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16/Jul/2026

Logística: entrevista com ministro dos Transportes

O Brasil poderá enfrentar um déficit de motoristas profissionais nos próximos cinco anos caso não aumente o número de pessoas habilitadas. O alerta é do ministro dos Transportes, George Santoro, que também falou sobre os avanços da CNH Brasil, a integração do Free Flow à CNH Digital, os investimentos em rodovias, a infraestrutura para veículos elétricos e os desafios do transporte de cargas no País. O programa CNH Brasil, lançado neste ano para reduzir custos e ampliar o acesso à habilitação, é uma das principais apostas do Ministério dos Transportes para enfrentar a falta de motoristas profissionais. Segundo Santoro, a iniciativa já apresenta resultados positivos e deve ganhar novas etapas, com parcerias para ampliar a oferta de treinamento e qualificação de condutores.

Na avaliação do ministro, o aumento do número de habilitados é essencial para garantir a renovação da mão de obra no transporte rodoviário de cargas, responsável por cerca de 60% da movimentação logística do País. Ele afirmou que, sem ampliar essa base, o Brasil poderá enfrentar dificuldades para suprir a demanda por caminhoneiros nos próximos anos. Santoro também comentou a evolução do sistema de pedágio eletrônico Free Flow, defendeu o modelo de concessões rodoviárias, falou sobre os investimentos em infraestrutura, a expansão da rede de abastecimento para veículos elétricos e movidos a gás e os estudos conduzidos pelo governo sobre a Faixa Azul para motociclistas. Segue a entrevista:

O programa CNH Brasil foi lançado para ampliar o acesso à habilitação e reduzir custos. Quais os resultados até agora e quais serão os próximos passos?

George Santoro: A CNH Brasil é um sucesso estrondoso. O País tinha milhões de brasileiros dirigindo sem carteira porque não tinham dinheiro ou tempo para concluir todo o processo de habilitação. Ao permitir aulas teóricas on-line e ampliar as possibilidades de contratação de instrutores, reduzimos custos e aumentamos o acesso. Os resultados são muito bons. O próximo passo é ampliar os mecanismos de treinamento e firmar parcerias com guardas municipais, polícias e Forças Armadas para formar mais motoristas. Se o Brasil não enfrentar esse desafio, daqui a cinco ou seis anos teremos um problema de motoristas profissionais. Hoje, cerca de 60% das cargas são transportadas por caminhões e precisamos garantir mão de obra qualificada.

O Ministério estuda integrar o Free Flow à CNH Digital. Como essa iniciativa deve funcionar e o que está sendo feito para reduzir a inadimplência no sistema?

George Santoro: Muitas pessoas foram multadas porque passaram pelo pórtico e não pagaram a tarifa dentro do prazo. Isso aconteceu porque a implantação não foi uniforme nem transparente. Fizemos um freio de arrumação, anulamos essas multas e estabelecemos um novo prazo. As concessionárias têm 100 dias para integrar as informações à CNH Digital. Depois disso, o motorista receberá um aviso sempre que passar por um pórtico. Queremos seguir uma tendência mundial, mas sem pegadinha e sem erro.

O que deve ser prioridade: ampliar a malha rodoviária ou melhorar as estradas que o País já possui?

George Santoro: Primeiro precisamos manter e melhorar o que já existe. Depois, ampliar a capacidade com terceiras faixas, duplicações e dispositivos de segurança. O novo Plano Nacional de Logística já identifica os corredores que precisam desses investimentos. Nas concessões, as melhorias começam logo nos primeiros meses do contrato. Hoje já vemos resultados importantes, como as obras na Serra das Araras, e essa percepção será cada vez maior nos próximos anos. Além de ampliar a capacidade, precisamos corrigir traçados, reduzir riscos em curvas e criar áreas de parada e descanso.

A idade média dos caminhoneiros aumenta a cada ano e a profissão tem perdido atratividade entre os jovens. O que pode ser feito para reverter esse cenário?

George Santoro: Precisamos ampliar a quantidade de motoristas habilitados. Com a CNH Brasil, mais pessoas terão condições de chegar à habilitação profissional. Também precisamos melhorar a segurança das rodovias. O motorista precisa ter confiança de que vai sair para trabalhar e voltar em segurança para casa. Isso vale tanto para quem é empregado quanto para o transportador autônomo. Em relação à jornada de trabalho, será necessário harmonizar as normas existentes para dar mais segurança jurídica ao setor.

As concessões rodoviárias preveem incentivos para ampliar a infraestrutura de recarga de veículos elétricos?

George Santoro: Sim. Até 3% da receita das concessões pode ser destinada à transição energética e à infraestrutura resiliente. As concessionárias já desenvolvem projetos para instalar carregadores elétricos e também postos de abastecimento de gás natural e GNL ao longo das rodovias. À medida que a frota crescer, essa infraestrutura também será ampliada.

Qual é o papel do Ministério dos Transportes na renovação da frota de caminhões?

George Santoro: Diretamente, essa política é conduzida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O nosso papel é oferecer infraestrutura para essa transição. Estamos estimulando corredores de abastecimento com gás e realizando testes para regulamentar caminhões 100% elétricos. O desafio é que esses veículos são mais pesados e exigem estudos sobre o impacto no pavimento das rodovias.

Qual é a avaliação do Ministério sobre os resultados da Faixa Azul para motociclistas em São Paulo?

George Santoro: Ainda não temos uma conclusão. Recebemos os dados da Prefeitura de São Paulo e, em uma análise preliminar, eles podem dar a impressão de que a medida não trouxe o resultado esperado. Mas não é possível tirar essa conclusão apenas olhando os números. É preciso entender todo o contexto, inclusive o aumento da frota de motocicletas. Por isso criamos um centro de estudos de acidentes de trânsito, que vai produzir análises técnicas para orientar as políticas públicas e identificar as causas dos acidentes.

Uma das críticas ao programa é que ele poderia reduzir a qualidade da formação dos novos condutores. Como o senhor responde a isso?

George Santoro: Nós não mudamos nenhuma prova nem reduzimos qualquer exigência para a obtenção da habilitação. O que fizemos foi simplificar o acesso e diminuir a burocracia. Esse discurso parte de quem não quer concorrência. Na prática, tivemos aumento de 25% nas aprovações, com as mesmas provas aplicadas anteriormente. Muita gente faz política pública sem olhar dados e evidências. No Ministério dos Transportes, fazemos tudo com base em dados e evidências.

Fonte: Broadcast Agro.