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28/Aug/2026

Irrigação: crédito restrito freia investimento no Brasil

Os produtores rurais ampliaram a procura por projetos de irrigação em 2026 diante dos riscos climáticos associados ao El Niño, que tende a provocar períodos de seca do Centro ao Norte do Brasil. A elevada demanda por equipamentos, no entanto, ainda não se converte integralmente em vendas devido à restrição de crédito e às margens pressionadas no agronegócio. O mercado brasileiro de equipamentos de irrigação movimenta entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões por ano. Em 2025, o setor registrou crescimento de cerca de 2%, mesmo em um ambiente econômico mais pressionado. Para 2026, a percepção do segmento é de cautela, embora a intensificação dos riscos climáticos esteja ampliando o número de projetos e cotações solicitados pelos produtores.

A procura por sistemas de irrigação vem aumentando à medida que eventos extremos associados ao El Niño e à La Niña se tornam mais intensos e frequentes. Entretanto, a concretização dos negócios depende principalmente da capacidade financeira dos produtores e do acesso ao crédito. Há casos de agricultores sem débitos ou risco de recuperação judicial que ainda enfrentam dificuldades para obter financiamento bancário. As instituições financeiras têm avaliado o fluxo de caixa e o grau de alavancagem dos produtores com base nas perspectivas de preços das commodities e nos custos dos insumos. Em um ambiente de margens mais apertadas e aumento da inadimplência no campo, a percepção de risco do setor se elevou, restringindo a liberação de crédito inclusive para investimentos produtivos.

O Proirriga, linha do Plano Safra destinada ao financiamento de projetos de irrigação com juros equalizados, sofreu redução de 38% no volume de recursos disponíveis para a safra 2026/27 em comparação com a temporada anterior. A oferta foi fixada em R$ 1,7 bilhão, enquanto a taxa de juros recuou 1 ponto percentual, para 11,5% ao ano. A redução dos recursos buscou aproximar a disponibilidade financeira do volume efetivamente contratado, mas a própria contratação foi afetada pelas restrições de crédito enfrentadas pelos agricultores. Com menor acesso às linhas tradicionais do Plano Safra, cresce a participação de outras fontes de financiamento nas vendas de equipamentos.

Os recursos próprios dos produtores, fundos de investimento, crédito oferecido pelos fabricantes e operações de barter, com pagamento por meio de commodities, passaram a ocupar espaço relevante na estrutura de financiamento dos projetos. Mesmo com o aumento da demanda e do volume de cotações, a expectativa de parte das empresas é de crescimento muito reduzido ou estabilidade nas vendas em 2026. O período entre a elaboração de uma cotação e a conclusão de um negócio pode chegar a dois anos, o que significa que parte dos projetos em análise atualmente poderá ser convertida em vendas apenas nos próximos ciclos. Os investimentos em irrigação também possuem características de longo prazo, pois envolvem não apenas a aquisição dos equipamentos, mas a implantação de infraestrutura complementar, como redes de energia, além da obtenção de outorgas de uso da água junto às autoridades públicas.

A percepção predominante no setor é de que o El Niño acelerou a formação de uma carteira de projetos desde o início de 2026, mas a janela comercial para a safra 2026/27 já se aproxima do fim. Os contratos fechados no período atual deverão atender, em grande parte, áreas destinadas à 2ª safra de 2027. Nesse contexto, a expectativa é de que uma demanda represada possa favorecer a recuperação do mercado de irrigação em 2027. O crédito permanece como a principal barreira para a conversão da demanda em vendas. Algumas empresas esperam realizar cerca de metade de suas vendas por meio de estruturas de financiamento próprias ou oferecidas por parceiros.

Entre as alternativas utilizadas estão o Proirriga, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), operações de barter com café e grãos e linhas de crédito denominadas em dólar e euro. As dificuldades de financiamento também vêm estimulando parcerias entre fabricantes e agentes financeiros, incluindo fundos internacionais, para ampliar a oferta de crédito com taxas mais acessíveis e mecanismos de compartilhamento de risco. A demanda por irrigação, porém, não se limita às regiões potencialmente afetadas pela seca associada ao El Niño. No Sul, onde o fenômeno pode favorecer chuvas mais intensas, os sistemas de irrigação localizada também podem ser utilizados para repor nutrientes removidos do solo e das plantas pelo excesso de precipitações concentradas em curtos períodos. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.