10/Apr/2026
O bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa quase metade da ureia consumida no Brasil, coloca o País em condição de alta exposição e risco de desabastecimento, avalia a CEO da Associação Internacional de Fertilizantes (IFA), Alzbeta Klein. Segundo ela, embora os estoques ajudem a absorver choques de curto prazo, não substituem as importações contínuas, e rotas alternativas dificilmente compensariam uma interrupção prolongada. Klein destaca que o cenário pode acelerar a substituição de fontes de nutrientes, como a migração da ureia para o sulfato de amônio, e impulsionar tecnologias como biofertilizantes e agricultura de precisão. Além disso, a executiva alerta para o "nacionalismo dos fertilizantes", com restrições de exportação por grandes produtores, como Rússia e China, e para o aumento dos custos de frete decorrente do redirecionamento de rotas marítimas. Segue a entrevista:
O Estreito de Ormuz responde por quase metade da ureia consumida no Brasil. Se esse bloqueio se estender pelo primeiro semestre de 2026, o País tem estoques de passagem ou rotas alternativas suficientes para mitigar a escassez física?
Alzbeta Klein: O Brasil está altamente exposto aos fluxos de ureia do Golfo, portanto, uma interrupção prolongada pode aumentar o risco de oferta, especialmente se atingir períodos críticos de aplicação. Os estoques ajudam a absorver choques de curto prazo, mas não substituem as importações contínuas. Rotas ou origens alternativas podem oferecer alguma flexibilidade, mas é improvável que compensem totalmente uma interrupção prolongada. Os agricultores brasileiros são conhecidos pela disposição em substituir fontes de nutrientes diante de desafios de acessibilidade, como a tendência recente de trocar a ureia pelo sulfato de amônio. Isso também poderia mitigar parte dos possíveis efeitos.
Rússia e China estão restringindo exportações para proteger o mercado doméstico. Estamos entrando em uma era de "nacionalismo dos fertilizantes", onde acordos bilaterais terão mais peso do que os preços de tela nas bolsas?
Alzbeta Klein: Restrições à exportação não são novidade e costumam ser impulsionadas por prioridades domésticas de segurança alimentar. Mas um problema potencial surge do efeito cumulativo quando vários produtores agem ao mesmo tempo, reduzindo a disponibilidade global. Os mercados de fertilizantes continuam sendo negociados globalmente, mas as decisões políticas estão se tornando uma variável mais importante, que precisa ser considerada.
A busca por fontes alternativas, como a Venezuela, é mencionada nos EUA. Para o Brasil, a reativação total de plantas domésticas ou acordos com vizinhos sul-americanos seria uma solução de curto prazo ou apenas um paliativo?
Alzbeta Klein: Oferta regional adicional ou produção doméstica podem ajudar na margem, mas não são soluções rápidas. Reiniciar ou expandir a produção depende da disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura e viabilidade econômica. No curto prazo, essas medidas poderiam atuar como uma mitigação parcial.
O nitrato de amônio está escasso por causa da suspensão russa. Como essa falta específica afeta culturas que não respondem bem à ureia - como cana-de-açúcar e citros - e quais seriam os substitutos imediatos?
Alzbeta Klein: A escassez de nitrato de amônio pode afetar culturas que exigem uma entrega de nitrogênio mais personalizada, incluindo algumas perenes e de alto valor. Os produtores costumam se ajustar por meio de fontes alternativas de nitrogênio ou diferentes estratégias de aplicação. No entanto, a substituição pode envolver perdas em custo ou eficiência.
Dificuldades logísticas poderiam redirecionar o fluxo de exportações de carne de aves. Existe o risco de navios que trazem fertilizantes e levam proteínas evitarem rotas próximas ao conflito, aumentando os custos de frete de retorno?
Alzbeta Klein: O aumento do risco em corredores marítimos importantes pode levar a desvios ou atrasos, elevando os custos de frete e reduzindo a eficiência. Isso pode afetar a internalização de fertilizantes e os fluxos de exportação agrícola, incluindo a dinâmica do frete de retorno (backhaul).
O bloqueio do Estreito de Ormuz causou um salto imediato de 28,2% nos preços da ureia no Golfo. Historicamente, quanto tempo o mercado leva para precificar rotas alternativas e qual o custo logístico adicional estimado para contornar esse gargalo a longo prazo?
Alzbeta Klein: O ajuste para rotas alternativas ou novas fontes de suprimento costuma levar semanas ou meses, dependendo da disponibilidade e da logística. Esses ajustes geralmente vêm acompanhados de custos mais elevados de transporte, seguro e manuseio.
Com 17% da ureia e 20% do DAP/MAP consumidos nos EUA dependendo do trânsito por Ormuz, a senhora acredita que estamos diante de uma reconfiguração permanente das rotas de suprimento ou o mercado global ainda depende de uma solução diplomática rápida?
Alzbeta Klein: O mercado global é resiliente e os fluxos comerciais se reequilibram com o tempo. No entanto, ele ainda depende do funcionamento suave dos principais corredores comerciais. Uma solução diplomática continua sendo o resultado mais eficiente para o comércio global de fertilizantes.
Há pressão nos EUA pela revogação de tarifas sobre fertilizantes de Marrocos e Rússia. Em um cenário de crise de oferta, o argumento de "proteção da indústria doméstica" perde terreno para a "segurança alimentar"? Há viabilidade política para essa mudança ainda nesta sessão?
Alzbeta Klein: Períodos de estresse na oferta podem mudar o equilíbrio da discussão política, mas as decisões permanecem altamente específicas para cada contexto. Não é algo sobre o qual a IFA especularia em termos de tempo ou probabilidade.
Crises de fertilizantes fósseis costumam acelerar a adoção de tecnologias alternativas. A senhora vê espaço para um crescimento exponencial de biofertilizantes e técnicas de agricultura de precisão para otimizar cada quilo de NPK aplicado em 2026?
Alzbeta Klein: Períodos de volatilidade tendem a acelerar o interesse em eficiência e soluções alternativas. Biofertilizantes e agricultura de precisão podem desempenhar um papel crescente na melhoria da eficiência do uso de nutrientes e mostram grande potencial como produtos complementares aos fertilizantes convencionais.
Fonte: Broadcast Agro.