03/Jul/2026
A extração de terras raras na Amazônia é tecnicamente possível com tecnologia para reduzir os efeitos sobre o meio ambiente, mas sempre haverá algum nível de impacto, avalia o gerente de setor de Mineração na América Latina da Aggreko, José Albornoz Farias. "O importante é que [o impacto] seja controlado, possa ser mitigado e permita alcançar um equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente", disse o gerente da multinacional que atua no setor de energia modular. Para a mineração na Amazônia ganhar escala, afirmou Farias, é necessário avanço regulatório e da infraestrutura no País. Outro ponto crucial, disse, é o fornecimento de capital humano, dado que muitas vezes os projetos na área estão localizados em regiões remotas. Segue a entrevista:
Qual o panorama da mineração na América Latina?
José Albornoz Farias: Com a transição energética, em termos gerais, a mineração na América Latina está entrando em um novo ciclo. Há uma demanda maior por minerais críticos e, nesse contexto, encontramos países com grande potencial minerador, como Chile, Brasil e Argentina.
O que o Brasil precisa fazer para concretizar esse potencial?
José Albornoz Farias: Para atingir esse objetivo, precisa trabalhar fortemente em infraestrutura energética, logística, previsibilidade regulatória e fortalecimento das práticas socioambientais, além de melhorar a eficiência operacional. Há ainda um ponto muito importante: o capital humano. É um recurso escasso em nível regional, especialmente no segmento minerador.
Quanto tempo o Brasil levará para alcançar resultados significativos no processamento e exploração de terras raras?
José Albornoz Farias: A crescente demanda por minerais críticos associada à transição energética representa uma oportunidade muito importante para o Brasil. Se houver um equilíbrio entre expansão produtiva e sustentabilidade e se o País conseguir oferecer maior previsibilidade regulatória, isso servirá como um catalisador para alcançar, até 2030, um impacto real e consistente no desenvolvimento, exploração e comercialização de terras raras.
Como vê a discussão no Congresso brasileiro para minerais estratégicos e terras raras?
José Albornoz Farias: Ocorreram alguns eventos no Brasil que fizeram com que parte da população passasse a enxergar a mineração como um risco. Com essas situações, surgiu uma demanda para criação de regulamentações mais técnicas, rigorosas e capazes de evitar a ocorrência de eventos semelhantes. Se forem adotados os mecanismos técnicos necessários para evitar que desastres como esses voltem a acontecer, acredito que a mineração continuará sendo um importante motor de desenvolvimento para o País. Um ponto que merece atenção é o tempo demandado para a emissão de licenças e autorizações, como acontece em vários países da América Latina. Isso acaba atrasando o desenvolvimento do setor.
É possível conciliar a mineração de terras raras na Amazônia com a proteção ambiental e das terras indígenas?
José Albornoz Farias: Do ponto de vista técnico, é viável. A tecnologia está disponível. Os métodos de exploração e desenvolvimento desse tipo de mineral tornam possível a sua extração. No entanto, é preciso levar em consideração que sempre haverá algum impacto. O importante é que ele seja controlado, possa ser mitigado e permita alcançar um equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente. A tecnologia existe para possibilitar que esse tipo de operação de extração de terras raras provoque o menor impacto possível.
O que é necessário para que a mineração na região ganhe escala?
José Albornoz Farias: É preciso um marco regulatório que permita que a mineração se desenvolva na Amazônia e também infraestrutura que possibilite conectar essas operações aos insumos de que necessitam, além de garantir toda a logística necessária para fornecer os materiais e recursos que uma operação minerária demanda. Um terceiro ponto é o capital humano. Embora o Brasil, de maneira geral, possua mão de obra qualificada, quando analisamos onde estão localizados esses projetos - em regiões remotas da Amazônia - observamos que existem poucas comunidades próximas. E as comunidades que existem muitas vezes não possuem preparação técnica suficiente para desenvolver um trabalho de maneira eficiente e eficaz nesses empreendimentos.
O setor afirma que a infraestrutura logística brasileira é insuficiente. Concorda?
José Albornoz Farias: Eu acredito que isso é verdade. A infraestrutura é algo extremamente complexo e, quando não está disponível, acaba atrasando tudo. E não estamos falando apenas de infraestrutura rodoviária. Também estamos falando de infraestrutura portuária, hospitais, bancos, abastecimento de água potável, tratamento de esgoto e todos os demais serviços necessários para o funcionamento adequado de uma região. Embora o governo tenha historicamente implementado políticas voltadas para o desenvolvimento da infraestrutura nacional, talvez ainda seja possível fazer mais para acelerar sua disponibilização e permitir que projetos estratégicos sejam desenvolvidos em menos tempo e com menos dificuldades.
O Brasil tem grande geração renovável, mas enfrenta limitações de armazenamento. Como isso afeta a mineração?
José Albornoz Farias: Quando falamos de energias renováveis, é verdade que fontes como a solar e a eólica apresentam limitações de eficiência. Por esse motivo, atualmente há muito trabalho sendo realizado na combinação de diferentes fontes de energia. Estamos falando de parques eólicos, parques solares, baterias e também sistemas híbridos de geração utilizando diesel e gás. O objetivo é garantir um fornecimento contínuo e permanente de energia para as operações minerárias. Esse aspecto é extremamente crítico para a mineração. Se não houver energia disponível, o processo produtivo paralisa.
As empresas de mineração latino-americanas estão avançando em direção à sustentabilidade?
José Albornoz Farias: Eu diria que sim. Há muitos anos, uma operação de mineração considerava que era sustentável apenas para cumprir a legislação ambiental. A sustentabilidade é discutida, hoje, sob uma perspectiva muito mais ampla. Falo de sustentabilidade ambiental, mas também econômica, social e de governança. Além disso, algo que hoje está muito relacionado à sustentabilidade é a possibilidade de operar soluções remotamente. Isso contribui para o planejamento, para a segurança operacional e para a disponibilidade mecânica dos equipamentos.
Como a mineração latino-americana lidou com as tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos? Houve prejuízos?
José Albornoz Farias: No caso do Chile, não houve aumentos significativos de impostos ou tarifas porque se tratava de produtos críticos para os Estados Unidos, necessários para a continuidade de diversas atividades econômicas e industriais. Ainda hoje, em nível regional, a situação continua sendo analisada, porque podem ocorrer modificações futuras.
A possibilidade de novas tarifas dos Estados Unidos contra produtos brasileiros preocupa o setor?
José Albornoz Farias: Eu diria que essa preocupação sempre existe. É algo que pode acontecer porque isso já não depende apenas de aspectos técnicos relacionados à exploração mineral em si. Existem países que foram afetados por medidas tarifárias mais por razões políticas do que técnicas.
Fonte: Broadcast Agro.