27/Aug/2026
As medidas anunciadas pelo governo federal para estimular a indústria de fertilizantes, como os R$ 4 bilhões em crédito previstos para o setor no Brasil Soberano 3 e o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), são importantes para o médio e o longo prazo, mas não resolvem o principal problema atual do mercado: a falta de financiamento ao produtor rural, afirma o country manager da Mosaic Brasil, Eduardo Monteiro. Em entrevista, ele disse que o crédito restrito já limita as compras de insumos e pode fazer com que o consumo no mercado brasileiro fique abaixo das 45 milhões de toneladas estimadas para 2026. O programa Brasil Soberano 3 prevê R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito, dos quais R$ 4 bilhões serão destinados a empresas de fertilizantes.
Já o Profert, que deve ser sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos próximos dias, estabelece mecanismos de financiamento e participação mínima de fertilizantes nacionais no mercado. “Entendemos que, quando se fala de biofertilizantes, é preciso um marco regulatório sólido e responsável”, afirmou. Segundo Monteiro, a redução na adubação fosfatada deve pressionar a produtividade na safra 2026/27. Ele defende uma subvenção temporária para o enxofre e o ácido sulfúrico, estimada em R$ 2 bilhões por três meses, e afirma que os efeitos econômicos de uma eventual redução da produção agrícola poderiam chegar a valores entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões. Para a próxima safra, acrescenta, o cenário pode ser mais preocupante, diante da redução da produção doméstica de fosfatados e da menor formação de estoques. Segue a entrevista:
Durante o congresso, o vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou R$ 4 bilhões em crédito dentro do programa Brasil Soberano 3 para empresas de fertilizantes e, em breve, o presidente Lula deve sancionar o Profert. Como o senhor avalia essas medidas?
Eduardo Monteiro: Todas as medidas anunciadas pelo governo que envolvem o Profert e o Brasil Soberano, com financiamento destinado ao segmento, são importantes para o médio e o longo prazo. Porém, não endereçam os desafios de curto prazo que estamos vivendo agora no campo. Há uma retração do mercado de insumos que vai desembocar em redução da tecnologia utilizada pelo agricultor e, consequentemente, da produtividade. Pelo nível de adubação fosfatada que estamos aplicando este ano, provavelmente teremos uma redução de produtividade no Brasil. A adubação fosfatada está caindo de 20% a 30%.
Então as medidas anunciadas não resolvem o problema de curto prazo?
Eduardo Monteiro: Não. O Brasil Soberano traz linhas de crédito para as empresas de fertilizantes. Quem precisa de crédito é o agricultor brasileiro, não as empresas de fertilizantes. Hoje, no campo, temos muitas restrições de crédito, associadas ao ambiente de alto risco das recuperações judiciais e às perdas expressivas dos bancos públicos no agronegócio. O Profert e a linha do Brasil Soberano são muito bons, mas endereçam uma situação de médio e longo prazo. A agricultura precisa de apoio agora.
O que a indústria de fertilizantes demanda do governo neste momento?
Eduardo Monteiro: A principal demanda tem sido um apoio pontual à situação envolvendo o enxofre. Gradativamente, os principais produtores vêm reduzindo sua produção e, consequentemente, sua disponibilidade. O fosfatado foi o único fertilizante que não reduziu de preço, em função do desafio do enxofre. O fertilizante que estou produzindo agora decorre de um enxofre que adquiri até março, antes da guerra e da disparada do preço. A partir de agora, começo a produzir para atender o próximo ciclo. Por isso, estamos pedindo uma subvenção temporária, por três meses. Nosso sindicato está capitaneando isso e tem um projeto que prevê R$ 2 bilhões.
Quais podem ser os impactos caso esse apoio não seja concedido?
Eduardo Monteiro: O efeito colateral pode ser grande. Quando falamos de redução de produtividade, reduzimos a produção de soja e as exportações. Com isso, também cai a atividade econômica, que envolve transporte, frete e armazenagem. Estimamos que esse impacto possa significar de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões. Ou seja, para cada real que você investe, pode potencialmente minimizar impactos negativos de R$ 10 a R$ 15.
O Brasil consumiu 49 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025. Para 2026, há estimativas de que possa ficar abaixo das 45 milhões de toneladas. O senhor concorda?
Eduardo Monteiro: Há várias vertentes no mercado, com estimativas entre 42 milhões e 45 milhões de toneladas. O viés de baixa é verdadeiro. O principal desafio para que não fiquemos no número menor é o crédito. Com o crédito restrito, o agricultor não vem tomando decisões de compra. Por mais que queira comprar, não tem recursos. Isso pode ser decisivo. Além disso, já temos a questão do preço do fósforo. O nível de adubação vai ser reduzido este ano. Se essa situação se perpetuar no ano que vem, o impacto será muito maior. Por isso, reforçamos a necessidade de financiamento ao produtor, produção doméstica de fertilizantes fosfatados, subvenção do enxofre e avanço da agenda regulatória dos bioinsumos.
O avanço na regulamentação dos bioinsumos ajudaria a indústria de fertilizantes no curto prazo?
Eduardo Monteiro: Sim. O governo está discutindo onde essa questão deveria ficar, se no Ministério da Agricultura, no Ibama ou no Ministério do Meio Ambiente. Entendemos que, quando se fala de biofertilizantes, é preciso um marco regulatório sólido e responsável, e que o Ministério da Agricultura tem todas as prerrogativas para isso. No ambiente que vivemos hoje, em que teremos menos tecnologia aplicada no campo, os biológicos são uma alternativa. Eles não resolvem todo o problema de déficit nutricional de fertilizantes, mas minimizam. O governo pode ajudar bastante no curto prazo dando prosseguimento a essa agenda.
Como esse cenário de mercado menor afeta a operação da Mosaic no Brasil?
Eduardo Monteiro: A Mosaic vem acompanhando, desde o início do ano, as tendências do mercado. Reduzimos nossa atividade produtiva em função do enxofre e, na distribuição, paralisamos temporariamente duas unidades e repassamos os volumes para outras com capacidade de absorver. Vamos acompanhar o mercado. A agricultura é cíclica e temos o otimismo de que sua resiliência fará o mercado voltar.
Há sinais de melhora para o produtor?
Eduardo Monteiro: Já observamos alguns sinais. O preço das commodities, como soja e milho, vem melhorando. O principal remédio para o produtor é melhorar o fluxo de caixa e a rentabilidade. Isso pode ocorrer por redução do preço do insumo, que não é o caso, ou por aumento de receita em função dos preços das commodities. Recentemente também tivemos um alívio no preço do açúcar. São suficientes para fazer a situação virar? Ainda não. Também temos que olhar para fora e torcer para que não haja nenhum problema climático mais sério. Temos um El Niño se aproximando, que é um ponto de atenção. Esse é outro tema importante para a agenda do seguro em relação a problemas climáticos.
Há risco de falta de fertilizantes para esta safra?
Eduardo Monteiro: Nesta safra, não, em função da redução do tamanho do mercado. Até julho, o Brasil havia importado 10% menos fertilizantes no acumulado. Em agosto, em função da situação de crédito, o line-up do mês para fertilizantes caiu 50%. Nossa preocupação é para o ano que vem. Quando começamos a observar que a indústria de fosfatados vem reduzindo sua produção, não teremos estoques de passagem altos que permitam nos preparar para a próxima safra. No fósforo, em função da situação do enxofre, vemos um ponto de atenção importante para o próximo ano.
Fonte: Broadcast Agro.