16/Sep/2026
O mercado brasileiro de laranja entrou em uma fase de ajuste após a forte valorização observada nos últimos anos, com a recomposição dos estoques, a desaceleração do consumo internacional e a perspectiva de aumento da produção em 2026/27 pressionando as cotações. Em 12 meses até 3 de agosto, o preço da laranja destinada à indústria recuou cerca de 30%, para R$ 30,57 por caixa de 40,8 Kg, enquanto o suco de laranja negociado na Bolsa de Nova York perdeu aproximadamente 40%, para cerca de US$ 154,95 por libra-peso. O cenário aumenta a seletividade econômica da atividade e tende a favorecer produtores com maior escala, irrigação, sanidade, tecnologia e eficiência operacional. A pressão sobre os preços ocorre mesmo com a expectativa de que a produção brasileira de laranja em 2026/27 permaneça abaixo do ciclo anterior. A primeira reestimativa do Fundecitrus, divulgada em setembro, indica produção de 263,15 milhões de caixas de 40,8 Kg no cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo/Sudoeste Mineiro, alta de 3,1% ante a projeção anterior, mas 10,8% inferior às 295 milhões de caixas produzidas em 2025/26.
A revisão positiva decorreu principalmente do maior peso dos frutos, favorecido pelo volume de chuvas registrado durante o desenvolvimento da safra. A produção projetada ainda permanece abaixo do nível considerado mais confortável para recomposição dos estoques e atendimento da indústria. O Itaú BBA trabalhava, em agosto, com uma estimativa de 255 milhões de caixas de 40,8 Kg e avaliava que um volume próximo de 300 milhões de caixas seria mais adequado para reequilibrar a oferta. A diferença entre as projeções, contudo, não altera o principal fator de curto prazo para o mercado: uma safra menor em 2026/27 não significa necessariamente escassez de suco, porque a temporada anterior gerou oferta suficiente para recompor os estoques industriais. Na safra 2025/26, a produção de laranja cresceu 27%, enquanto as exportações brasileiras de suco avançaram apenas 3,7%, para 805 mil toneladas em equivalente FCOJ, com receita de US$ 2,54 bilhões.
A expansão da oferta, portanto, superou com ampla margem o crescimento da demanda externa e resultou em aumento dos estoques. Esse colchão de oferta reduz a necessidade de elevação imediata dos preços para garantir matéria-prima à indústria e limita o potencial de recuperação das cotações no curto prazo. Os estoques brasileiros de suco alcançaram 616,46 mil toneladas em dezembro de 2025, alta de 75,4% ante o mesmo período do ano anterior. O aumento reflete a acomodação do consumo nos principais mercados após o período de preços elevados observado na temporada anterior. A recomposição dos estoques representa uma mudança importante em relação ao quadro de escassez que sustentou as cotações em 2024, quando a oferta restrita e uma das menores safras das últimas décadas levaram o suco a níveis historicamente elevados. A retração do consumo é particularmente relevante nos Estados Unidos, principal mercado consumidor e destino de parcela expressiva do suco brasileiro.
Dados da Nielsen mostram que as vendas de suco de laranja nos Estados Unidos totalizaram 274,7 milhões de galões nas 52 semanas encerradas em 11 de julho, queda de 8,3% ante o período anterior. Entre as categorias mais diretamente relacionadas ao suco concentrado, as vendas de suco reconstituído recuaram 12,1% em volume e as de concentrado congelado caíram 15,2%. O NFC apresentou queda menor, de 5,2%. A retração do consumo ocorre mesmo com preços ainda elevados no varejo norte-americano. Em junho, o suco concentrado e congelado era comercializado a US$ 4,87 por lata de 473,2 mililitros, um dos maiores valores nominais da série histórica. O descolamento entre a queda da matéria-prima e a manutenção de preços elevados ao consumidor ajuda a explicar a redução da demanda. Estimativas do setor apontam perda de 30% a 40% no consumo de suco de laranja após o período de preços elevados. Também ocorre uma mudança no perfil do consumo.
O NFC, suco não concentrado, ganhou participação no mercado norte-americano e passou a representar 68,1% do volume vendido, ante 65,8% anteriormente. No Brasil, a mudança também se reflete na composição das exportações. Na safra 2025/26, o NFC respondeu por 43% dos embarques brasileiros em equivalente FCOJ, mais que o dobro da participação registrada uma década antes. A migração para o NFC cria oportunidades de maior valor agregado para a indústria brasileira, mas também aumenta as exigências de qualidade da fruta, processamento, armazenamento e logística. Por ocupar maior espaço durante o transporte e exigir uma cadeia específica de conservação e distribuição, o produto apresenta estrutura operacional distinta do suco concentrado. A evolução dessa categoria tende a ser importante para a estratégia comercial brasileira, especialmente diante da necessidade de recuperar valor em um mercado de demanda mais seletiva.
O comportamento dos principais destinos também é desigual. Os Estados Unidos ampliaram em 16% as compras de suco brasileiro na safra 2025/26, para 360 mil toneladas em equivalente FCOJ, respondendo por 45% dos embarques brasileiros. A União Europeia reduziu as compras em 5,8%, para 369 mil toneladas, mas permaneceu como principal destino individualizado, com 46% das exportações. A combinação de aumento das compras norte-americanas e retração europeia mantém elevada a importância dos Estados Unidos para o equilíbrio da cadeia brasileira. A produção norte-americana continua estruturalmente comprometida, especialmente na Flórida, onde o greening, os furacões e a redução da área cultivada mantêm a oferta em níveis historicamente baixos. Essa condição preserva a necessidade estrutural de importação de suco brasileiro. Entretanto, a dependência da importação não garante crescimento contínuo da demanda, porque o preço elevado no varejo reduz a disposição do consumidor norte-americano a comprar o produto.
O mercado passa, assim, a enfrentar uma combinação de necessidade de abastecimento e maior resistência do consumidor aos preços. No campo, o principal desafio é a combinação entre preços menores e custos ainda elevados. O greening permanece como o fator estrutural de maior impacto sobre a citricultura, exigindo manejo mais intensivo, maior frequência de aplicações e renovação de pomares. Segundo o Itaú BBA, 49,6 milhões de caixas de 40,8 Kg deixaram de ser colhidas na safra 2025/26 em consequência da doença. Considerando um preço médio de referência de R$ 37,00 por caixa de 40,8 Kg, o impacto potencial sobre a receita bruta do campo alcançou aproximadamente R$ 1,8 bilhão. A incidência do greening atingiu 47,6% do cinturão citrícola em 2025/26, conforme o Fundecitrus. O avanço da doença também está estimulando a expansão da citricultura para fora das regiões tradicionais. Aproximadamente metade das mudas produzidas em São Paulo já é destinada a municípios fora do cinturão citrícola, principalmente em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás.
A mudança geográfica, contudo, não elimina o risco sanitário e exige investimentos permanentes em controle, irrigação e manejo. Além do greening, o clima representa um segundo vetor de incerteza para a oferta de 2026/27. A expectativa de uma safra naturalmente maior, favorecida pela bienalidade positiva, pode ser parcialmente afetada pelo El Niño forte ou muito forte. A maior irregularidade climática, combinada com temperaturas elevadas por períodos prolongados, aumenta os riscos durante a fase de florada, entre setembro e novembro, podendo comprometer o potencial produtivo antes mesmo do desenvolvimento dos frutos. O cenário, portanto, combina uma oferta potencialmente maior em 2026/27 com estoques industriais mais confortáveis, demanda internacional menos aquecida e preços em forte correção. Ao mesmo tempo, a produção permanece exposta ao greening e ao risco climático, enquanto os custos de manejo seguem elevados.
A tendência é de maior diferenciação entre produtores, com os pomares de maior escala, irrigação, controle sanitário, tecnologia e eficiência operacional apresentando maior capacidade de atravessar um ciclo de preços menos remuneradores. A recuperação das cotações dependerá principalmente da capacidade de redução dos estoques, da retomada do consumo internacional e do comportamento da produção nas próximas safras. No curto prazo, a recomposição da oferta acumulada limita a reação dos preços, mesmo com a produção de 2026/27 abaixo do ciclo anterior. No médio prazo, porém, a persistência do greening, a menor disponibilidade estrutural de laranja nos Estados Unidos e eventuais perdas climáticas podem restringir novamente a oferta e criar condições para uma recuperação gradual do mercado. A principal mudança em relação ao ciclo anterior é que a escassez deixou de ser o fator dominante e deu lugar a uma fase de ajuste entre oferta, estoques e demanda. Fonte: CNN Brasil. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.