24/Aug/2026
A corrida global pelo acesso às terras raras, insumos estratégicos para a fabricação de telefones celulares e para tecnologias associadas à transição energética, está ampliando o interesse internacional pelo Brasil e intensificando a competição com a China. O País surge como alternativa para Estados Unidos, Austrália e outros investidores em um contexto de busca por diversificação das cadeias globais de suprimento e redução da dependência chinesa. O movimento pode ampliar os investimentos e os impactos econômicos sobre o setor mineral brasileiro, uma vez que o Brasil detém as segundas maiores reservas mundiais de terras raras, atrás apenas da China. A análise dos registros da Agência Nacional de Mineração (ANM) até junho identificou 2.727 solicitações gerais de exploração de terras raras no Brasil. Desse total, 42%, ou quase metade, foram protocoladas por subsidiárias de empresas estrangeiras de mineração ou por companhias com participação de capital estrangeiro. Entre as 20 empresas com o maior número de solicitações, 11 contam com apoio de investimento externo, principalmente proveniente da Austrália, dos Estados Unidos e do Canadá.
As solicitações de exploração de terras raras avançaram de forma acelerada nos últimos anos. Mais de 86% dos pedidos foram apresentados nos últimos três anos, incluindo 268 solicitações no primeiro semestre de 2026, conforme os dados públicos da ANM. O levantamento também utilizou registros de propriedade corporativa compilados pela plataforma Cruzagrafos, desenvolvida pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A expansão dos investimentos ocorre em meio à concentração das reservas e da produção global na China. O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima que a China possua cerca de 44 milhões de toneladas métricas de reservas de terras raras, aproximadamente o dobro das 21 milhões de toneladas métricas estimadas pelo Serviço Geológico do Brasil. Nesse cenário, as reservas brasileiras ganham importância não apenas pelo volume, mas também pela sua inserção na disputa envolvendo nacionalismo de recursos, transição energética, diversificação das cadeias de suprimento ocidentais e competição com o domínio chinês.
O fluxo de capital dos Estados Unidos para o setor brasileiro ganhou impulso após a China restringir, no ano passado, as exportações de terras raras em resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos. Entre os investimentos realizados está a aquisição da Serra Verde, único produtor comercial de terras raras do Brasil, por uma empresa com participação do governo norte-americano. A política brasileira para o setor busca manter uma posição sem alinhamento exclusivo na disputa entre Estados Unidos e China, preservando as relações comerciais e estratégicas com ambos os países. A expansão da mineração, entretanto, amplia os riscos ambientais e sociais, especialmente em projetos que possam ser desenvolvidos próximos a reservas da floresta amazônica e territórios indígenas. Dependendo do minério explorado e do processo utilizado, a atividade pode liberar produtos químicos tóxicos e gerar resíduos radioativos. Entre os demais impactos potenciais estão o desmatamento, a poluição atmosférica, o aumento do ruído e a contaminação de cursos d'água, rios e lagos, com possíveis efeitos sobre populações de peixes e fontes de abastecimento de água potável.
Comunidades indígenas também têm ampliado os alertas sobre os efeitos da expansão da atividade mineral. A transição de uma autorização de exploração para a produção comercial pode levar de cinco a 10 anos. O processo exige a apresentação de estudos técnicos e planos de exploração à ANM e aos órgãos reguladores ambientais. Projetos com impacto sobre territórios indígenas também dependem de consulta às comunidades envolvidas. A perspectiva de crescimento da demanda, contudo, tem estimulado iniciativas para acelerar os processos de aprovação. O Ministério de Minas e Energia (MME) discutiu mecanismos para simplificar o licenciamento ambiental de projetos minerais considerados estratégicos. A Austrália lidera o número de solicitações de mineração de terras raras no Brasil, com 695 pedidos. Quase um terço desse total foi apresentado pela Borborema Recursos Minerais, subsidiária da Brazilian Rare Earths Pty Ltd, sediada em Sydney. As empresas dos Estados Unidos aparecem na segunda posição, com 347 solicitações.
A Alpha Minerals Brazil, controlada pela Rare Earth Americas Inc., sediada no Texas (EUA), respondeu por 181 solicitações. A companhia, originalmente incorporada nas Ilhas Cayman, transferiu sua sede para os Estados Unidos em 2025 e busca ampliar sua atuação no fornecimento de terras raras para o mercado norte-americano. Entre os demais grandes solicitantes estão a Mineração Apollo, parcialmente controlada pela Atlas Lithium, sediada em Nevada, e a Aclara, que abriu recentemente uma planta piloto para separação de terras raras na Virgínia e planeja instalar uma unidade comercial de separação na Louisiana. Austrália, Estados Unidos e Canadá dispõem de mecanismos de investimento capazes de reduzir os riscos financeiros de um setor caracterizado por baixa taxa de conversão entre perspectivas geológicas e projetos comerciais. De cada 1.000 potenciais perspectivas de terras raras, cerca de 100 avançam para as etapas de perfuração e exploração, enquanto apenas dois podem resultar em projetos considerados economicamente viáveis, evidenciando o elevado risco técnico e financeiro da atividade.
O apoio do governo dos Estados Unidos ao desenvolvimento da cadeia de terras raras no Brasil alcançou valores expressivos em 2026. Em fevereiro, a Serra Verde garantiu um pacote de financiamento de US$ 565 milhões da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos. Em abril, a USA Rare Earth anunciou acordo para adquirir a Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões, três meses após o Departamento de Comércio dos Estados Unidos anunciar planos para disponibilizar até US$ 1,6 bilhão em apoio à USA Rare Earth. No acordo, concluído em junho, o departamento recebeu mais de 16 milhões de ações. A Serra Verde é o único produtor localizado fora da Ásia com capacidade para fornecer os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Esses elementos são considerados estratégicos para as indústrias automotiva, médica, de energia renovável, eletrônica, robótica, de defesa e aeroespacial, reforçando a posição do Brasil na estratégia internacional de diversificação do fornecimento de minerais críticos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.