04/Mar/2026
A Abiquim avalia que o conflito entre Estados Unidos e Irã não provoca, até o momento, rupturas operacionais diretas nas cadeias de suprimento de produtos químicos destinados ao Brasil, mas gera impactos indiretos e sistêmicos relevantes. Energia, fertilizantes, petroquímicos básicos e câmbio concentram os principais vetores de risco.
O Irã produz cerca de 3,5 milhões de barris de petróleo por dia, enquanto o Estreito de Ormuz concentra aproximadamente 20% da oferta global e 25% do comércio marítimo mundial de petróleo. Eventuais restrições prolongadas ao tráfego na região tendem a pressionar o preço do Brent, com efeito direto sobre a nafta petroquímica, principal insumo da indústria química brasileira.
Embora o Brasil seja exportador líquido de petróleo, o País é importador líquido de derivados como diesel, GLP e nafta. Dessa forma, elevação sustentada do Brent impacta custos industriais, fretes internacionais e inflação doméstica. Segundo estimativas da entidade, uma alta de US$ 20 no Brent pode elevar de forma relevante o custo variável dos petroquímicos, reduzindo o spread entre 10% e 25%, a depender das condições de mercado.
No segmento de fertilizantes, o Irã é exportador relevante de ureia e amônia, enquanto o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. Restrições às exportações iranianas tendem a elevar o preço da ureia nitrogenada, com impacto direto sobre o agronegócio, pressão adicional sobre alimentos e encarecimento de insumos nitrogenados utilizados pela própria indústria química.
O país do Oriente Médio também é fornecedor relevante de metanol e intermediários como formaldeído, resinas termofixas, MTBE e ácido acético. Limitações de oferta desses produtos no mercado internacional podem elevar preços globais e pressionar custos de produtores brasileiros de resinas e especialidades químicas.
No campo financeiro, conflitos na região costumam direcionar fluxos para ativos considerados seguros, como dólar e Treasuries, ampliando a volatilidade cambial e favorecendo a desvalorização do real. Câmbio mais depreciado beneficia exportadores de commodities, mas encarece importações industriais e investimentos em Capex com equipamentos importados.
A Abiquim trabalha com três cenários possíveis. O primeiro considera alta temporária do petróleo, volatilidade cambial moderada e impacto inflacionário administrável. O segundo envolve bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, com Brent acima de US$ 100, pressionando a inflação global, prolongando o aperto monetário no Brasil e elevando de forma significativa os custos de fertilizantes e nafta. O terceiro, de maior gravidade, contempla choque energético persistente, com redesenho das cadeias globais de suprimento e impacto severo sobre a indústria química mundial.
O cenário reforça a necessidade de políticas estruturantes voltadas à redução da vulnerabilidade energética em cadeias estratégicas, à diminuição da dependência de insumos importados, como nafta petroquímica, e de produtos químicos essenciais, a exemplo dos fertilizantes nitrogenados. A associação manterá monitoramento contínuo dos desdobramentos do conflito, defendendo soluções diplomáticas e iniciativas que ampliem a resiliência, competitividade e segurança produtiva da indústria química brasileira. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.