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10/Mar/2026

Fertilizantes: Brasil é muito dependente da importação

A agricultura brasileira mantém elevada dependência de fertilizantes importados, apesar da relevância do agronegócio na economia nacional. Dados do setor indicam que entre 80% e 90% dos fertilizantes consumidos no País são provenientes do exterior, o que amplia a exposição da produção agrícola a riscos relacionados à oferta global, volatilidade de preços, logística internacional e variações cambiais. Em 2025, as entregas totais de fertilizantes ao mercado brasileiro atingiram 49,11 milhões de toneladas, volume recorde para o setor. Desse total, 43,32 milhões de toneladas foram importadas, correspondendo a 88,2% do consumo nacional. Os fertilizantes desempenham papel essencial na agricultura comercial ao fornecer nutrientes adicionais necessários para atingir níveis elevados de produtividade. Embora as plantas absorvam nutrientes naturalmente do solo e do ar, a produção em larga escala exige suplementação para sustentar a produtividade das lavouras.

No Brasil, o consumo de fertilizantes concentra-se no complexo NPK, composto por nitrogênio, fósforo e potássio. O potássio responde por cerca de 38% da demanda nacional, seguido pelo fósforo, com 33%, e pelo nitrogênio, com 29%. Culturas como soja, milho e cana-de-açúcar concentram mais de 70% da demanda por esses insumos. O principal gargalo da produção doméstica está relacionado ao potássio. Aproximadamente 97% do potássio utilizado no Brasil é importado. Em grandes produtores globais, como Canadá, Rússia e Bielorrússia, a extração ocorre em depósitos mais acessíveis, enquanto no Brasil as reservas estão associadas a formações geológicas mais complexas, o que eleva os custos de extração e logística e reduz a competitividade do produto nacional. No segmento de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, o principal fator de custo é o gás natural utilizado no processo produtivo. A estrutura de gás natural no Brasil apresenta custos mais elevados e menor integração em comparação com grandes produtores internacionais.

Países com ampla disponibilidade de gás, como a Rússia, e regiões do Oriente Médio com forte integração energética, possuem maior competitividade na produção de nitrogenados. No segmento de fertilizantes fosfatados, grande parte da oferta global destinada ao Brasil tem origem em países como Marrocos, Rússia e China. A elevada dependência de importações torna o mercado brasileiro particularmente sensível a fatores externos, principalmente geopolítica e câmbio. O comércio internacional de fertilizantes conecta um número restrito de países detentores de recursos minerais e energéticos a grandes produtores de alimentos, o que resulta em uma estrutura de mercado caracterizada por forte concentração de oferta. Estimativas indicam que aproximadamente 45% dos fertilizantes importados pelo Brasil em 2024 tiveram origem em países com maior risco de instabilidade geopolítica ou conflitos, incluindo Rússia, Bielorrússia, Israel, Nigéria e Turquia, entre outros.

A vulnerabilidade da cadeia de suprimentos tornou-se evidente durante o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022. A Rússia é um dos principais fornecedores globais de fertilizantes e um parceiro relevante do Brasil nesse mercado. O conflito afetou cadeias de abastecimento e elevou a percepção de risco, resultando em forte alta de preços internacionais. Naquele período, fertilizantes que eram negociados entre US$ 500 e US$ 600 por tonelada nos portos brasileiros chegaram a atingir valores entre US$ 1.200 e US$ 1.300 por tonelada. Além da geopolítica, a taxa de câmbio exerce influência direta sobre os custos de aquisição desses insumos. Como a maior parte dos fertilizantes é negociada em dólar, movimentos de desvalorização do Real elevam o custo de importação, mesmo na ausência de mudanças nas cotações internacionais. Diante desse cenário, o Brasil lançou em 2022 o Plano Nacional de Fertilizantes, com o objetivo de reduzir gradualmente a dependência externa desses insumos. A iniciativa prevê diminuir a dependência atual, superior a 88%, para cerca de 50% até 2050.

Entre as metas do plano estão a ampliação da produção nacional para 2,8 milhões de toneladas de fertilizantes nitrogenados, 9,2 milhões de toneladas de fosfatados e 6 milhões de toneladas de potássio. O programa também projeta a atração de aproximadamente R$ 20 bilhões em investimentos em novas plantas industriais ao longo do período. Como parte desse movimento, foram retomadas operações de produção de fertilizantes nitrogenados em unidades industriais localizadas em Sergipe e na Bahia, com investimentos aproximados de R$ 38 milhões em cada instalação. Outros projetos de mineração e produção de fertilizantes foram anunciados, incluindo empreendimentos previstos para Autazes, no Amazonas, e Santa Quitéria, no Ceará, embora ainda enfrentem desafios relacionados ao processo de licenciamento. A expansão da produção doméstica tende a reduzir parte da dependência externa ao longo das próximas décadas. Ainda assim, análises do setor indicam que alcançar autossuficiência plena em fertilizantes permanece improvável, devido às limitações geológicas, estruturais e econômicas da produção nacional. Fonte: CNN Brasil. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.