16/Sep/2026
O cultivo de cacau a pleno sol com irrigação começa a ampliar o potencial produtivo da cultura em novas fronteiras agrícolas do Brasil, especialmente em áreas da Região Nordeste. Sistemas que combinam irrigação, genética, manejo e adaptação às condições locais já trabalham com metas de 3.000 a 4.500 quilos de amêndoas por hectare, volume que pode chegar a até 10 vezes os rendimentos tradicionalmente observados em sistemas mais antigos. A expansão ocorre principalmente em áreas de Cerrado, semiárido e litoral, em um modelo distinto da cabruca predominante no sul da Bahia, onde o cacaueiro é cultivado sob a vegetação da Mata Atlântica. Nas novas fronteiras, o plantio ocorre a pleno sol, com proteção das plantas nos primeiros anos de desenvolvimento. No litoral do Ceará, em Acaraú, o produtor Altamir Martins implantou 13 hectares de cacau consorciado com um coqueiral de aproximadamente 30 anos. A área reúne cerca de 15 mil plantas e seis materiais genéticos em avaliação. A primeira colheita ocorreu em 2025, com expectativa de alcançar 1.500 quilos de amêndoas por hectare em 2026 e 3.000 quilos por hectare em 2027.
O potencial produtivo aumenta à medida que as plantas se desenvolvem e ampliam a estrutura vegetativa. A experiência mostra que a expansão do cacau para regiões fora dos polos tradicionais depende de adaptação tecnológica às condições locais. Martins, engenheiro agrônomo com quatro décadas de experiência em fruticultura, acumulou conhecimento em manga, uva e coco antes de iniciar o investimento no cacau, em 2021. A implantação começou em 2022, mas encontrou dificuldades relacionadas à disponibilidade de mudas adaptadas ao ambiente. Plantas provenientes de Rondônia e da Bahia apresentaram problemas após o transporte, provocando perdas e levando à criação de um viveiro próprio. A estratégia passou a incluir seleção de materiais genéticos e desenvolvimento de substratos adaptados ao solo e às condições específicas do litoral cearense. A busca é por mudas mais resistentes para reduzir perdas no estabelecimento do cultivo e aumentar a capacidade de adaptação das plantas ao ambiente de produção.
A irrigação é outro componente central do novo sistema produtivo. O cacau apresenta elevada demanda hídrica e sensibilidade a estresses ambientais. Em regiões semiáridas e de Cerrado, a relação entre precipitação e evaporação pode gerar períodos prolongados de déficit hídrico, tornando a irrigação não apenas um mecanismo de segurança, mas parte da viabilidade econômica da atividade. O cultivo a pleno sol, entretanto, exige manejo adicional para proteção contra ventos e excesso de radiação, principalmente durante os primeiros anos. Banana, coco, mamão, macaxeira e outras culturas podem cumprir a função de proteção e sombreamento inicial. Com o desenvolvimento dos cacaueiros, esse sombreamento temporário pode ser reduzido ou retirado. A menor umidade relativa do ar em algumas das novas fronteiras também pode reduzir a pressão de doenças associadas a ambientes úmidos. Vassoura-de-bruxa, podridões causadas por Phytophthora e monilíase estão entre os principais problemas fitossanitários da cultura.
A migração para ambientes mais secos pode diminuir a incidência de determinados fungos, embora não elimine os riscos. O clima mais seco, por outro lado, pode provocar outros problemas. Temperaturas elevadas e baixa umidade podem favorecer a viviparidade, fenômeno em que a semente começa a germinar dentro do próprio fruto, comprometendo a qualidade das amêndoas e podendo inviabilizar o processamento. A expansão do cacau para regiões de menor umidade, portanto, exige pesquisa e desenvolvimento de sistemas de manejo específicos. A genética também é determinante para a consolidação das novas áreas. Entre os materiais utilizados estão o CCN 51, desenvolvido no Equador, e o PS 1319, originário de uma fazenda do sul da Bahia. A concentração de grandes áreas em poucos materiais, contudo, aumenta o risco de disseminação de doenças caso um novo problema fitossanitário seja capaz de afetar determinado clone. A seleção genética precisa considerar não apenas produtividade, mas também qualidade das amêndoas e adaptação ao ambiente.
No oeste da Bahia, o modelo já apresenta potencial de escala empresarial. Informações da Secretaria de Agricultura da Bahia (Seagri) indicam que fazendas da região alcançam entre 3.000 e 3.500 quilos por hectare, enquanto a média nacional citada pelo órgão fica entre 330 e 400 quilos por hectare. Na região de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, há propriedade com 500 hectares totalmente irrigados e utilização de pivô central, tecnologia tradicionalmente associada à agricultura empresarial do Cerrado. A escala dos novos investimentos contrasta com a estrutura histórica da cacauicultura brasileira. No sul da Bahia, o produtor médio possui cerca de 10 hectares, enquanto no Pará as propriedades podem apresentar dimensões ainda menores. A entrada de investidores interessados em áreas de milhares de hectares indica uma possibilidade de mudança estrutural na organização produtiva da cultura. No Piauí, a estratégia busca combinar a tecnologia do cultivo irrigado a pleno sol com a agricultura familiar. Projeto da Coopercau Piauí prevê 10 mil hectares em cinco anos, com integração do cacau às culturas tradicionalmente cultivadas pelos agricultores.
Feijão, milho, abóbora, melancia e macaxeira podem permanecer no sistema produtivo, evitando a substituição completa das atividades já conhecidas pelos produtores. A cooperativa também busca gerar escala comercial a partir da organização de pequenos produtores. A Coopercau Piauí reúne atualmente 89 associados, com propriedades de meio hectare, 1 hectare, 2 hectares e 3 hectares. A integração entre produção, assistência tecnológica e comercialização pode permitir que áreas individuais reduzidas formem um volume relevante para negociação com compradores. A consolidação da nova fronteira depende também da criação de canais de comercialização e integração com a indústria. No Ceará, a produção de pequenos e médios produtores é reunida para alcançar volumes comercialmente relevantes, enquanto as amêndoas passam por análises destinadas a caracterizar qualidade e atender compradores especializados. No Piauí, a cooperativa mantém negociações com grandes empresas e tradings e avalia contratos de fornecimento antecipado, os chamados contratos off-take, além da comercialização conjunta.
A expansão das novas fronteiras pode contribuir para reduzir a dependência brasileira de importações de cacau. A estratégia é elevar a produção doméstica e ampliar a oferta nacional para atender ao mercado interno, com potencial de recuperação da participação brasileira no mercado internacional. A produtividade, entretanto, não é o único fator de competitividade. O aproveitamento integral do fruto e a agregação de valor podem ampliar a rentabilidade dos sistemas produtivos. Para cada 1.000 quilos de sementes secas, são gerados cerca de 7.000 quilos de casca, o que representa um volume expressivo de resíduos com potencial de utilização econômica. O aproveitamento desses subprodutos pode gerar novas fontes de receita, reduzir desperdícios e ampliar o valor agregado da atividade. O novo modelo de cacau, portanto, combina irrigação, genética, manejo, diversificação de culturas, aproveitamento de resíduos e organização comercial. A expansão para Cerrado, semiárido e litoral não representa apenas aumento da área cultivada, mas a formação de sistemas produtivos mais tecnológicos, diversificados e integrados. Fonte: Movimento Econômico. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.