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08/Apr/2026

Fertilizantes: crise global e autossuficiência da China

A atual crise global de fertilizantes evidencia uma assimetria estrutural entre a China e o restante do mercado internacional, com impactos diretos sobre preços, disponibilidade e segurança de abastecimento. Enquanto grande parte dos produtores globais enfrenta elevação de custos e restrições logísticas, o país asiático mantém fertilizantes em patamares significativamente mais baixos, sustentado por um modelo produtivo baseado em carvão. Cerca de 78% da produção de ureia chinesa utiliza carvão como matéria-prima, reduzindo a exposição à volatilidade do gás natural, principal insumo nos demais polos produtores, como Rússia, Catar e Arábia Saudita. Essa característica garante maior previsibilidade de custos e permite ao país operar com preços internos substancialmente inferiores aos praticados no mercado internacional.

No ambiente externo, a escalada geopolítica, com destaque para tensões no Oriente Médio e restrições logísticas no Estreito de Ormuz, impulsionou os preços da ureia em cerca de 70% desde o fim de fevereiro, atingindo níveis entre US$ 700,00 e US$ 780,00 por tonelada em mercados de referência. Em contraste, os preços no mercado chinês permanecem entre US$ 255,00 e US$ 267,00 por tonelada, evidenciando uma dissociação relevante entre mercados. Essa diferença de preços não se traduz, porém, em maior disponibilidade global. Ao contrário, a estratégia chinesa tem sido priorizar o abastecimento doméstico, com restrições às exportações e liberação controlada de estoques internos. Essa política busca evitar pressões inflacionárias locais, mas contribui para restringir ainda mais a oferta internacional de fertilizantes.

O resultado é uma dupla distorção: enquanto a China mantém estabilidade de custos e oferta, o restante do mundo enfrenta um ambiente de escassez relativa e preços elevados. Esse desequilíbrio já começa a influenciar decisões produtivas em importantes regiões agrícolas, com produtores reduzindo áreas de culturas intensivas em nitrogênio ou migrando para alternativas menos exigentes em fertilização. Do ponto de vista estrutural, o movimento reforça o papel da China como um agente estabilizador interno e, simultaneamente, desestabilizador externo no mercado de fertilizantes. Ao combinar autossuficiência produtiva, controle estatal e gestão estratégica de exportações, o país amplia sua capacidade de influenciar preços e fluxos globais.

Para países importadores, como o Brasil, o cenário é particularmente sensível. A crescente dependência de fornecedores concentrados e sujeitos a decisões soberanas eleva o risco de descontinuidade no abastecimento e dificulta o planejamento da safra. Além disso, a necessidade de buscar origens alternativas tende a ocorrer a custos mais elevados, pressionando margens e potencialmente impactando a produtividade agrícola. A crise atual marca uma mudança de natureza no mercado global de fertilizantes: de um ciclo dominado por preços elevados para um ambiente em que disponibilidade, geopolítica e estratégia industrial passam a ser determinantes centrais. A posição da China nesse contexto reforça a importância de políticas de segurança de insumos para países dependentes de importação. Fonte: CNN Brasil. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.