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22/May/2026

Máquinas Agrícolas: aposta em biocombustíveis

Uma tendência que havia sido antecipada na coletiva de lançamento da Agrishow 2026 ganhou materialidade nos estandes da feira e deu pistas sobre uma mudança em curso no desenvolvimento de máquinas agrícolas no Brasil: a aposta nos biocombustíveis como alternativa viável e cada vez mais central para o funcionamento de motores no campo. São tecnologias que buscam conciliar eficiência operacional, redução de custos e menor impacto ambiental. O desenvolvimento desses equipamentos ficou mais acelerado por causa das tensões geopolíticas no Oriente Médio, que provocam oscilações nos preços dos combustíveis fósseis. O Brasil importa cerca de 30% de seu consumo de diesel, tradicionalmente usado nas máquinas agrícolas. O País tem condições de reduzir essa dependência apostando em sua sólida cadeia produtiva de etanol e biodiesel. Um dos destaques da feira foi a apresentação do primeiro motor para tratores movido a etanol da AGCO Power, grupo do qual fazem parte empresas como a Massey Ferguson, a Valtra e a Fendt.

O projeto, desenvolvido integralmente no Brasil, está sendo preparado para chegar ao mercado em 2028. A tecnologia foi concebida ao longo de três anos e passou por mais de 10 mil horas de testes, incluindo aplicações em culturas como cana-de-açúcar e grãos. De acordo com a AGCO, o motor atende a uma faixa de potência entre 200 e 300 cavalos e mantém desempenho equivalente ao do diesel, sem perda de torque ou capacidade de tração. Além da performance, o apelo ambiental está na ordem do dia. Segundo a fabricante, o uso do etanol, que poderá ser proveniente de qualquer tipo de matéria-prima (como cana-de-açúcar, trigo, milho, entre outros) pode reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa. Outro fator relevante é o impacto econômico. Com as oscilações nos preços do diesel, o etanol surge como opção competitiva, especialmente para produtores com capacidade para fabricá-lo no próprio sítio ou fazenda, o que reduz custos e aumenta a previsibilidade operacional.

A John Deere também desenvolve uma tecnologia a etanol. Trata-se de um conceito de motor que foi revelado, inicialmente, em 2023, durante a Agritechnica, na Alemanha, e depois passou a ser adaptado às condições brasileiras no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Indaiatuba (SP), voltado à agricultura tropical. Apresentado pela primeira vez no Brasil durante a Agrishow de 2024, o projeto vem avançando. Na edição de 2025 da feira, já aparecia integrado a um trator da linha 8R. Agora em 2026, a companhia deu mais um passo ao exibir o trator equipado com o protótipo do motor acoplado a uma plantadeira, simulando operações reais no campo e reforçando a aplicação prática da solução em diferentes atividades agrícolas. Dois protótipos operam em áreas de testes no Brasil há cerca de três anos, principalmente nos segmentos de cana-de-açúcar e grãos, setores em que o etanol possui ampla disponibilidade e infraestrutura consolidada. Segundo a empresa, a proposta busca unir sustentabilidade e desempenho, mantendo rendimento semelhante ao diesel por meio de ajustes específicos de software no motor.

Além dos motores totalmente movidos a biocombustíveis, a feira apontou caminhos intermediários para a transição energética. Um dos exemplos é uma tecnologia apresentada pela Bosch que permite o uso combinado de diesel e etanol em motores originalmente projetados para combustíveis fósseis. Com um kit acoplado ao motor, até 60% de diesel pode ser substituído por etanol sem perda de desempenho, na razão de 1 litro de diesel para 1,6 ou 1,7 de etanol. Seis usinas parceiras estão rodando até o final desta safra com o modelo, que deve chegar ao mercado após passar por esses campos de prova. A Valtra apresentou um trator equipado com motor movido a biometano, combustível renovável obtido a partir do biogás, que, por sua vez, é gerado na decomposição de matéria orgânica. Esse processo ocorre quando resíduos como esterco, restos de culturas agrícolas, lixo ou subprodutos da indústria se decompõem por digestão anaeróbica, ou seja, sem a presença de oxigênio. É o primeiro trator a biometano da empresa voltado ao mercado agrícola. A proposta é gerar um ciclo de reaproveitamento.

As usinas sucroenergéticas de cana-de-açúcar poderão utilizar a própria biomassa de cana-de-açúcar e de milho para fornecer energia aos veículos que operam em suas lavouras. A previsão é de que, na Agrishow de 2027, a máquina já esteja disponível para comercialização. A adoção de combustíveis renováveis compatíveis com motores convencionais, como o HVO100, conhecido como diesel verde, também esteve em evidência na Agrishow. A Fendt apresentou um motor preparado para operar com esse tipo de combustível, sem necessidade de modificações estruturais relevantes. A AGCO explica que essa compatibilidade permite que produtores reduzam emissões de carbono de forma imediata, utilizando combustíveis alternativos em equipamentos já disponíveis no mercado. Ao mesmo tempo, contribui para ampliar o leque de opções energéticas no campo, especialmente em regiões onde o acesso ao etanol ou biometano pode ser mais limitado. O motor, cujo desenvolvimento começou em 2012, poderá ser adaptado para operar com qualquer tipo de combustível, como etanol, biometano e hidrogênio verde.

Por causa dessa e outras funcionalidades, como 25% menos componentes, o que ajuda a reduzir a vibração e o deixa mais estreito, permitindo maior raio de giro, foi eleito o trator de 2026 pela revista britânica Powertrain International, especializada em engenharia de sistemas de propulsão. O avanço dos biocombustíveis nas máquinas agrícolas não ocorre por acaso. É impulsionado por uma combinação de fatores econômicos e ambientais. Se, de um lado, o aumento do custo do diesel pressiona as margens do produtor rural e estimula a busca por alternativas mais baratas e previsíveis, de outro cresce a demanda por práticas mais sustentáveis, tanto por exigências de mercado quanto por compromissos climáticos assumidos pelo setor. Nesse contexto, tecnologias que conciliam produtividade e redução de emissões tendem a ganhar espaço. Matheus Pintor, da Bosch, afirma que a possibilidade de gerar créditos de carbono, por exemplo, passa a ser um incentivo adicional para a adoção de soluções baseadas em biocombustíveis. Por isso, o Brasil, com sua tradição na produção de biocombustíveis, aparece, na visão dos organizadores da feira, em posição estratégica para liderar esse movimento. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.