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05/May/2026

Move Agricultura: R$ 10 bilhões para Máquinas Agrícolas

O anúncio

Na abertura da Agrishow 2026, em Ribeirão Preto, o vice-presidente Geraldo Alckmin apresentou o Move Agricultura — nova frente do programa MOVE Brasil, voltada à aquisição de tratores, colheitadeiras, semeadeiras, plantadeiras, pulverizadores e implementos agrícolas. O volume divulgado é de R$ 10 bilhões, com taxa de juros prometida em patamar de "um dígito" — bem abaixo das linhas convencionais de crédito rural, que hoje operam em dois dígitos. O crédito poderá ser contratado diretamente pela Finep ou via Banco do Brasil, cooperativas e bancos privados credenciados.

"São R$ 10 bilhões para financiar trator, implementos, colheitadeiras, toda a parte de máquinas agrícolas. Em três semanas, a gente vai ter R$ 10 bilhões com juros bem mais baixos."

— Geraldo Alckmin, vice-presidente da República, durante a Agrishow 2026

De onde vêm os recursos

Esse ponto merece atenção antes de qualquer avaliação sobre viabilidade: os R$ 10 bilhões não são uma dotação orçamentária nova. Os recursos vêm do superávit acumulado do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), gerido pela Finep. O FNDCT é abastecido por fontes como royalties do petróleo e gás natural, receitas de empresas de energia elétrica, telecomunicações e contribuições de companhias de tecnologia e automação.

O fato de o dinheiro existir de fato no fundo é um diferencial importante: não se trata de promessa sem lastro. É o mesmo mecanismo que viabilizou a primeira fase do programa, voltada à renovação de frotas de caminhões, lançada em janeiro de 2026.

O precedente da versão para caminhões reforça a credibilidade do modelo: os R$ 10 bilhões daquela fase foram completamente contratados em 60 a 90 dias, mesmo com juros ainda elevados. A demanda reprimida no mercado de bens de capital é real.

Taxas de juros: o que se sabe — e o que falta saber

O governo prometeu juros em patamar de "um dígito", sem especificar o percentual exato. A taxa só será conhecida quando a regulamentação operacional for publicada — algo que ainda não ocorreu até o momento desta análise. Para contextualizar: na fase anterior do programa para caminhões, a taxa ficou em torno de 23% ao ano. A nova linha agrícola, com custo abaixo de 10% a.a., representaria uma redução expressiva e uma das condições mais competitivas já oferecidas fora do Plano Safra.

Atenção: O percentual exato de juros, as condições de garantia exigidas e os prazos de amortização ainda não foram divulgados oficialmente. Produtores e distribuidores devem aguardar a publicação do normativo operacional antes de tomar decisões de compra baseadas nessa linha.

Os recursos já estão disponíveis?

No momento do anúncio (26 de abril de 2026), o programa ainda estava em fase final de estruturação. O governo prometeu liberação em 20 a 30 dias — o que posiciona meados de maio como a janela esperada para início das operações. Até a data desta publicação, a linha ainda não havia sido formalizada operacionalmente.

Uma novidade institucional relevante é que, pela primeira vez, cooperativas agrícolas poderão acessar diretamente crédito da Finep para financiar máquinas e implementos — o que amplia o alcance da linha no interior do país.

Viabilidade real: pontos favoráveis e riscos

Fatores que sustentam a viabilidade:

Recursos com lastro real no FNDCT — não dependem de aporte do Tesouro Nacional

Cooperativas como canal de acesso direto à Finep ampliam capilaridade no campo

Demanda reprimida comprovada: o mercado de máquinas acumula 4 anos de queda

A Abimaq avalia que os R$ 10 bilhões serão consumidos antes de julho

Complementaridade com o Plano Safra, que entra em vigor em julho

Riscos e incertezas a monitorar:

Taxa de juros exata ainda não divulgada — pode variar conforme perfil do tomador

A Finep não tem histórico de operações em escala com o produtor rural — burocracia pode travar o acesso

Regulamentação operacional ainda não publicada na data desta análise

Câmbio menos favorável, commodities em queda e endividamento rural limitam a capacidade de absorção mesmo com crédito barato

Importações de máquinas cresceram 48,4% no 1º trimestre, pressionando a indústria nacional

O contexto do setor

A nova linha chega em um dos piores momentos recentes para o mercado de máquinas agrícolas. Segundo dados da Abimaq, as vendas de tratores recuaram 8,6% no primeiro trimestre de 2026 ante o mesmo período de 2025. O desempenho das colheitadeiras foi ainda mais severo: queda de 40,2%, reflexo direto da retração dos produtores de soja e milho — principais compradores de equipamentos pesados. No total, incluindo todos os segmentos de máquinas, o mercado brasileiro recuou 11,4% no período, somando R$ 90,9 bilhões.

"É interessante porque traz recurso mais barato. Daqui até o Plano Safra, os agricultores vão consumir esse dinheiro. Para nós, é altamente positivo."

— Pedro Bastos, presidente da câmara setorial de máquinas e implementos da Abimaq

Segundo Bastos, os produtores estão segurando investimentos diante da perda de rentabilidade causada pelo câmbio menos favorável, crédito caro e preços de commodities que "não estão ajudando muito". Em relação ao Plano Safra 2025/2026, a expectativa do setor é de manutenção do volume do ano anterior — sem novidades estruturais. "Chato falar isso, mas é mais do mesmo", avaliou o dirigente.

Leitura Cogo

O Move Agricultura tem fundamento real e potencial concreto de impacto — especialmente pela inclusão das cooperativas como canal direto da Finep e pela taxa subsidiada em um momento em que o crédito rural convencional opera em dois dígitos. No entanto, o risco de execução não é pequeno. A Finep é uma instituição voltada historicamente ao financiamento de inovação corporativa, não ao atendimento em escala de produtores rurais. A velocidade de operacionalização, as garantias exigidas e o percentual exato de juros serão os fatores determinantes para que o programa cumpra o que promete — ou se torne mais um anúncio de feira agrícola.

A janela entre agora e julho é estreita. Quem pretende aproveitar a linha deve monitorar de perto a publicação da regulamentação e verificar junto à sua cooperativa ou banco se a instituição já está credenciada para operar o programa.

Fonte: Cogo Inteligência em Agronegócio · Maio de 2026