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02/Apr/2026

Insumos: entrevista com a senadora Tereza Cristina

A senadora Tereza Cristina (Progressistas-MS), ex-ministra da Agricultura e uma das vozes mais atuantes no setor agropecuário, avalia que a guerra no Irã terá um impacto duplo sobre o segmento. Primeiro, a alta do diesel, que já afeta toda a cadeia, "da porteira para dentro e da porteira para fora". Depois, o aumento do custo dos fertilizantes, que pode afetar a produtividade da safra que será plantada a partir de agosto. Para a senadora, o setor não terá condições de absorver esse aumento de custos. "Com certeza teremos efeito no preço dos alimentos", diz. Segue a entrevista:

Quais impactos a sra. avalia que a guerra no Irã terá sobre a agropecuária brasileira?

Tereza Cristina: A preocupação não é só do agro, é do Brasil, já que a nossa matriz de transporte é toda em cima do transporte rodoviário. Então, a gente precisa muito do diesel. No agro, qual é a nossa preocupação? Primeiro, estamos terminando a colheita da safra de verão - e, imediatamente, a gente entra no plantio. Já está acontecendo o plantio da safra de inverno, da segunda safra. Então, os produtores precisam do diesel para colher a safra que ainda está no chão.

E o que mais?

Tereza Cristina: Aumento do custo de produção. Fertilizantes. O Brasil é altamente dependente de fertilizantes do mundo. Então, cada dia que você atrasa o line-up do navio, é um dia depois que o navio precisa voltar e a rota fica prejudicada. Você aumenta o problema de estoque de fertilizantes para a próxima safra, que começa a partir de agosto. Então, esse é o momento em que as empresas compram fertilizantes - é estocado, para os produtores começarem a retirar para a próxima safra. Preço já está subindo, e os produtores estão preocupados. O Brasil está olhando alternativas de compra, porque boa parte dos fertilizantes nitrogenados vem de países como Catar, Arábia Saudita, Kuwait, que estão no centro dos conflitos e até sendo bombardeados pelo Irã, por serem aliados dos Estados Unidos.

Existem alternativas de compra?

Tereza Cristina: Estamos acompanhando isso de perto e trabalhando em alternativas de biofertilizantes. Na outra crise (da guerra da Ucrânia), eu ainda estava no Ministério da Agricultura (durante o governo Jair Bolsonaro) e trabalhei de maneira muito forte com isso, até para tirar as sanções sobre fertilizantes de alguns países, como o Irã e a Rússia, para que o fertilizante também não fosse sancionado, como os alimentos. Nós temos de ver de onde podemos fazer essa troca de destinos de compra de fertilizantes nitrogenados pelo Brasil.

Por que é tão difícil diminuir essa dependência da importação de fertilizantes?

Tereza Cristina: Acho que é falta de visão estratégica de país. Lá atrás, nós começamos um plano nacional de fertilizantes; ele caminhou e, até agora, o Brasil não instituiu políticas públicas para que pudéssemos ter pelo menos parte (da produção). Nós nunca vamos ser autossuficientes, nem é desejável em termos de comércio o Brasil ser autossuficiente. Mas é muito ter 90% de dependência de nitrogênio, 96% do potássio e 80% dos fosfatados.

Teremos um choque agora, pelo diesel, e outro pelo fertilizante, mais à frente?

Tereza Cristina: Sim. E não é pouco mais à frente, é logo agora à frente. Em agosto, você já tem de ter esse fertilizante. Senão, vai fazer o quê? Diminuir a produtividade brasileira.

O setor tem margem para absorver esse impacto ou teremos efeito nos preços dos alimentos?

Tereza Cristina: Com certeza teremos efeito no preço dos alimentos. O setor não vai bem, vem alavancado; os juros que o Brasil pratica são inaceitáveis para a agricultura, vocês têm visto aí as recuperações judiciais que vêm acontecendo. Então, é um momento ruim, preços baixos, commodities no menor patamar nos últimos anos. O custo de produção está aumentando em dois fatores fundamentais na composição do custo do agricultor: diesel e fertilizante. Agora, a gente vai ter de ver quanto tempo essa guerra vai durar. Claro que você tem um impacto imediato. Nós já estamos vendo aí o diesel com os preços escalando. O pior de tudo é a escassez que pode estar vindo, aí nem pagando mais você conseguirá (acesso ao produto).

Que avaliação a sra. faz das medidas do governo para tentar reduzir ou pelo menos conter a alta do diesel?

Tereza Cristina: Mais do mesmo. Querem de novo jogar a culpa nos Estados; então, vão para a televisão dizer que (os Estados) não estão colaborando, mas não é assim que vai se resolver o problema. A gente já teve lá atrás o impacto que os Estados tiveram na outra crise (em 2022, no governo Bolsonaro). E eles tiveram um rombo grande. Não tem nenhum Estado com folga de caixa, muito poucos - isso seria muito comprometedor. E tem de ver também se isso se reflete lá na ponta, porque às vezes o ICMS cai, o PIS/Cofins cai e, na ponta, não se reflete essa diminuição de preço para o consumidor. Isso precisa realmente de uma orquestração muito afinada entre os Estados e a União. Eu não tenho visto isso.

Qual a importância do diesel para o setor?

Tereza Cristina: Trator, colheitadeira, os caminhões que retiram a safra, que depois levam até o processamento, depois levam para os portos, levam para as esmagadoras... Enfim, toda a agricultura é movida a óleo diesel. O impacto é de dentro da porteira até a exportação.

Fonte: Broadcast Agro.