriormente projetava 44 milhões de toneladas, também avalia possibilidade de revisão para baixo. Entre as indústrias, a Yara estima cerca de 43 milhões de toneladas, enquanto a Mosaic trabalha com uma faixa entre 42 milhões e 45 milhões de toneladas. A retração ocorre poucas semanas antes do início do plantio da safra de grãos no Centro-Oeste, principal região produtora de soja do Brasil.
O ritmo de compras de fertilizantes está abaixo do observado em safras anteriores, principalmente em razão da menor rentabilidade das lavouras e das restrições de financiamento. A Agroconsult projeta que as entregas encerrem 2026 em 45 milhões de toneladas, com viés de baixa, e considera que um resultado de 44 milhões de toneladas não seria surpreendente, enquanto um volume de 46 milhões de toneladas estaria acima do esperado. A redução deve alcançar os principais nutrientes, com impacto mais acentuado sobre os fertilizantes fosfatados, enquanto nitrogênio e potássio também devem apresentar retração. O período mais crítico para as entregas, segundo a consultoria, deve ocorrer entre maio e setembro. Nesse intervalo de 2025, foram entregues 23,9 milhões de toneladas de fertilizantes. Para o mesmo período de 2026, a estimativa é de 19,6 milhões de toneladas, redução de 4,3 milhões de toneladas. As importações também devem diminuir.
As compras externas estão projetadas em 38,4 milhões de toneladas em 2026, ante 43,3 milhões de toneladas em 2025, queda de 11,3%. A produção nacional deve recuar de 7,2 milhões para 5,8 milhões de toneladas, redução de 19,4%. O ajuste reflete tanto a menor oferta importada quanto as dificuldades enfrentadas pela produção doméstica, com retração mais expressiva no nitrogênio e nos fosfatados e impacto relativamente menor no potássio. No balanço entre oferta e demanda, o mercado tende a ficar mais apertado. A oferta total, considerando estoques iniciais, importações e produção, deve recuar 10,4% em 2026, para 53 milhões de toneladas. A demanda, que inclui entregas, exportações e outros usos, deve cair 7,7%, para 46,3 milhões de toneladas. Como a oferta deve diminuir em ritmo superior ao da demanda, os estoques finais tendem a recuar 23,4%, de 8,8 milhões para 6,7 milhões de toneladas.
Para produtores em situação financeira mais restritiva, a redução da área plantada pode se tornar uma alternativa à diminuição excessiva da quantidade de fertilizante aplicada, diante da necessidade de preservar a produtividade e evitar maior deterioração econômica. A retração no uso de fertilizantes ocorre, portanto, mais por necessidade financeira do que por uma mudança deliberada de estratégia tecnológica. O produtor vinha buscando ampliar a adoção de tecnologia, mas a combinação de margens menores e menor disponibilidade de crédito tem levado à revisão dos planos de investimento. A dificuldade de acesso ao crédito é um dos principais fatores de pressão sobre as compras. Inadimplência, percepção elevada de risco e juros altos formam um gargalo para o financiamento das aquisições de insumos. Segundo estimativas da Mosaic, cerca de 85% dos fertilizantes necessários para a safra já haviam sido negociados duas semanas antes do Congresso Brasileiro de Fertilizantes, percentual entre 3% e 5% abaixo do normalmente observado nesse momento do ciclo.
Na Yara, a combinação de preços mais elevados dos fertilizantes com rentabilidade e margens mais estreitas, principalmente entre os produtores de grãos, também tem levado ao adiamento de investimentos. O ritmo de comercialização apresenta diferenças regionais. No Cerrado, mais de 90% dos fertilizantes destinados à safra de verão (1ª safra 2026/2027) já haviam sido comercializados. No Rio Grande do Sul, a comercialização de fertilizantes fosfatados e potássicos estava entre 65% e 70%. A menor capacidade de compra também começa a alterar o perfil da adubação. Há migração para produtos com menor concentração de nutrientes, como o superfosfato triplo, enquanto, na combinação entre fósforo e nitrogênio, o sulfato ganha espaço. Entre os nutrientes, o fósforo concentra parte relevante das preocupações da indústria em razão da alta do enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados.
Na Yara, o preço do MAP, que estava entre US$ 620,00 e US$ 630,00 por tonelada CFR antes dos conflitos, avançou para a faixa de US$ 900,00 a US$ 920,00 por tonelada e permanece elevado devido à pressão sobre custos e disponibilidade. Na Mosaic, a estimativa é de preço do MAP entre US$ 850,00 e US$ 860,00 por tonelada. Entre os principais nutrientes, o fósforo foi o que apresentou maior alta e não retornou aos níveis anteriores. A Mosaic projeta redução de 20% a 30% na aplicação de fertilizantes fosfatados em 2026. O movimento representa uma tentativa de redução de custos, mas pode provocar efeitos negativos sobre a produtividade. Pelas estimativas da empresa, a menor aplicação de fósforo poderia reduzir a produtividade da soja entre 5% e 7%, com impacto potencialmente maior em áreas mais novas e com menor histórico de adubação. Cerca de 70% das terras destinadas à agricultura são cultivadas há mais de 10 anos, enquanto os 30% restantes apresentam menor histórico de adubação.
Nessas áreas mais novas, a redução do uso de fertilizantes tende a provocar impacto maior sobre a produtividade. Os produtores, por sua vez, procuram calibrar a redução da adubação para limitar os efeitos sobre a produção e evitar impactos econômicos adicionais, mas operam próximos ao limite dessa estratégia. A principal preocupação para 2026 está concentrada na demanda, enquanto o risco para 2027 se desloca para o lado da oferta. Parte do enxofre utilizado atualmente pelas fabricantes brasileiras de fertilizantes foi adquirida antes da escalada dos preços, o que ajudou a evitar uma restrição mais severa na produção de fosfatados neste ano. A combinação entre menor consumo e estoques de enxofre adquiridos anteriormente permitiu evitar uma falta mais expressiva de fósforo em 2026. Essa proteção, porém, tende a diminuir, e a normalização da oferta pode levar de 6 a 12 meses, em um mercado no qual a produção vem sendo afetada em diferentes regiões. O preço do enxofre passou de US$ 400,00 a US$ 450,00 por tonelada antes do início do conflito para cerca de US$ 1.200,00 por tonelada atualmente.
Nesse patamar, a produção de fertilizantes fosfatados deixa de ser economicamente viável, aumentando o risco de redução da oferta. A preocupação está relacionada à combinação entre preços elevados e menor produção em diferentes regiões produtoras. Além do Brasil, o Norte da África, a China e os Estados Unidos enfrentam redução da produção, configurando um problema de alcance global. Caso as condições de oferta não melhorem, o mercado poderá enfrentar um choque significativo na disponibilidade de fertilizantes em 2027, embora ainda não seja possível determinar quando esse movimento poderá ocorrer. No Brasil, a Mosaic adotou ajustes na capacidade produtiva diante da retração do mercado. A companhia paralisou ou reduziu o funcionamento de sete de suas 15 unidades no País, estratégia que deverá limitar as perdas em um cenário de queda das entregas de 49 milhões para uma faixa potencial de 42 milhões a 45 milhões de toneladas. A Yara, por sua vez, conta com uma matriz diversificada de produção e fornecedores, reduzindo a exposição a eventuais rupturas de oferta.
Cerca de 25% dos fertilizantes comercializados pela companhia no Brasil são provenientes de unidades próprias no exterior, principalmente na Europa, enquanto outros 25% são produzidos no País, em unidades localizadas em Rio Grande (RS), Ponta Grossa (PR) e Cubatão (SP). Os 50% restantes são importados de fornecedores externos. A diversificação da matriz de abastecimento proporciona maior estabilidade e segurança de fornecimento. Para 2026, a Yara projeta estabilidade em relação ao ano anterior nos resultados financeiros, nos volumes de comercialização, no volume total e na rentabilidade. O cenário para o mercado brasileiro de fertilizantes, portanto, combina retração da demanda, menor capacidade de financiamento e redução da aplicação de nutrientes em 2026 com um risco crescente de restrição da oferta em 2027. A queda dos estoques, a menor produção doméstica, a redução das importações e a forte valorização do enxofre elevam a atenção sobre os custos e a disponibilidade dos fertilizantes para a próxima temporada. Fonte: AgFeed. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.