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25/Aug/2026

Mandioca: fatores determinantes na safra 2026/27

Em mercados agropecuários em que há poucos instrumentos de comercialização, como hedge, contratos, entre outros, a lei da oferta e da demanda é o principal determinante do comportamento dos preços, sobretudo quando as barreiras à entrada também são mínimas. Essas características são prevalentes na cultura da mandioca, em especial no elo “dentro da porteira”. Embora com alguma previsibilidade, os ciclos de preços, ultimamente mais frequentes, apresentam-se como uma característica bastante presente na cadeia produtiva da mandioca. Este comportamento mostra-se como um fator limitante à eficiência produtiva e econômica da atividade, uma vez que minimiza a rentabilidade dentro da porteira e também as margens industriais nas indústrias de fécula e de farinha.

Os últimos movimentos de altas expressivas nos preços da raiz de mandioca foram registrados em 2022, quando as médias nominais atingiram recordes em alguns momentos. Concomitantemente a isso, atividades agropecuárias concorrentes em áreas vinham em direção contrária, com as cotações pressionadas e a rentabilidade prejudicada. Como resultado, houve um avanço nas áreas ocupadas com mandioca e, junto com isso, os custos de produção aumentaram, sobretudo por conta dos arrendamentos e da mão de obra. Esse crescimento na produção, por sua vez, tem pressionado os preços da mandioca para a indústria desde meados de 2023, com poucos momentos de alta, sendo estas reações insuficientes para recuperar as margens na maioria das situações.

E, atualmente, a expectativa é de diminuição na área plantada com a raiz e de possibilidade de queda na produtividade agrícola. Como resultado da rentabilidade comprometida das últimas temporadas, o endividamento tem aumentado na mandiocultura, limitando o acesso ao crédito para custeio, devido à exigência de garantias reais por parte das instituições financeiras. Produtores arrendatários são os mais prejudicados. Segundo dados do Banco Central do Brasil (Bacen), este ano, houve queda de 64% no volume de recursos destinados à mandioca no Brasil, contexto que afeta 80% dos estados. A menor disponibilidade de recursos tende a comprometer os investimentos na atividade, com efeitos principalmente sobre a produtividade.

Nesse mesmo sentido, também se observa menor oferta de áreas disponíveis para a mandioca, especialmente em um cenário de valorizações ou expectativas altistas para atividades concorrentes, como pecuária, grãos e até reflorestamento em algumas regiões, inclusive no Paraná. Ainda do lado da oferta, o clima deve assumir importância até meados do ano que vem, por conta da influência do El Niño, com diferentes efeitos sobre as regiões produtoras do Norte e do Nordeste (falta de umidade) e do Centro-Sul (chuvas em excesso). O clima adverso também deve ter efeitos sobre a fitossanidade das lavouras, podendo intensificar a ocorrência e a severidade da bacteriose, sobretudo em períodos de alta umidade.

Além disso, nos principais Estados produtores do Centro-Sul, que concentram mais de 35% da produção nacional, a doença do couro de sapo (Cassava Frog Skin Disease) já tem sido relatada em muitas lavouras. Segundo informações da Embrapa, as perdas de produtividade agrícola são expressivas, causando danos irreversíveis. E a menor oferta poderá ocorrer justamente em um cenário de demanda crescente por derivados, em especial pela fécula e pelos amidos modificados. Nos últimos anos, além de novas unidades, muitas empresas têm ampliado a capacidade instalada e diversificado os produtos, visando atender aos mercados consumidores mais exigentes em qualidade e segurança alimentar. Para os amiláceos e farináceos, novos mercados têm surgido para além dos alimentícios. Recentemente, o segmento de pet care tem absorvido quantidades maiores de fécula e farinha para suprir a demanda dos grandes centros urbanos.

Ao que tudo indica, há um mercado em potencial ainda para ser explorado nos próximos anos. Com oferta mais restrita de amidos no mercado mundial, tem havido um sutil deslocamento da demanda para o Brasil, que neste ano deve registrar volumes recordes de exportação. Segundo dados da Secex, de janeiro a julho de 2026, a quantidade de fécula exportada pelo Brasil já superou em 78% a do período equivalente do ano passado. No caso dos amidos modificados, o crescimento é de 47%. Embora haja sinalizações de mercado, estratégias de médio e longo prazos são necessárias para mitigar riscos tão presentes na cadeia produtiva da mandioca, o que poderia assegurar a sustentabilidade dos negócios e a competitividade dos derivados em mercados cada vez mais dinâmicos. Fonte: Fábio Isaias Felipe. Cepea.