12/May/2026
O CEO da divisão agrícola da Bayer na América Latina, Maurício Rodrigues, enxerga um potencial único do Brasil em relação ao resto do mundo: o País consegue combinar a produção de alimentos com a de energia limpa. “Isso tudo traz essa perspectiva de crescimento”, diz. Segundo o executivo, o Brasil é “protagonista” nas decisões da companhia - na divisão de agronegócio, a América Latina é o segundo principal mercado da Bayer. “Continuamos muito otimistas com relação ao Brasil”, afirma “Não é um otimismo sem desafios. Temos um plano muito forte para os próximos anos de trazer uma quantidade bem grande de inovações e produtos - alguns já muito anunciados.” Segue a entrevista:
Como a inovação tem direcionado o negócio da Bayer?
Maurício Rodrigues: A inovação está no DNA da empresa. É uma empresa pautada em pesquisa e desenvolvimento, historicamente, e que faz um investimento anual significativo em pesquisa e desenvolvimento entre todas as divisões. Falando mais especificamente da divisão de agro, são mais de 2 bilhões de euros globalmente, investidos anualmente. É um foco muito grande em desenvolvimento de produtos, mas sempre voltado em como isso se conecta para os produtores e para os nossos clientes. Na verdade, é tentar aliar investimento e desenvolvimento nos pilares em que a gente atua, como na área de sementes e biotecnologia, na área de proteção e cultivos, atrelando isso ao que habituamos chamar de agricultura digital. Ou seja, tentando extrair não só o desenvolvimento, mas como isso consegue se conectar todos esses pilares e extrair o máximo de informação possível.
Qual será o papel da inteligência artificial em todo esse processo?
Maurício Rodrigues: Como todo mundo, uma boa parte da empresa já está utilizando inteligência artificial há algum tempo, mas estamos aprendendo muita coisa hoje em dia. Ela já é utilizada na área de melhoramento genético e na de desenvolvimento dos produtos químicos para design, aceleração do processo de teste e para conseguir desenvolver produtos melhores, mais sustentáveis e de maneira mais ágil e rápida. O foco sempre é como aumentamos a eficiência, como somos mais rápidos para trazer solução ao mercado e, ao mesmo tempo, assegurar que esses produtos sejam os mais sustentáveis possíveis e os mais eficientes em termos de produtividade para o produtor. Também estamos explorando - cada vez mais - como a gente utiliza isso dentro das áreas de produção. Nós produzimos sementes e produtos químicos, e tem uma série de processos, primeiro, que podem ser automatizados - e, ao longo do tempo, a gente vem fazendo isso -, mas também em como utilizamos essa inteligência para ter uma produção mais eficiente, ágil e rápida. No final do dia, é capturar dados desses produtores para conseguir antever muitas dessas decisões e acelerar o processo de desenvolvimento. E, talvez, um terceiro pilar que, cada vez mais, vamos tentar utilizar de maneira eficiente, é usar as bases de dados para oferecer produtos de maneira mais rápida e eficiente. Ou seja, cada vez mais é como isso chega na ponta, no cliente, da maneira mais customizada.
O agronegócio tem sido a grande boa notícia da economia nos últimos anos. Como a Bayer enxerga o mercado brasileiro?
Maurício Rodrigues: A Bayer Brasil é o segundo país mais relevante para a Bayer no mundo na área agro e na empresa como um todo. No agro, especificamente, a América Latina também é a segunda região mais importante, só ficando atrás da América do Norte. Quando a gente fala de multinacional, muitas vezes o papel do Brasil não é tão relevante percentualmente comparado com outras áreas na Europa, por exemplo. No caso do agro, temos uma relevância muito grande. Nós somos protagonistas. Tem uma série de tecnologias e produtos que são customizados para a nossa agricultura tropical, mas tem produtos desenvolvidos diretamente para o Brasil, como é o caso da Intacta, a soja que tem uma relevância muito grande na agricultura. Isso acaba gerando um interesse, um foco e uma oportunidade muito grandes, que sempre vêm pautada também por uma responsabilidade muito grande. Por que a responsabilidade? Porque a gente tem um nível de volatilidade. O agro vem sendo esse segmento resiliente da economia, mas tem sua flutuação natural, com preços de commodities, questões climáticas e uma série de outras coisas. Mas ele vem crescendo ao longo do tempo, por mais que haja volatilidade. Eu acredito que, no caso do Brasil, e a gente fala isso bastante, (o crescimento) não é só pela disponibilidade de terra, não é só pela disponibilidade de água, mas também está atrelado, sem dúvida, a uma base científica muito forte.
Poderia detalhar?
Maurício Rodrigues: Tem a base das multinacionais, mas tem a presença e a existência da Embrapa com tudo o que ela traz. Temos uma base sólida de regulamentação, seja ela do ponto de vista de sustentabilidade, seja do ponto de vista de proteção de patentes. Isso traz confiança para que a empresa possa trazer um nível de investimento muito grande para a região. Nós temos, na verdade, um histórico muito sólido de crescimento, de expansões boas de áreas de crescimento ao longo dos anos que dá essa resiliência, muitas culturas, muitas safras, o que dá uma diversificação. Mas, por outro lado, isso é pautado efetivamente em legislação muito forte, uma legislação do ponto de vista de sustentabilidade de patentes e de infraestrutura. O nível de investimento em infraestrutura cresceu absurdamente. Isso vai dando essa resiliência ao longo do tempo.
O mundo vive um momento muito singular na geopolítica. Quais podem ser os impactos para a empresa nos próximos anos?
Maurício Rodrigues: Primeiro, continuamos muito otimistas com relação ao Brasil. Não é um otimismo sem desafios. Temos um plano muito forte para os próximos anos de trazer uma quantidade bem grande de inovações e produtos - alguns já muito anunciados. Continuamos com as novas gerações de tecnologia, tanto de sementes quanto da parte de proteção e cultivo. E, por ser um país que tem uma matriz energética tão limpa, temos um potencial, diferentemente de outros locais, de conseguir expandir a produção de energia de etanol sem afetar a continuidade de produção de alimentos. Ou seja, o fato de a gente ter mais de uma safra, de uma utilização de tecnologia de maneira tão eficiente, faz com que nós tenhamos totais condições de ser um país que consegue, cada vez mais, continuar produzindo e expandindo. Recentemente, eu tive a oportunidade de levar algumas pessoas de fora para usinas de etanol que se espalham pelos cerrados, sem afetar a produção de alimentos. Esse sempre foi o dilema. O Brasil, sem dúvida, no meu entendimento, é o país que tem a melhor condição para atender tanto à questão energética quanto a de produção de alimentos. Isso tudo traz essa perspectiva de crescimento para o País. Nós continuamos muito otimistas, sabendo dos dilemas. O segmento sempre vive com uma pressão de preço das commodities, tem crise climática, existe o aperto de crédito. Nós somos conscientes disso e, talvez, o nosso papel como indústria é estar próximo ao agricultor, entender as situações, mas, por ser um segmento tão diverso, há situações muito diferentes, e isso é que torna a resiliência desse segmento.
É essa diversidade de culturas que ajuda a manter esse otimismo?
Maurício Rodrigues: Muitas vezes há uma mesma cultura em várias partes do Brasil que tem uma situação climática melhor no cerrado ou pior no sul, ou vice-versa. É uma diversidade de culturas muito grande. E, sem dúvida, o fato de ter mais de uma safra, muitas vezes, te dá a oportunidade também de ter mais diversificação de risco. Evidentemente, o melhor seria que todas estivessem bem, mas há uma boa diluição de risco que traz essa resiliência para o segmento como um todo.
Não é possível fazer uma previsão da duração da guerra, mas qual pode ser o impacto do conflito no Oriente Médio?
Maurício Rodrigues: A forma como eu sempre penso esse tipo de situação com o meu time é tentar separar aquilo que a gente controla daquilo que não controlamos. É uma forma de a gente se defender, porque, sendo um segmento que está tão exposto a variações climáticas, a preço de commodity, usualmente, estamos mais sujeitos a algum tipo de volatilidade e temos de estar preparados para isso. O que fazemos é o que a gente pode fazer de melhor internamente para estar preparado para essas questões externas. Sem dúvida, o pior ponto do momento que vivemos agora é que esse coeficiente de volatilidade está maior. Existe uma incerteza maior. Tem de estar mais próximo do cliente para entender a dor desse cliente de maneira mais efetiva, o que gera uma necessidade de maior criatividade, seja do ponto de vista logístico para a chegada desses produtos, seja do ponto de vista de soluções. Você também precisa ser mais ágil, o que gera, evidentemente, uma demanda interna maior de preparação e de proximidade. Agora, sem dúvida, um preço de petróleo nos níveis em que está - e se ele se mantiver por muito tempo - vai se refletir em preços de frete e tudo o mais. O que a gente procura fazer ao máximo é evitar perder muito tempo na especulação dos impactos e focar muito mais no que podemos fazer para tentar solucioná-los e conviver com eles, evidentemente ciente do tamanho dos problemas.
Fonte: Broadcast Agro.