05/Oct/2026
A safra mundial de cacau 2026/27 começou em 1º de outubro, conforme o calendário da Organização Internacional do Cacau (ICCO), em um cenário de elevada preocupação com o abastecimento global. Após a recuperação parcial da oferta observada no ciclo 2025/26, a nova temporada dos principais países produtores começa com margem de segurança reduzida. A StoneX projeta superávit mundial de apenas 25 mil toneladas em 2026/27, ante 149 mil toneladas estimadas anteriormente e muito abaixo do excedente de 422 mil toneladas projetado para a safra encerrada em setembro. A oferta global permanece estruturalmente dependente da produção africana, principalmente da África Ocidental. Na Costa do Marfim, maior produtor mundial, a estimativa da StoneX para 2026/27 foi reduzida de 1,83 milhão de toneladas para 1,775 milhão de toneladas, queda de aproximadamente 11% ante o ciclo anterior. Em Gana, segundo maior produtor global, a projeção caiu de 598 mil toneladas para 585 mil toneladas, mantendo a trajetória de redução da capacidade produtiva do país, que historicamente já chegou a superar 1 milhão de toneladas.
A revisão das estimativas para a África Ocidental está associada ao aumento da probabilidade de ocorrência de um El Niño forte, às chuvas excessivas em parte do período de desenvolvimento das lavouras e aos relatos de contagem de vagens abaixo do esperado em importantes regiões produtoras. Nesse contexto, a pequena margem de superávit projetada para o mercado mundial pode ser eliminada caso ocorram novas perdas produtivas na região, uma deterioração climática mais intensa do que a prevista ou impactos sobre outros produtores relevantes, especialmente Equador e Indonésia. Na Costa do Marfim, o risco climático é reforçado pelas condições recentes de precipitação. Levantamento da Reuters com produtores apontou chuvas abaixo da média em setembro nas principais regiões produtoras, incluindo Soubré e Daloa, provocando queda prematura de pequenas amêndoas e aumentando as preocupações com a possibilidade de encerramento antecipado da safra principal.
No mercado interno, a decisão do governo de fixar o preço mínimo ao produtor em 1.200 francos CFA, equivalente a US$ 2,08 por quilo e no mesmo nível estabelecido para a safra intermediária de março, provocou insatisfação entre agricultores e levou produtores a reter parte da produção em protesto. Em Gana, o governo elevou o preço oficial do cacau para 42.400 cedis ganeses por tonelada, aproximadamente US$ 3.686, com o objetivo de reduzir o contrabando nas fronteiras e atender às metas do recém-aprovado Ghana Cocoa Board Act. O setor, porém, enfrenta restrições de liquidez. O Conselho do Cacau do Gana (COCOBOD) reconheceu a existência de pagamentos pendentes a empresas compradoras licenciadas, enquanto a Chamber of Cocoa Marketers Ghana estima os débitos em cerca de 4 bilhões de cedis ganeses. Para financiar a aquisição da safra 2026/27 e reestruturar dívidas, o COCOBOD anunciou em 25 de setembro um programa de 16,3 bilhões de cedis ganeses em Cocoa Notes.
A combinação entre menor oferta na África Ocidental e a consolidação do El Niño aumenta a sensibilidade do balanço mundial a novas perdas de produção. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima probabilidade próxima de 100% de persistência do fenômeno até o início de 2027. Caso o El Niño afete simultaneamente o potencial produtivo da América Latina e da África Ocidental, o impacto sobre a oferta global poderá ser significativamente maior do que o provocado por perdas isoladas em uma única região. Diante das dificuldades dos principais produtores africanos, a capacidade de expansão das origens secundárias ganha importância. O Equador é o principal destaque fora da África, com produção que aumentou de 342 mil toneladas na safra 2019/20 para cerca de 568 mil toneladas em 2024/25. Para 2026/27, a StoneX projeta volume próximo de 600 mil toneladas, colocando o país em condições de disputar com Gana a segunda posição entre os maiores produtores mundiais.
Nigéria, Camarões e Indonésia também buscam recompor a produção, mas enfrentam limitações para compensar, no curto prazo, uma eventual quebra significativa na Costa do Marfim. Na Indonésia, a ilha de Sulawesi enfrenta uma seca severa. A expansão da oferta fora da África Ocidental poderá compensar parte de uma eventual redução regional, mas não seria suficiente para neutralizar integralmente uma quebra expressiva no principal polo produtor. Nesse cenário, o Equador permanece como a principal origem alternativa para ampliar a disponibilidade internacional. Além das condições de oferta, o comportamento dos preços nas bolsas de Nova York, na ICE US, e de Londres, na ICE Europe, dependerá da evolução da demanda industrial. O choque de preços observado entre 2024 e 2025 levou a indústria de confeitaria a promover ajustes de gramatura e substituições de receitas. A moagem mundial apresenta sinais de recuperação gradual, mas ainda permanece abaixo dos níveis registrados antes da crise.
A demanda continua sendo um componente relevante para a formação dos preços futuros. As cotações do cacau chegaram a recuar para abaixo de US$ 4.000 por tonelada em janeiro, em meio ao enfraquecimento do consumo como principal fator de pressão. A recomposição dos estoques mundiais, entretanto, foi limitada. Para 2026/27, a relação entre preços, custos de produção e consumo será determinante, uma vez que níveis mais elevados precisam remunerar os produtores diante da inflação de insumos sem provocar nova retração da demanda no varejo mundial. A nova safra, portanto, começa com uma margem de segurança global estreita. Com a demanda em recuperação lenta e cautelosa após os recordes de preços registrados nos últimos anos, a trajetória das cotações internacionais dependerá principalmente do ritmo de entrega da produção africana, das condições climáticas nas principais origens e da capacidade da cadeia de absorver eventuais perdas de oferta sem provocar novos ajustes significativos no consumo. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.