16/Jul/2026
O acordo revisado entre a SLC Agrícola e o Grupo Radar para aquisição de parte do Bloco Mato Grosso, anunciado no último dia 9, resultou de uma negociação "intensa" de duas semanas entre os envolvidos na divisão do portfólio, após o exercício concorrente de direitos de preferência, afirma o CEO da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato. Em entrevista, ele diz que a necessidade de venda da Radar abriu uma oportunidade de preço para a SLC, sem alterar a estratégia da companhia de crescer prioritariamente por meio de arrendamentos. Pela versão final do acordo, a SLC vai adquirir 8,9 mil hectares agricultáveis por R$ 669 milhões, ante os 28,8 mil hectares e R$ 1,85 bilhão previstos na proposta original, de junho. O restante do Bloco Mato Grosso, localizado entre Diamantino e Campo Novo do Parecis, foi dividido entre a Bom Futuro e o empresário Alexandre Jacques Bottan. Bancos como XP e Citi avaliaram a revisão como positiva para o risco financeiro da SLC, por reduzir o impacto sobre a alavancagem da companhia em comparação com o desenho inicial. Na entrevista, Pavinato também comenta sobre investimentos em irrigação, sobretudo na Bahia, região que pode ser mais afetada pelo El Niño em 2016, e sobre o cenário para insumos, dada a nova escalada do conflito no Oriente Médio. Segue a entrevista:
A aquisição, pela SLC, de parte do Bloco Mato Grosso ficou menor do que no desenho original. O que pesou mais nessa revisão: a questão financeira, o direito de preferência de outros arrendatários ou a seletividade na escolha das áreas?
Aurélio Pavinato: A notificação foi sobre o Bloco Mato Grosso inteiro, e não sobre a área específica que a gente já operava. Isso nos obrigou a exercer o direito de preferência sobre o bloco todo. Outro ofertante também foi notificado sobre o mesmo bloco e também exerceu a preferência. Isso gerou um conflito, e tivemos de nos sentar à mesa para negociar. Entrou ainda um terceiro envolvido na negociação, o Alexandre Bottan. Foram duas semanas de negociação bem intensa, porque o prazo era curto, e chegamos a um termo que ficou bom para os três. Para nós, ficou bom considerando a alavancagem, o investimento e o custo de capital atual.
Na prática, como fica a operação das áreas?
Aurélio Pavinato: A gente continua operando a área que já plantava praticamente até 2030. Há uma pequena parte que devolvemos no próximo ano, e o restante segue conosco até 2030, quando será entregue ao vizinho que comprou aquele trecho. A área que compramos continua conosco. Os 2,5 mil hectares que o Bottan comprou foram arrendados para nós por 16 anos, considerando um ano que ainda restava do contrato atual e mais 15 anos. Ele foi um parceiro importante, que alocou capital, enquanto a gente continua arrendando e operando essa área.
Essa compra muda a tese da companhia de crescer mais por meio de arrendamentos do que de aquisições?
Aurélio Pavinato: Não muda a tese. A Radar precisava vender, e a gente teve a necessidade de comprar esses trechos para equilibrar a negociação. Mas a lógica continua sendo buscar parceiros para alocar capital em terras, como fizemos com o Bottan. Foi também uma compra por preço de oportunidade. Um vendedor que não tivesse necessidade de vender provavelmente não venderia por esse preço; venderia mais caro. Foi parecido com o que aconteceu com as terras que compramos na Bahia nos últimos dois anos, que também foram oportunidades. Depois, estruturamos uma operação na qual um fundo alocou cerca de R$ 1 bilhão, o que, para nós, funcionou de forma semelhante a uma venda de terras. A ideia é aproveitar as oportunidades, comprar por um preço justo e, posteriormente, abrir espaço para outras estruturas, mantendo o crescimento da área plantada mais por arrendamento do que por aquisição.
A NOAA elevou a probabilidade de um El Niño muito forte para o fim do ano. Isso preocupa a companhia?
Aurélio Pavinato: Preocupa, obviamente. A previsão era de um El Niño moderado e agora passou a ser de um evento forte. Tende a chover mais no Sul e menos no Centro-Norte do Brasil. Quanto isso provocará de quebra de safra depende da distribuição, e não apenas do volume total. Em 2024, por exemplo, houve quebra em áreas de Mato Grosso porque choveu cedo, o produtor plantou e depois a chuva parou. Naquele caso, o momento do plantio acabou pesando mais do que o evento em si. Já em 2016, a Bahia sofreu mais e a companhia tinha menos ferramentas e ações de mitigação.
A empresa está mais preparada hoje do que em 2016?
Aurélio Pavinato: Bastante. Em 2016, tínhamos muitas áreas novas, e uma área nova resiste menos à seca porque ainda não tem um perfil de solo bem formado, armazena menos água e permite menor aprofundamento das raízes. Na Bahia, as áreas maduras produziram de 45 a 50 sacas por hectare naquele ano, enquanto as áreas novas produziram de 10 a 12 sacas por hectare. Hoje, temos áreas mais maduras, mais irrigação e um manejo mais protetivo. A Fazenda Piratini, uma das mais afetadas naquela época, a partir de agosto terá irrigação em 13 mil hectares, de um total de 18 mil hectares de área física.
O risco pesa mais sobre a soja, o milho segunda safra ou o algodão?
Aurélio Pavinato: Oscila. Em 2016, pesou mais sobre a soja. Em 2024, pesou mais sobre o algodão. O milho segunda safra pode ser afetado no Maranhão e no leste de Mato Grosso. Não dá para afirmar de antemão qual cultura será mais prejudicada. Depende de quando o veranico acontecer dentro do ciclo, se no início, no meio ou no fim.
Esses eventos aceleram a estratégia de irrigação da companhia?
Aurélio Pavinato: A gente já vinha acelerando os investimentos em irrigação dentro de uma visão de longo prazo, mas um evento como esse reforça a tese de continuar investindo para mitigar os efeitos da falta de chuva.
E o manejo de fertilizantes, como fica diante do risco climático?
Aurélio Pavinato: É a principal conta que conseguimos ajustar. Nitrogênio e potássio, quando aplicados e não aproveitados pela lavoura, podem ser perdidos. Por isso, parcelamos a aplicação conforme a chuva e o potencial produtivo. Já o fósforo é aplicado antes do plantio e, se não for totalmente aproveitado naquele ciclo, permanece no solo para o ano seguinte. O ajuste acontece conforme o desenvolvimento da lavoura: se estiver chovendo bem e a cultura estiver com bom potencial, complementamos o nitrogênio e o potássio. Se estiver seco e o potencial produtivo cair, economizamos parte desses nutrientes e mitigamos o custo, mesmo com uma produtividade menor.
A companhia já havia informado que estava mais protegida em fósforo e potássio. A SLC avançou nas compras de nitrogênio após o recuo dos preços provocado pelo conflito no Irã?
Aurélio Pavinato: Até a metade da semana passada, o mercado tinha voltado praticamente ao patamar anterior à guerra, e avançamos na aquisição de nitrogênio. Não posso dar detalhes porque a companhia ainda não divulgou essas informações. Com a retomada parcial do conflito, o petróleo voltou a subir, saindo de cerca de US$ 73,00 para perto de US$ 80,00 por barril, e isso já provocou uma pequena reação nos preços dos fertilizantes. Minha expectativa é de que seja um repique e que o mercado volte a se acomodar nos próximos dias. Se o conflito se intensificar, porém, teremos outro cenário.
Como o senhor avalia o momento dos preços da soja, do milho e do algodão no mercado internacional?
Aurélio Pavinato: Na soja, o fundo do poço ficou entre US$ 9,50 e US$ 10,00 por bushel, e já houve uma recuperação para perto de US$ 12,00. O milho está em torno de US$ 4,40 no mercado à vista e entre US$ 4,80 e US$ 4,90 para a safra nova, também em recuperação em relação aos níveis abaixo de US$ 4 do ano passado. É uma recomposição diante da inflação acumulada nos Estados Unidos, que superou 20% nos últimos cinco anos. Um novo patamar de equilíbrio para a soja seria próximo de US$ 12 por bushel. O nível de US$ 10,00 já não remunera adequadamente o produtor americano nem o argentino. No Brasil, a valorização do real consumiu boa parte desse ganho em dólar. O preço em reais está praticamente no mesmo nível do ano passado, enquanto os custos estão mais altos, o que pressionou as margens do produtor na safra 2025/26. Para 2026/27, a soja está mais equilibrada no balanço mundial, enquanto milho e algodão podem apresentar déficit. Isso sustenta uma visão um pouco mais otimista sobre o início de uma recuperação dos preços, porque a demanda global continua crescendo e a produção precisa acompanhar esse avanço.
Fonte: Broadcast Agro.