03/Mar/2026
O ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã, seguido de retaliações e do anúncio de fechamento do Estreito de Ormuz, recolocou o petróleo no centro da formação de preços globais e elevou significativamente a aversão ao risco nos mercados financeiros. A reação inicial foi imediata, com forte alta do petróleo, valorização de ativos de proteção como ouro e dólar e queda moderada das bolsas. O principal fator de preocupação não é a produção iraniana em si, mas o risco logístico associado ao estreito, por onde transita cerca de 20% do comércio marítimo mundial de petróleo. Trata-se de um choque essencialmente geopolítico, com potencial de irradiar volatilidade para toda a estrutura de preços das commodities.
Nos mercados agrícolas, o impacto ocorre por múltiplos canais. A valorização do petróleo melhora a competitividade dos biocombustíveis e reforça o suporte indireto a soja e milho, enquanto o aumento da incerteza global estimula compras financeiras defensivas em commodities. O trigo liderou as altas recentes, impulsionado pela cobertura de posições vendidas por fundos e por preocupações climáticas nos Estados Unidos, enquanto soja e milho apresentam movimentos mais moderados e ainda fortemente dependentes de seus próprios fundamentos. O efeito líquido sobre o comércio global de grãos permanece incerto e dependerá essencialmente da duração e da intensidade do conflito.
Para o Brasil, o choque tem natureza ambígua. Por um lado, a elevação do petróleo tende a melhorar a balança comercial e ampliar a receita das empresas produtoras, fortalecendo os termos de troca do país. Por outro, a economia brasileira é dependente da importação de derivados, especialmente diesel, o que transmite rapidamente a alta do petróleo para os preços internos de combustíveis, ampliando pressões inflacionárias, custos logísticos e despesas de produção agrícola. Esse efeito é particularmente relevante em um contexto de sensibilidade macroeconômica elevada.
O maior risco estrutural para o agronegócio, contudo, está no mercado de fertilizantes. O Estreito de Ormuz é uma rota crítica para o comércio global de nitrogenados, amônia, fosfatos e enxofre, e qualquer interrupção relevante do fluxo marítimo pode gerar choques de oferta semelhantes aos observados no início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Como o Brasil é altamente dependente de importações desses insumos, um conflito prolongado pode pressionar significativamente os custos de produção das próximas safras e alterar a formação de margens no médio prazo.
Em síntese, o mercado ainda precifica principalmente o risco potencial e não uma ruptura efetiva de fluxos comerciais. O fator determinante para a trajetória futura dos preços será a duração do conflito e a eventual materialização de restrições logísticas no Estreito de Ormuz. Caso as tensões persistam, o impacto mais relevante para o agro brasileiro deverá ocorrer menos via preços imediatos dos grãos e mais por meio do encarecimento da energia, dos fertilizantes e do custo total de produção nas próximas temporadas.
Fonte: Cogo Inteligência em Agronegócio.