29/May/2025
Depois de dois anos e meio nos Estados Unidos liderando a área de pesquisa e desenvolvimento da John Deere, Cristiano Correia voltou ao Brasil com uma certeza: o agronegócio nacional tem uma capacidade única de se reinventar e, em muitos aspectos, já superou o modelo norte-americano. “O agro brasileiro está onde está por causa da ciência”, disse o executivo, que assumiu a vice-presidência da empresa no país no fim do ano passado. Correia fala com a propriedade de quem está na John Deere desde 2001 e passou pelas áreas de produção e marketing antes de embarcar aos Estados Unidos. Por lá, participou das definições de investimento e analisou as tendências para o crescimento da empresa no longo prazo. “Se pensarmos no papel da Embrapa e no investimento do setor privado nas últimas décadas, é fácil entender por que avançamos tanto, ganhamos produtividade e assumimos papel relevante no cenário internacional. Em algumas áreas, os Estados Unidos estão atrás de nós.” Com essa visão, Correia acredita que a chave para o crescimento da John Deere no Brasil continua sendo a aposta em tecnologia.
Mas ele reconhece que, para que essa tecnologia se realize plenamente no campo, ainda há obstáculos, e o maior deles é a conectividade. Enquanto nos Estados Unidos o 5G cobre praticamente todas as áreas agrícolas, aqui o acesso à internet em regiões rurais é um desafio. Para enfrentar esse gargalo, a companhia vem investindo em parcerias com empresas como a Sol/Claro, que já conectou 3 milhões de hectares no País, além de desenvolver soluções via satélite. A lógica é direta: quanto mais propriedades conectadas, maior o potencial de adoção de máquinas inteligentes e mais dados disponíveis para transformar as operações. Hoje, a John Deere tem 780 mil máquinas conectadas no mundo, ainda uma pequena fatia de todos os equipamentos vendidos. Mas o plano é ambicioso: atingir 1,5 milhão de unidades até 2026. A automação é outro campo promissor. A empresa já opera tratores e colheitadeiras autônomos nos Estados Unidos, capazes de realizar tarefas sem operador. No Brasil, a tecnologia está pronta, mas enfrenta barreiras regulatórias, além da própria falta de conectividade.
“É difícil atrair gente para trabalhar na fazenda. Essa é uma dor global. Quando essas barreiras caírem, o salto será grande”, afirma Correia. A sustentabilidade também está no radar da companhia. Embora outras regiões do mundo estejam apostando na eletrificação, o executivo vê no etanol a melhor solução para o Brasil. “É o combustível renovável mais viável para começarmos. Já temos a infraestrutura, a produção e o hábito de uso”, diz. Apesar dos avanços em inovação, o setor ainda convive com entraves estruturais. Um dos maiores, segundo Correia, está fora das fazendas: a logística. A estimativa é de que falhas na infraestrutura e na armazenagem causem perdas de até US$ 150 bilhões por ano no País. “Queremos atuar onde essas perdas acontecem: no plantio, no manejo, na colheita, na gestão de dados”. O Brasil, que historicamente foi visto como mercado consumidor, tem ganhado cada vez mais protagonismo dentro da multinacional. Um exemplo é a inauguração, em Indaiatuba (SP), do primeiro centro global de pesquisa e desenvolvimento da John Deere voltado à agricultura tropical. O projeto demandou um investimento de R$ 180 milhões.
No curto prazo, porém, o cenário é de atenção. A taxa de juros segue como um entrave para o financiamento do produtor, e o Plano Safra, embora importante, não chega com a mesma força a todos os segmentos. “Juros altos inviabilizam muitas operações sem subsídios, especialmente para os pequenos e médios produtores.” Em meio a esse ambiente de cautela, a Deere & Co (sede mundial) anunciou um lucro líquido de US$ 1,8 bilhão no segundo trimestre fiscal de 2025, encerrado em abril, queda de 24% em relação ao mesmo período do ano passado. A receita líquida trimestral recuou 16%, a US$ 12,76 bilhões. Para 2025, a expectativa no Brasil se mantém a mesma anunciada pelo vice-presidente de vendas e marketing da John Deere, Antonio Carrere, durante a Agrishow, de estabilidade. “Este ano deve ficar flat ou com uma alta de até 5%. Grãos seguem sendo o carro-chefe, mas culturas como café, cacau, citros e cana-de-açúcar vêm mostrando desempenho positivo.” No mundo, a empresa projeta um lucro anual entre US$ 4,75 bilhões e US$ 5,5 bilhões, abaixo dos US$ 7,1 bilhões de 2024. Fonte: Globo Rural.