10/Aug/2026
Os gargalos nos acessos portuários continuam pressionando os custos e a competitividade do agronegócio brasileiro, especialmente nos períodos de pico da colheita. Em fevereiro de 2026, durante a concentração da safra de soja, a fila de caminhões para acesso ao Porto de Miritituba (PA) chegou a 40 quilômetros na BR-163, principal corredor de escoamento da produção da Região Centro-Oeste pelo Arco Norte. O congestionamento voltou a evidenciar que a eficiência operacional dos terminais portuários, isoladamente, não é suficiente quando rodovias, ferrovias e hidrovias não acompanham o avanço da produção agrícola. Durante a safra, os atrasos geram impactos em cadeia, com caminhões parados, aumento dos custos de frete, risco de perda de qualidade dos produtos transportados e pressão sobre os preços finais.
As filas ocorrem quando o volume de caminhões concentrado em determinados períodos supera a capacidade de recebimento dos terminais e dos pontos de controle ao longo dos corredores logísticos. No pico da movimentação agrícola, a concentração de entregas em janelas reduzidas aumenta a vulnerabilidade do sistema a restrições operacionais. Condições climáticas adversas, trechos com baixa trafegabilidade, acidentes e fiscalizações podem reduzir a velocidade do fluxo e comprometer a movimentação. Com os acessos aos pátios operando próximos do limite, os caminhões permanecem parados em acostamentos e vias locais, formando filas que se ampliam à medida que o tempo de descarga aumenta. Os impactos dos gargalos podem ultrapassar o transporte rodoviário e alcançar o transporte marítimo. Segundo a Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), o custo do demurrage, taxa cobrada pelo proprietário de navio ou contêiner quando há atraso na retirada da mercadoria ou devolução do equipamento, chega a aproximadamente US$ 40 mil por dia.
Esse valor acaba sendo incorporado aos custos da carga e reduz as margens dos agentes envolvidos na cadeia logística. A Confederação Nacional do Transporte (CNT) avalia que as filas deixaram de ser eventos pontuais e passaram a representar um desafio estrutural, exigindo planejamento de longo prazo, investimentos em infraestrutura e melhorias na gestão dos corredores de transporte. Embora os investimentos federais tenham aumentado nos últimos dois anos, a entidade considera que o volume ainda é insuficiente para reverter a deterioração de trechos considerados críticos. A integração entre modais permanece como um dos principais desafios logísticos do País. A CNT destaca a necessidade de ampliar a utilização complementar de rodovias, ferrovias e hidrovias, além da implantação de pátios de triagem, sistemas de agendamento de cargas e condomínios logísticos próximos aos terminais para reduzir congestionamentos nos períodos de maior movimentação.
A entidade também aponta a necessidade de um plano estruturado para hidrovias, com programas de dragagem, manutenção das vias navegáveis, novos mecanismos de financiamento e concessões para ampliar a capacidade de transporte em corredores estratégicos. O setor de infraestrutura avalia que o Brasil enfrenta custos elevados para superar seus gargalos logísticos, mas o adiamento de projetos estruturantes pode ampliar ainda mais as perdas futuras. A expansão da produção agrícola no interior do País exige investimentos em ferrovias, hidrovias e conexões logísticas capazes de acompanhar o crescimento da oferta. O acesso aos terminais de Miritituba é considerado um exemplo do descompasso entre a expansão da produção e a infraestrutura disponível. A avaliação é de que a solução logística não pode se concentrar apenas na estrutura portuária, mas deve considerar todo o caminho entre as áreas produtoras e os pontos de exportação. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 reforça esse diagnóstico.
Dos 13,9 mil quilômetros avaliados na região Norte, 81,3% foram classificados como regulares, ruins ou péssimos. Para a entidade, as condições de pavimento, sinalização e geometria das vias afetam diretamente o desempenho dos corredores que conectam a produção agrícola aos portos do Arco Norte, elevando custos operacionais e riscos de acidentes. O setor produtivo também aponta a logística como um dos principais fatores que limitam a competitividade dos produtores. A Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja-MT) considera que ainda são insuficientes as propostas apresentadas para solucionar os gargalos de escoamento da produção. O tema é reconhecido como estratégico, mas ainda faltam propostas estruturadas para enfrentar os desafios de infraestrutura logística no País. O setor produtivo defende maior participação dos agentes diretamente envolvidos na cadeia agrícola na construção de soluções para transporte e exportação. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.