20/Jul/2026
A política tarifária adotada pelos Estados Unidos acelerou a reorganização dos fluxos do comércio marítimo brasileiro, intensificando o redirecionamento das exportações para mercados como Ásia e Oriente Médio. O movimento já se reflete na oferta de capacidade dos armadores, na configuração das rotas internacionais e na formação dos fretes marítimos, acompanhando a reestruturação das cadeias globais de suprimentos e a busca das empresas por maior diversificação de mercados e resiliência operacional. O mercado norte-americano já vinha perdendo participação como destino das exportações brasileiras transportadas em contêineres antes mesmo da adoção das novas tarifas, tendência intensificada pelo tarifaço. Dados da Solve Shipping Intelligence mostram que a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras conteinerizadas recuou de aproximadamente 13% em 2022 para cerca de 9% em 2025. No mesmo período, a Ásia ampliou sua participação de 27% para 33%, enquanto o Oriente Médio alcançou aproximadamente 20% das exportações.
No comércio exterior total, os Estados Unidos também perderam relevância como destino das vendas brasileiras. Segundo dados do ComexStat, as exportações brasileiras para o mercado norte-americano somaram US$ 17,427 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% em relação aos US$ 20,031 bilhões registrados no mesmo período de 2025. A mudança na demanda internacional também provocou ajustes na oferta de transporte marítimo. Dados da Solve apontam que a capacidade mensal disponível na rota entre Brasil e Ásia aumentou cerca de 127% entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026, alcançando 355 mil TEUs, unidade equivalente à capacidade de um contêiner padrão de 20 pés. Em sentido oposto, a capacidade destinada à Costa Leste dos Estados Unidos diminuiu aproximadamente 22% no mesmo intervalo. A formação dos fretes marítimos continua sendo influenciada por fatores como oferta e demanda, taxa de ocupação dos navios, características das rotas, necessidade de transbordos e porte das embarcações.
O intenso fluxo de importações provenientes da Ásia faz com que os navios cheguem ao Brasil com elevada ocupação e retornem com maior disponibilidade de espaço para cargas, contribuindo para reduzir o custo do frete de retorno. As rotas utilizadas também variam conforme a origem da carga. Os embarques provenientes das regiões Sul e Sudeste com destino à Ásia são realizados predominantemente pelo Cabo da Boa Esperança, enquanto cargas originadas no Norte e Nordeste utilizam o Canal do Panamá. Para o Oriente Médio, as operações normalmente incluem escalas no Mediterrâneo em razão da inexistência de serviços diretos. A reorganização das cadeias globais também vem estimulando empresas brasileiras a ampliarem sua presença internacional. Entre os exemplos citados estão investimentos produtivos realizados pela JBS em Omã e a expansão de suas operações no Vietnã, além do fortalecimento da joint venture Sadia Halal e da reestruturação logística regional promovida pela BRF. No agronegócio, os reflexos dessa diversificação já aparecem de forma distinta entre as cadeias produtivas.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, no primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras de carne bovina para a Ásia cresceram cerca de 48% em valor e 23% em volume na comparação com igual período de 2025. As vendas de carne de frango avançaram aproximadamente 40% em receita e 19% em volume, enquanto os embarques de açúcar para o Oriente Médio aumentaram cerca de 13,5% em valor e 43% em volume. No setor cafeeiro, entretanto, a diversificação dos destinos comerciais avança em ritmo mais moderado. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), as exportações brasileiras de café para os Estados Unidos recuaram 34,3% no primeiro semestre, enquanto os embarques destinados à Ásia cresceram 3,9%. Apesar do avanço em novos mercados, o setor avalia que a expansão ainda não compensa integralmente a importância do mercado norte-americano para as exportações brasileiras de café, reforçando a necessidade de ampliar a diversificação dos destinos comerciais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.