14/Apr/2026
Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), o setor de fertilizantes no Brasil enfrenta um risco real de descontinuidade de operações de empresas globais, pressionadas por margens apertadas e pela falta de um plano estratégico para o segmento no País. Empresas multinacionais podem optar por alocar seus investimentos em regiões como Índia, África ou Europa, que oferecem retornos mais previsíveis, em detrimento do mercado brasileiro. Como exemplo, pode-se citar a empresa de fertilizantes norte-americana Mosaic, que divulgou na quarta-feira (08/04) o encerramento das operações e a venda de ativos de seu complexo em Araxá, além da suspensão das atividades de mineração relacionadas no Complexo de Patrocínio, ambos em Minas Gerais.
Os resultados dessa situação complexa são concretos. Se nada for feito, outras notícias como essa virão. Não há como justificar os altíssimos investimentos apenas de manutenção da capacidade instalada atual, que é um volume imenso. O governo precisa decidir se deseja revitalizar o parque industrial ou continuar facilitando a importação de fertilizantes em detrimento da produção nacional. Mesmo a Petrobras, que possui maior disposição estatal, interrompeu operações de fertilizantes no passado. A Petrobras era a principal produtora de fertilizantes nitrogenados no Brasil entre as décadas de 1970 e 2010, por meio das Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados (Fafens). No entanto, a produção de nitrogênio depende do gás natural como principal matéria-prima.
O problema do Brasil não é falta de gás natural. O País precisa fazer como China, Marrocos e países do Oriente Médio fazem, que é subsidiar a indústria por considerá-la estratégica. Com objetivo de suprir até 35% da demanda do País, a Petrobras anunciou em janeiro que as Fafens de Sergipe e da Bahia iniciaram a produção de ureia com investimentos iniciais de R$ 38 milhões em cada unidade para reativar a produção. Os desafios, no entanto, continuam. O custo e a complexidade de produzir no Brasil tornam o processo oneroso. Isso é fruto de decisões governamentais, regulatórias e econômicas não estratégicas. Com relação ao Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), instituído em 2022 como uma estratégia de longo prazo para reduzir a dependência externa de insumos agrícolas, reduzindo a dependência de nitrogênio, fosfato e potássio até 2050, o problema é a implementação.
Há um diagnóstico correto dos problemas, mas carece de urgência política e ações práticas para reduzir a dependência externa. O projeto de lei do Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), que concede uma série de benefícios tributários para criar um parque nacional do segmento, e está pendente de aprovação na Câmara dos Deputados há pelo menos três anos. O Brasil é um dos poucos países do mundo que ainda tributa investimento em capex. Uma planta de fertilizante não sai por menos de US$ 1 bilhão, US$ 2 bilhões, às vezes US$ 4 bilhões. Sobre a possibilidade de parcerias com vizinhos como Bolívia, Venezuela e Argentina para reduzir a dependência de fornecedores localizados em regiões de conflitos não resolve o problema.
O Brasil possui reservas minerais e gás natural suficientes e buscar esses recursos fora apenas diversifica a dependência e não a soluciona. A Bolívia tem um problema enorme de deterioração de capacidade produtiva e produção de gás. Já se tentou um acordo Brasil-Bolívia no passado e não deu certo. Entre 2017 e 2018, houve uma negociação para que a Petrobras e a estatal boliviana YPFB formassem parcerias para operar plantas de fertilizantes. Venezuela e Argentina dependem de investimento estrangeiro para ampliar sua capacidade produtiva. Se é para colocar esforços e recursos, que seja no Brasil. O Sinprifert também rebateu críticas de ativistas ambientais sobre a exploração mineral no País. Impedir a produção local obriga o Brasil a importar de países com regulações ambientais e sociais muitas vezes menos rigorosas.
Um estudo publicado recentemente pela Universidade de Newcastle, da Inglaterra, aponta que a logística para trazer cloreto de potássio da Rússia e do Canadá dobra as emissões de gases de efeito estufa. Enquanto métricas tradicionais, como a ferramenta RenovaCalc, calculadora de desempenho ambiental utilizada no âmbito da Política Nacional de Biocombustíveis do Brasil (RenovaBio), indicam um fator de 273,13 Kg de CO2-eq por tonelada, por considerarem apenas a fabricação, a pesquisa aponta que a inclusão das emissões de Escopo 3, que abrangem o transporte global e a distribuição interna, eleva a pegada de carbono média para 530,5 Kg de CO2-eq por tonelada. Esse valor evidencia o impacto ambiental oculto da dependência de importações de longa distância frente à ausência de exploração das reservas nacionais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.