21/Aug/2026
Às vésperas do período mais crítico da estiagem amazônica, entre setembro e novembro, a dragagem de manutenção do Rio Tapajós, por onde são escoados soja e milho, ainda não foi autorizada pelo governo federal. Com a redução do nível do rio, a necessidade de aliviar a carga das barcaças tende a elevar o custo logístico, segundo a Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação (Adecon). Em entrevista, o diretor executivo da entidade, Edeon Vaz Ferreira, diz que o Tapajós está baixando mais lentamente que em 2024, quando uma seca severa levou o rio a nível crítico, e que a expectativa é de os comboios terem de reduzir gradualmente a carga entre setembro e novembro, sem interrupção da navegação nas condições observadas até agora. Uma avaliação mais precisa, segundo ele, só será possível em meados de setembro. A projeção atual é mais branda que o cenário apresentado pela própria Adecon no fim de julho, quando a entidade estimou em até R$ 550 milhões o prejuízo logístico potencial associado às restrições de navegação.
O impasse sobre a dragagem ganhou nova pressão nesta semana. A Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) pediu ao governo estadual a decretação de situação de emergência diante da possibilidade de agravamento da estiagem. O setor privado defende a retirada de sedimentos acumulados em sete pontos críticos do Tapajós para preservar o calado, ou seja, a profundidade disponível para a passagem das embarcações. O governo federal desautorizou no fim de julho o início imediato da intervenção após questionamentos de lideranças indígenas e movimentos sociais, que cobram a realização de Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) e apontam possíveis impactos ambientais. A discussão ocorre meses depois de o governo revogar o decreto que havia incluído as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND), após protestos indígenas em Santarém (PA). Segue a entrevista:
Com a previsão de El Niño e a aproximação do período mais seco, qual é hoje a leitura sobre o risco para a navegação no Arco Norte?
Edeon Vaz Ferreira: No dia 12 de agosto, a marca do Rio Tapajós em Santarém estava em 5,75 metros. Em 2025, no mesmo período, eram 6,51 metros; em 2024, 4,50 metros; e, em 2023, 5,52 metros. Estamos hoje em um quadro melhor que em 2023 e, principalmente, que em 2024, mas abaixo de 2025. O rio está baixando, mas de forma lenta. Nós só teremos uma leitura mais precisa, tanto do Tapajós quanto do Madeira, em meados de setembro. Minha avaliação hoje é de um quadro parecido com o de 2023. Eu não acredito ainda este ano em interrupção da navegação, mas será necessário aliviar as barcaças nos meses de setembro, outubro e novembro. Hoje elas navegam cheias, com cerca de 4 metros de calado e transportando entre 2 mil e 2,5 mil toneladas cada. À medida que o nível do rio cai, começa o alívio: 90%, 80%, 60% da capacidade. Abaixo de 50% a 60%, o custo fica muito alto e a operação deixa de ser economicamente viável. Se tivéssemos conseguido fazer a dragagem emergencial, teríamos menos problema agora.
O senhor mencionou a dragagem do Tapajós como uma questão ainda em aberto. O que precisa ser resolvido para que ela avance?
Edeon Vaz Ferreira: O que atrapalhou foi a exigência da Consulta Prévia, Livre e Informada às comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Precisamos ter clareza sobre como fazer, qual é o público alcançado e quem, de fato, precisa ser ouvido. A Adecon está liderando um grupo privado para elaborar uma proposta de regulamentação. Temos uma reunião nesta semana e a ideia é sair dela com uma proposta para encaminhar ao governo. Também estamos trabalhando na possibilidade de um projeto de lei para dar mais estabilidade e segurança jurídica ao processo. Acredito que essas iniciativas podem fazer com que, no próximo ano, tenhamos melhores condições para resolver os problemas de dragagem que estamos enfrentando neste ano.
O senhor classificou como "erro estratégico" a revogação do decreto que havia incluído as hidrovias do Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. O governo reconheceu algum problema na condução daquele processo?
Edeon Vaz Ferreira: O governo reconheceu que houve um problema de comunicação e hoje o Ministério de Portos e Aeroportos busca melhorar essa comunicação. O decreto foi publicado de forma atropelada e sem necessidade naquele momento. As concessões dos serviços hidroviários do Tocantins e do Tapajós ainda estavam em fase de modelagem e nem sequer haviam passado por audiências públicas. Acabou gerando confusão e foi revogado.
Depois da revogação, como ficam as concessões hidroviárias?
Edeon Vaz Ferreira: Está em revisão a modelagem da Hidrovia do Madeira, e as do Tocantins e do Tapajós ainda estão em construção. Também há trabalhos relacionados ao trecho sul da Hidrovia do Paraguai e à chamada Hidrovia Verde, entre Manaus e Itacoatiara, no Amazonas. Precisamos fazer as concessões dos serviços hidroviários mesmo sabendo da dificuldade orçamentária do Dnit e dos contingenciamentos. Ou avançamos com concessões ou será preciso colocar mais recursos públicos para dragagem, sinalização e manutenção. O Brasil precisa priorizar o modal hidroviário.
O Brasil colheu volumes recordes de soja e milho neste ano. Pensando na safra 2026/27, há risco para o escoamento da produção?
Edeon Vaz Ferreira: Espero que consigamos equacionar a questão da dragagem até o ano que vem. Devemos movimentar aproximadamente 18,5 milhões de toneladas por Miritituba (PA) até o fim do ano. No ano passado foram cerca de 17,8 milhões de toneladas de soja e milho. Por Porto Velho (RO), movimentamos algo próximo de 9 milhões de toneladas. Para o oeste e o noroeste de Mato Grosso, esta continua sendo uma rota muito importante. Não tivemos problemas relevantes neste ano, nem mesmo em Santos (SP), Paranaguá (PR), Itaqui (MA) ou Barcarena (PA). Para o próximo ano, acredito em uma boa produção de soja. Em anos de El Niño, as chuvas podem atrasar no Centro-Oeste e levar parte do plantio de setembro para outubro. Isso pode beneficiar a janela de produtividade da soja, mas prejudica o milho segunda safra, porque encurta sua janela. Por isso, acredito que a produção total possa ser um pouco menor que a deste ano.
Além das hidrovias, quais são hoje os gargalos de infraestrutura que deveriam receber prioridade?
Edeon Vaz Ferreira: É preciso reconhecer que a malha rodoviária melhorou. Boa parte dela foi recuperada neste governo, mas ainda precisamos investir mais em manutenção e concluir algumas ligações importantes. Em Mato Grosso, precisamos avançar na BR-242, concluir a pavimentação da BR-158 e implantar e pavimentar a BR-080 entre Ribeirão Cascalheira (MT) e Luís Alves (GO). No ferroviário, precisamos concluir a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico) até Água Boa (MT) e depois avançar em direção ao oeste da Bahia. Também é necessário resolver a situação da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol).
E a Ferrogrão?
Edeon Vaz Ferreira: A Ferrogrão é urgente. Estamos falando de aproximadamente mil quilômetros ligando Sinop (MT) a Miritituba (PA). Mas não acredito que seja possível fazer uma concessão 100% privada. Depois do licenciamento ambiental, ainda haverá um longo período de construção antes que a ferrovia comece a gerar receita. É muito difícil imaginar o setor privado colocando sozinho todo o dinheiro durante esse período. O governo precisa participar, seja como parceiro, seja por meio de uma parceria público-privada ou de outro modelo. É preciso encontrar uma estrutura que torne o projeto viável.
Nos portos do Arco Norte, o principal problema ainda é capacidade ou acesso aos terminais?
Edeon Vaz Ferreira: O principal gargalo são os acessos. Os terminais e as estações de transbordo são privados, e a iniciativa privada investe onde enxerga retorno. Temos problemas de acesso às estações de transbordo de Miritituba, aos terminais de Porto Velho e na ligação rodoviária até Barcarena e Vila do Conde, no Pará. Isso será cada vez mais importante. Nossa projeção é de Mato Grosso chegar a aproximadamente 144 milhões de toneladas de soja e milho em 2034/35. Para movimentar esse volume, teremos de distribuir a produção entre Santos, Miritituba, Porto Velho, o corredor do Tocantins e outras rotas.
E dentro da porteira? O déficit de armazenagem continua sendo um gargalo estrutural?
Edeon Vaz Ferreira: Precisamos parar de brincar com o assunto da armazenagem. O País precisa ter uma política nacional que permita financiamento de longo prazo ao produtor e a um custo adequado. O armazém precisa ter giro para se pagar. O que recomendamos é que o produtor tenha pelo menos uma unidade de recepção, com moega, pré-limpeza, secador e um silo. Outra alternativa são condomínios de armazéns rurais, nos quais vários produtores dividem uma estrutura coletiva.
Fonte: Broadcast Agro.