17/Jul/2026
O Brasil produz 360 milhões de toneladas de grãos e tem espaço para guardar 226 milhões. São 134 milhões de toneladas que ficam expostas, vendidas na pressa ou transportadas no pior momento — e esse déficit custa ao produtor brasileiro quase R$ 110 bilhões em quatro anos.
1. Um descompasso que vem de longe
O déficit de armazenagem no Brasil não é novidade — ele vem se acumulando há pelo menos 15 anos, e o que estamos vendo agora é o resultado de um descompasso estrutural que nunca foi devidamente enfrentado. A produção brasileira de grãos cresceu em média 6% ao ano desde 2010, enquanto a capacidade estática de armazenagem avançou apenas metade disso, entre 3% e 4% ao ano. Em volume absoluto, a produção cresceu mais de 110 milhões de toneladas na última década, enquanto a capacidade avançou pouco mais de 50 milhões. O gap simplesmente dobrou. Hoje, com uma safra total estimada em 360 milhões de toneladas e capacidade estática de 226 milhões de toneladas, o déficit chega a 134 milhões de toneladas — o maior da história. Armazenamos menos de 63% do que produzimos, quando o ideal seria ter capacidade superior à produção anual para garantir flexibilidade comercial e logística ao longo do ano. Vale registrar que a referência de que a capacidade deveria ser 20% superior à produção, frequentemente atribuída à FAO, não tem essa origem — foi mencionada pela própria CONAB em um seminário sobre armazenagem em 2006 e acabou se perpetuando como citação equivocada. O fato concreto dispensa qualquer referência externa: armazenamos 134 milhões de toneladas a menos do que produzimos, e isso já diz tudo. Há três fatores estruturais que explicam esse acúmulo. Primeiro, o crescimento da agricultura brasileira foi extraordinariamente rápido, especialmente no Cerrado e no MATOPIBA, regiões onde a infraestrutura nunca acompanhou a fronteira agrícola. Segundo, apenas 17% da capacidade instalada está dentro das fazendas — on-farm — enquanto nos EUA esse índice é de 65% e na Argentina, de 40%. Isso significa que o produtor brasileiro depende de armazéns de terceiros, distantes das áreas de produção, o que concentra toda a pressão logística no pico da colheita. Terceiro, o crédito específico para armazenagem — o PCA, do Plano Safra — nunca foi suficiente nem bem executado. Em 16 anos de programa, menos de 65% dos recursos programados efetivamente chegaram ao produtor.
2. Juros altos travaram os investimentos no pior momento
O ambiente de juros elevados e cenário internacional incerto contribuiu de forma decisiva para travar os investimentos precisamente quando eles eram mais necessários. O Plano Safra 2025/26 colocou R$ 8,2 bilhões disponíveis para armazenagem via PCA — a maior dotação da história do programa. Mas apenas 39% desse recurso chegou ao produtor. Não faltou recurso público programado; faltou condição financeira para o produtor acessar. O motivo é direto: o PCA opera com taxas entre 8,5% e 10% ao ano. Especialistas do setor estimam que a taxa ideal para viabilizar o investimento em armazenagem estaria entre 6% e 6,5%. Nos EUA, o financiamento equivalente custa entre 4,6% e 4,75% ao ano, com prazo de até 12 anos. O produtor brasileiro paga o dobro da taxa, com prazo menor, em um momento em que as margens estão comprimidas por preços de commodities em queda e endividamento rural elevado. Armazém é um investimento de longo prazo com retorno gradual — essa conta simplesmente não fecha com Selic nas alturas. Com o mercado externo instável e os preços da soja e do milho em patamar mais baixo do que em 2022 e 2023, o produtor prioriza liquidez e honrar dívidas em vez de imobilizar capital em infraestrutura. O resultado é que o déficit recorde de 2025 foi, em grande parte, determinado pela janela de 2022 a 2024, quando os investimentos deveriam ter sido feitos e não foram. Déficit de armazém se constrói em ciclos anteriores — quando chega a safra recorde, já é tarde demais para reagir.
3. O custo real: R$ 109,8 bilhões em renda perdida
O impacto é direto, mensurável e recorrente. A Cogo Inteligência em Agronegócio calculou que, entre 2023 e 2026, o déficit de armazenagem custará ao produtor brasileiro R$ 109,8 bilhões em perdas financeiras — R$ 71,7 bilhões em soja e R$ 38,1 bilhões em milho. Isso não é perda física de grão. É renda que deixou de existir porque o produtor foi forçado a vender no pior momento do calendário, quando os prêmios portuários estão negativos e o frete está no pico. A metodologia é robusta: compara o prêmio praticado mês a mês com o benchmark histórico do segundo semestre — período em que o mercado se normaliza — e multiplica pelo volume comercializado. O resultado revela um padrão que se repete todo ano: entre janeiro e maio, a oferta brasileira inunda os portos, os prêmios despencam, frequentemente para terreno negativo, e o produtor sem armazém vende porque não tem escolha. Em 2023, pior ano da série, o prêmio da soja chegou a menos US$ 1,59 por bushel em abril. No campo logístico, a Esalq-LOG e o USDA calcularam que transportar soja de Mato Grosso até Xangai custa USD 116 por tonelada, dos quais 73% — USD 84 — correspondem ao trecho terrestre de apenas 2.000 km. O frete marítimo de 20 mil km até a China custa menos do que o caminhão do campo ao porto. Isso acontece porque 60% dos grãos brasileiros dependem de rodovias, e sem armazenagem distribuída nas origens, todos os grãos vão para a estrada ao mesmo tempo, lotam os portos, geram filas de caminhões quilômetros antes de Paranaguá e Santos, e elevam o frete para todo o setor. Em Sorriso, a soja que valia R$ 103 a saca em março de 2024 chegou a R$ 132 em outubro — R$ 29 a saca de diferença. Quem tinha silo capturou parte dessa valorização; quem não tinha, vendeu no pior momento e perdeu. A CNA confirma: 41% dos produtores com armazém próprio obtiveram ganhos adicionais de 6% a 20% nas últimas três safras simplesmente por poderem escolher quando vender. Armazenagem não é custo — é instrumento de geração de renda. Há um dado que sintetiza a dimensão do problema de forma quase irônica: o valor que o produtor brasileiro deixou de receber em quatro anos por causa da venda forçada — R$ 109,8 bilhões — seria suficiente para construir praticamente toda a capacidade de armazenagem que falta ao país, calculada em cerca de 99,8 milhões de toneladas a R$ 1.100 por tonelada. O prejuízo gerado pela falta de armazéns pagaria sozinho quase toda a solução do problema que o causa.
4. O que precisa ser feito: crédito, on-farm e estratégia de Estado
A solução exige tudo ao mesmo tempo, mas com uma clareza que ainda falta no debate público: o problema não é falta de recurso programado — é falta de condição para acessar. O Plano Safra 2025/26 já colocou R$ 8,2 bilhões no PCA — a maior dotação da história. O problema é que esses recursos chegam com taxa de 8,5% a 10% ao ano, quando o investimento exige prazo longo e retorno gradual. Enquanto isso, o produtor americano financia seu silo a 4,75% ao ano com até 12 anos de prazo. A indústria brasileira tem capacidade produtiva ociosa — a Kepler Weber, maior empresa do setor na América Latina, e a Abimaq confirmam isso. O que falta não é fábrica de silo. O que falta é crédito acessível. O primeiro passo real é reduzir a taxa do PCA para a faixa de 6% a 6,5% ao ano e ampliar os prazos de pagamento para 12 a 15 anos, com foco especial em produtores de pequeno e médio porte e nas regiões de fronteira agrícola como o MATOPIBA, onde o déficit chega a 60% da produção local. Hoje o programa não é exclusivo para grãos, não atende a todos e tem histórico de subexecução crônica — em 16 anos, a taxa média de execução ficou em torno de 64%, e em vários ciclos ficou abaixo de 60%. O segundo passo é reverter a concentração off-farm. Com apenas 17% da capacidade instalada dentro das fazendas, o Brasil desperdiça sua maior alavanca disponível: o silo próprio que dá ao produtor poder de negociação, reduz o pico logístico e distribui o escoamento ao longo do ano. A Kepler Weber estima que seriam necessárias de 5 a 7 mil novas unidades armazenadoras para zerar o déficit de 134 milhões de toneladas — o equivalente a cinco anos de produção da indústria de uma vez. Programas específicos de incentivo à construção on-farm nas regiões produtoras, nos moldes do que os EUA fazem há décadas, seriam transformadores. A indústria nacional tem capacidade para entregar — o que trava é o acesso ao financiamento. O terceiro elemento é reconhecer que armazenagem é estratégia de Estado, não política agrícola ordinária. Para apenas acompanhar o ritmo de crescimento da produção — sem reduzir o déficit acumulado — seriam necessários R$ 15 bilhões por ano em novos investimentos, segundo a Abimaq. Para zerar o déficit atual de 134 milhões de toneladas, a Kepler Weber estima R$ 148 bilhões. Nenhum Plano Safra, sozinho, resolve isso. É preciso combinar crédito subsidiado de longo prazo, desonerações fiscais para construção on-farm, parcerias público-privadas para regiões de fronteira agrícola e, fundamentalmente, estabilidade de regras que dê previsibilidade ao investidor privado.
Conclusão
O Brasil produz 360 milhões de toneladas de grãos e tem espaço para guardar 226 milhões. São 134 milhões de toneladas que ficam expostas, vendidas na pressa ou transportadas no pior momento. O produtor brasileiro produz com eficiência exemplar da porteira para dentro — mas continua exportando competitividade junto com a safra, porque o país não construiu a infraestrutura que o tamanho da sua agricultura exige. Enquanto isso não mudar, o produtor vai continuar pagando, todo primeiro semestre, o preço mais caro do calendário — não pelo que fez de errado, mas pelo que o país deixou de construir.
Fonte: Carlos Cogo — Sócio Diretor de Consultoria da Cogo Inteligência em Agronegócio
Dados utilizados: CONAB, IBGE, Itaú BBA (Radar Agro, agosto/2025), Cogo Inteligência em Agronegócio (junho/2026), Kepler Weber, Abimaq, CNA, Esalq-LOG/USDA.