22/Jul/2026
A sucessão de crises geopolíticas dos últimos anos, da guerra entre Rússia e Ucrânia aos recentes conflitos no Oriente Médio, acelerou a busca da indústria global de fertilizantes por fontes de produção mais sustentáveis e menos vulneráveis às oscilações do mercado de combustíveis fósseis. Além de expor a fragilidade das cadeias internacionais de suprimento, os episódios reforçaram a necessidade de diversificar tecnologias capazes de aumentar a segurança no abastecimento de insumos agrícolas. Nesse cenário, a Yara Fertilizantes amplia os investimentos em soluções de menor impacto ambiental e vê o Brasil como protagonista dessa estratégia. O País já é o maior mercado mundial da companhia para bioinsumos e fertilizantes foliares, segmento no qual a multinacional pretende crescer por meio de pesquisa própria e expansão industrial.
Em entrevista, a vice-presidente executiva da Yara e responsável global pelas áreas de estratégia, fusões e aquisições (M&A), tecnologia e bioinsumos, Fernanda Lopes Larsen, afirma que o mercado brasileiro reúne características únicas para impulsionar essas tecnologias, favorecido pela dimensão de sua agricultura e por cinco décadas de pesquisa desenvolvida pela empresa no País. Em escala global, outro eixo da estratégia da companhia é a expansão da amônia verde, produzida a partir de hidrogênio obtido com energia renovável, e da amônia azul, fabricada com captura e armazenamento de carbono (CCS), tecnologias que ganham impulso à medida que governos e empresas buscam reduzir a dependência do gás natural e diminuir as emissões da produção de fertilizantes. No Brasil, entretanto, a executiva avalia que o elevado custo do gás natural e a ausência de um ambiente regulatório capaz de estimular investimentos ainda limitam projetos industriais dessa natureza. Segue a entrevista:
A indústria global de fertilizantes vem sofrendo choques sucessivos de oferta e custos desde a pandemia, passando depois pela guerra na Ucrânia e, mais recentemente, por novos conflitos no Oriente Médio que envolveram diretamente o Irã, um grande fornecedor de insumos para a produção de adubos. Qual tem sido o efeito real desse último evento para a Yara?
Fernanda Lopes Larsen: Estamos em uma indústria extremamente cíclica e sensível à macroeconomia. O impacto mais recente e severo desse conflito no Oriente Médio concentrou-se no mercado de gás natural e na ureia, que ainda é o principal fertilizante do mundo. Um terço de toda a ureia comercializada globalmente passa pelo Estreito de Ormuz, além de metade do enxofre necessário para a fabricação de fertilizantes fosfatados. Houve inclusive destruição física de capacidade produtiva na região, como em plantas parceiras no Catar, o que vai demandar tempo de reconstrução até a normalização das cadeias. Nas primeiras semanas do conflito, o fluxo de gás natural liquefeito (GNL) - que é a principal matéria-prima e fonte de energia para finalizar a amônia e fabricar a ureia - que abastece a Ásia foi interrompido. Várias fábricas da região tiveram que paralisar ou reduzir capacidade para racionar o insumo. Acredito que, após essa crise, o mundo vai tentar ser menos dependente dos combustíveis fósseis e buscar novas alternativas sustentáveis.
Esse estado de alerta do mundo com a dependência de combustíveis fósseis e de produtos derivados, como os fertilizantes, pode acelerar a transição verde no setor energético?
Fernanda Lopes Larsen: Sem dúvida. Recentemente estive em reuniões com governos na Ásia e o principal tópico estratégico na mesa era a redução da dependência de uma única fonte energética fóssil. Ninguém quer ficar vulnerável a gargalos geopolíticos em canais de escoamento internacionais. No fim do dia, o lado positivo dessas tragédias geopolíticas é o de que elas forçam o mercado e os governos a olharem com velocidade e prioridade absoluta para fontes sustentáveis e locais de energia.
Falando em alternativas, a divisão de bioinsumos e fertilizantes foliares tem se expandido no portfólio da Yara. Como está desenhada a estratégia de crescimento dessa linha de produtos?
Fernanda Lopes Larsen: O pano de fundo desse crescimento acelerado são as mudanças climáticas. O produtor lida hoje com uma agricultura exposta a estresses causados por fatores ambientais extremos e frequentes, como secas e temperaturas altas. Os fertilizantes tradicionais representam a "nutrição essencial" da planta, enquanto os bioinsumos e foliares atuam como vitaminas necessárias para dar resistência ao cultivo e assegurar o teto de produtividade. Estrategicamente, o crescimento da Yara nessa vertical é 100% orgânico. Ou seja, nosso foco é crescer por meio de pesquisa própria e ampliação das nossas instalações, sem prever a compra de outras empresas concorrentes (fusões e aquisições) no radar imediato. Nossa opção é desenvolver a ciência proprietária dentro de casa.
O Brasil já assumiu a liderança global para a Yara no consumo dessas tecnologias sustentáveis?
Fernanda Lopes Larsen: Sim, o Brasil é hoje o maior mercado de bioinsumos e foliares da Yara no mundo, superando cinturões agrícolas tradicionais como o sul da Europa (Espanha), a China, a Índia e os Estados Unidos. Mais do que o tipo de clima ou de solo tropical, o fator crítico que dita esse sucesso é a escala e o tamanho do mercado agrícola brasileiro. O Brasil foi o País onde inauguramos, em 2018, a nossa segunda planta de bioinsumos no mundo, em Sumaré (SP), com investimento de R$ 100 milhões e capacidade para produzir aproximadamente 50 milhões de litros por ano, focada na produção de fertilizantes foliares e micronutrientes, para abastecer não só o mercado brasileiro, mas também países vizinhos. Além disso, temos 50 anos de pesquisa focada na agricultura brasileira, o que nos permitiu formular soluções customizadas para as reais necessidades das culturas brasileiras de grande escala (commodities e culturas de alto valor), garantindo uma boa taxa de adoção.
A Yara tem anunciado investimentos robustos em amônia verde na Noruega e em amônia azul (feita com gás natural, mas com captura e armazenamento dos gases poluentes) na Holanda. Por que esses projetos em escala industrial para descarbonizar os fertilizantes ainda parecem distantes da realidade da América Latina e do Brasil?
Fernanda Lopes Larsen: São projetos complexos, de longo prazo, e que exigem uma curva de aprendizado corporativo. Mas o fator determinante para a Europa ter saído na frente é a questão regulatória: lá o carbono já tem um preço estabelecido. Se uma indústria emite CO2 na atmosfera, ela paga por isso. A partir do momento em que os governos desenham esses parâmetros, as soluções se tornam economicamente viáveis. No Brasil, ainda não há esse empurrão claro para descarbonizar a indústria. Na Europa, a transição ocorre por pressão regulatória; nos Estados Unidos, por fortes incentivos fiscais. O Brasil precisa definir qual caminho vai tomar. Além disso, a transição sustentável e a rentabilidade precisam andar juntas. Precisamos também de uma estabilidade do ponto de vista regulatório.
Voltando à matriz convencional de fertilizantes, o custo do gás natural no Brasil costuma ser apontado como um grande gargalo. Qual é o tamanho dessa desvantagem real para atrair investimentos em novas plantas e por que o insumo é tão vital?
Fernanda Lopes Larsen: A conta no Brasil é muito difícil de fechar. O País tem o gás natural mais caro do Hemisfério Sul. Estamos falando de uma diferença que chega a ser dez vezes maior. Para completar, o custo do gás na boca do poço é onerado por impostos interestaduais e gargalos de logística. Essa assimetria inviabiliza novos investimentos em produção local de adubos nitrogenados convencionais de larga escala. Como o ciclo de demanda do Hemisfério Sul ocorre na entressafra do Hemisfério Norte, as fábricas globais, no período de baixa demanda em seus países de origem, conseguem desovar o excedente e abastecer o mercado brasileiro com custos muito mais competitivos do que se produzíssemos tudo internamente com o gás nacional caro.
Projetos globais como o consórcio Northern Lights, no qual a Yara é parceira para injetar 800 mil toneladas de CO2 por ano sob o leito do Mar do Norte, em poços exauridos de petróleo, mostram que a tecnologia de CCS - sigla em inglês para Captura e Armazenamento de Carbono - amadureceu. De que forma isolar esse gás poluente e enterrá-lo no fundo do mar se conecta com a fabricação de adubos e com a sustentabilidade no agronegócio?
Fernanda Lopes Larsen: A tecnologia de captura (CCS) permite reter e isolar o gás carbônico gerado durante a queima do gás natural na fabricação da amônia tradicional antes que ele chegue à atmosfera. Em vez de poluir, esse CO2 é liquefeito e é injetado a milhares de metros abaixo do fundo do mar. Isso transforma o adubo convencional, que historicamente tem uma pegada de carbono alta, em um insumo de baixíssima emissão (a amônia azul). Para o agronegócio, isso significa que o produtor pode aplicar um fertilizante convencional na lavoura sem carregar a culpa das emissões de gases de efeito estufa, gerando grãos e alimentos muito mais sustentáveis para o mercado. Buscamos expandir o modelo adaptando o portfólio às potencialidades de cada região geográfica. Na Arábia Saudita, por exemplo, a Yara firmou um contrato para amônia verde gerada a partir de energia solar no deserto. Na Austrália, temos um projeto piloto de amônia solar combinado com a tecnologia de captura (CCS) devido à forte presença de infraestrutura petrolífera no norte do país, que domina a engenharia de injeção em poços exauridos. No Brasil, o foco da Yara tem sido explorar o potencial do biometano, como já fazemos na unidade de Cubatão (SP). A tecnologia existe, mas depende de infraestrutura local preexistente.
Fonte: Broadcast Agro.