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20/May/2026

Cacau: El Niño e oferta restrita sustentam preços

O mercado global de cacau atravessa uma fase de transição entre um ciclo de crise aguda de oferta e um período de estabilização ainda instável, com nova pressão associada ao risco climático. Após os preços recordes registrados entre 2024 e o início de 2025, quando os contratos futuros na ICE Futures US ultrapassaram US$ 12 mil por tonelada, o setor opera em patamares inferiores, porém ainda elevados frente à média histórica da última década. As cotações, que chegaram a recuar para níveis próximos de US$ 3 mil por tonelada diante da expectativa de superávits globais, voltaram a se firmar em torno de US$ 5 mil por tonelada. O movimento está associado à reavaliação do balanço global de oferta e demanda, influenciado por condições climáticas adversas e revisões produtivas em países-chave da África Ocidental.

A produção concentrada em Gana e na Costa do Marfim, responsáveis por cerca de 60% da oferta mundial, permanece no centro das atenções. A perspectiva de um El Niño mais intenso no segundo semestre amplia o risco de redução de produtividade na região, especialmente pelo impacto sobre o fenômeno de ventos secos e quentes oriundos do Saara, que afetam áreas tradicionalmente úmidas de cultivo. Nesse contexto, estimativas de mercado indicam revisão do superávit global projetado para 2026/27, com redução de 247 mil toneladas para 149 mil toneladas. O ajuste reflete a maior percepção de risco climático e de restrição de oferta no curto prazo. A fragilidade do sistema produtivo na África Ocidental não se limita ao clima. O modelo de comercialização estatal enfrenta pressão financeira, com redução de preços pagos aos produtores e deterioração das condições de renda.

Na Costa do Marfim, o preço ao produtor foi reduzido em 57%, para 1.200 francos CFA por quilo. Em Gana, a estrutura estatal Cocobod enfrenta endividamento estimado em cerca de US$ 600 milhões, com atrasos no pagamento de amêndoas entregues desde o fim de 2025. Esse cenário tem levado à redução de investimentos em lavouras e à migração de parte dos produtores para atividades de mineração ilegal de ouro. Além das fragilidades estruturais, novas exigências regulatórias adicionam pressão ao mercado. A implementação do Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR), prevista para o fim de 2026, estabelece rastreabilidade completa da cadeia, elevando custos de conformidade, especialmente para pequenos produtores africanos.

Em contrapartida, países como Brasil e Equador ampliam participação relativa, apoiados por maior capacidade de adequação regulatória e avanço tecnológico. No Brasil, a produção de cacau no primeiro trimestre de 2026 registrou crescimento de 61% em relação ao mesmo período de 2025, sustentada por iniciativas de expansão produtiva e pelo Plano Inova Cacau 2030, com foco em aumento de produtividade e qualificação da cadeia. Do lado da demanda, o equilíbrio global também é afetado por retração do consumo industrial. A indústria de chocolate intensificou o uso de substitutos de manteiga de cacau, como resposta ao elevado custo da matéria-prima, contribuindo para redução do processamento global. No Brasil, a moagem recuou cerca de 15%, refletindo o enfraquecimento da demanda industrial.

As condições atuais indicam um nível de preço de equilíbrio estimado entre 3 mil e 4 mil dólares por tonelada, faixa considerada necessária para retomada mais consistente da demanda. No entanto, o risco climático mantém elevada volatilidade e impede normalização mais rápida das cotações. Como resposta ao ambiente de maior complexidade, o setor avança em estratégias de diversificação de receitas, incluindo monetização de serviços ambientais e participação no mercado voluntário de carbono por meio de sistemas agroflorestais. Plataformas de crédito de carbono permitem incremento de até 20% na renda de pequenos produtores.

Em Gana, há ainda a proposta de emissão de títulos vinculados ao setor cacaueiro, com potencial de captação de 1 bilhão de dólares para recomposição de liquidez e estabilização financeira antes da safra 2026/27. No Brasil, a estratégia do setor está direcionada à verticalização da cadeia e à ampliação da produção de cacau fino de aroma, com meta de que 70% da produção nacional atinja padrão superior até 2030, permitindo prêmios de até 30% sobre as cotações de referência. O conjunto de fatores climáticos, estruturais e regulatórios reforça a perspectiva de manutenção de um “novo normal” de preços mais elevados no mercado global de cacau, com maior necessidade de adaptação produtiva e financeira ao longo dos próximos ciclos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.