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05/Jan/2026

Armazenagem: déficit elevado define preços no Brasil

O crescimento da safra brasileira de grãos, com expectativa de um novo recorde no ciclo 2025/2026, não vem sendo acompanhado na mesma velocidade pela infraestrutura de armazenagem. A estocagem vai além da questão estrutural. A armazenagem não é apenas infraestrutura física; representa tempo de decisão, e tempo é o ativo mais valioso no mercado de grãos. Quando a oferta entra de forma simultânea no sistema, quem não consegue esperar acaba vendendo sob pressão. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a capacidade estática do País está entre 200 milhões de toneladas e 230 milhões de toneladas, o que permite guardar 2/3 da produção anual. Esse descompasso acaba influenciando diretamente a dinâmica do mercado físico e a formação de preços. Apesar de os números agregados sugerirem relativa suficiência, a realidade operacional é distinta. A produção brasileira se concentra em janelas curtas, especialmente entre março e junho, quando a colheita da soja se sobrepõe ao avanço do milho.

Nesse período, armazéns já ocupados, gargalos logísticos e limitações operacionais reduzem drasticamente a capacidade efetivamente disponível. O déficit de armazenagem se manifesta como incapacidade funcional de absorver volumes no momento crítico. É nesse intervalo que o mercado físico ajusta preços de forma mais agressiva. Esse efeito é ainda mais intenso em regiões altamente produtivas, onde a relação entre capacidade de armazenagem e produção pode cair para 60% ou menos no pico da colheita. Como 83% da armazenagem brasileira está fora das propriedades rurais - concentrada em cooperativas, tradings e grandes operadores - forma-se uma assimetria estrutural de poder na cadeia. Enquanto a Bolsa de Chicago (CBOT) reflete expectativas globais, política monetária e fluxo financeiro, é o diferencial de base, também conhecido como “basis” que traduz a realidade local do mercado físico brasileiro. O volume disponível, logística, necessidade de caixa e capacidade de armazenagem se materializam diretamente no diferencial de preços. No Brasil, é o basis que revela onde o mercado realmente acontece.

Em momentos de excesso de oferta, a deterioração da base funciona como um mecanismo de ajuste, forçando a saída de volume. Durante o pico da colheita, essa deterioração pode facilmente superar R$ 15 a R$ 25 por saca, enquanto o custo médio de armazenagem gira entre R$ 2,50 e R$ 4,00 por saca ao mês. A diferença evidencia que a venda forçada transfere margem ao longo da cadeia, penalizando o produtor que não possui estrutura própria. Armazenagem não cria preço, mas define quem consegue esperar. Com juros elevados e maior seletividade no crédito, a capacidade de armazenagem ganha também uma dimensão financeira. Ao reduzir a necessidade de vendas imediatas para geração de caixa, o produtor passa a ter mais flexibilidade para planejar a comercialização ao longo do ano, combinando vendas físicas, travas financeiras e operações de hedge. A armazenagem permite diluir decisões no tempo e reduzir a dependência de escolhas feitas sob pressão. Ela não elimina os riscos do mercado, mas reduz sua intensidade e torna o resultado menos sensível a choques pontuais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.