27/Mar/2026
Para celebrar o Dia do Cacau, neste 26 de março, o Portal VIVA destaca a força de mulheres 50+ que ganham espaço no setor no Pará e na Bahia, com produção sustentável e criação de marcas próprias de chocolate. As produtoras e gestoras ampliam a atuação na cadeia cacaueira, que reúne cerca de 75 mil produtores no País, segundo o Ministério da Agricultura. O Brasil é um dos maiores produtores de cacau no mundo, com mais de 200 mil toneladas de amêndoas por ano. Aproximadamente 60% da produção vem da agricultura familiar, o que abre espaço para negócios liderados por mulheres em diferentes regiões, embora o setor ainda seja predominantemente masculino. De acordo com os dados do Ministério, o Pará e a Bahia concentram cerca de 96% da produção nacional de cacau. Nos dois Estados, produtores investem em manejo sustentável e agregação de valor. Esse movimento acompanha o crescimento do consumo interno, já que o Brasil é o sétimo maior produtor e o quinto maior consumidor de chocolate do mundo. Conheça algumas dessas produtoras, nos depoimentos a seguir:
- Ana Paranhos (52 anos) cresceu cercada pelo cacau, mas decidiu mudar o rumo da própria história ao ser a primeira em quatro gerações da família a adotar a agricultura orgânica. Gestora da Fazenda Cruzeiro do Sul, em Uruçuca (BA), ela conta que há mais de 20 anos aboliu o uso de insumos químicos e passou a investir em um modelo baseado no sistema cabruca, preservando o bioma e mantendo condições favoráveis para o desenvolvimento do fruto. Ana diz que a mudança veio acompanhada de um olhar mais atento à qualidade do produto. “Cada vez mais marcas estão apostando nessa qualidade especial, sem perder a nossa originalidade, que é esse cacau com sabor mais intenso, com amargor, acidez e terroir”, afirma. Na Bahia, são mais de 400 mil hectares cultivados e cerca de 41 mil produtores, com predominância no sul do Estado. O sistema cabruca representa cerca de 60% da área plantada e é um dos diferenciais da produção local. Foi a partir dessa valorização que Ana deu um passo além e criou sua própria marca, a Chocolates Cruzeiro do Sul. Hoje, ela acompanha todo o processo, do cultivo à produção final, apostando em um chocolate com menos ingredientes e mais identidade. “Quando você pega um chocolate de verdade ele tem três ingredientes: cacau, açúcar e manteiga de cacau. Já os da indústria têm mais de 15, e muitos você nem sabe o que são. É ‘sabor’ chocolate”, compara. Ela observa uma mudança gradual no perfil do consumidor. "As pessoas estão percebendo essa questão da importância de se conscientizar sobre o que se consome. O alimento que você ingere vai refletir na sua saúde do dia a dia. O cacau é longevidade". Segundo ela, o diferencial começa na matéria-prima e o cacau baiano carrega características únicas. “O cacau da Bahia tem um sabor mais cítrico, com notas de laranja, tangerina, manga, banana. Ao mesmo tempo, tem o amendoado, o amanteigado e um floral”. Apesar do reconhecimento crescente, Paranhos destaca os desafios econômicos enfrentados pelos produtores devido ao custo da matéria prima. “Hoje a gente vive uma questão complicada, que é o preço. O cacau sofreu uma queda brusca depois de uma alta muito grande no ano passado”, diz. “Quando o combustível sobe, tudo sobe. Então 2026 é um ano bastante desafiador.” No Brasil, o preço pago ao produtor recuou com força, enquanto o valor do chocolate ao consumidor ainda permanece elevado. Em março de 2026, os preços médios giravam em torno de R$ 170,00 por arroba (15 Kg) na Bahia, R$ 680,00 por saca de 60 Kg no Espírito Santo e cerca de R$ 10,00 por Kg no Pará. Depois de um período de recordes, o cacau passou por uma correção acentuada, influenciada pelo aumento da oferta global e redução da demanda. No mercado internacional, em março de 2026, a commodity era negociada próxima de US$ 3 mil por tonelada, contra US$ 5 mil por tonelada em 2025 na média, tendo atingido o pico de US$ 12 mil por tonelada em 2024. O preço do chocolate em barra e bombom acumula alta de 24,77% em 12 meses até janeiro, acima do dado geral da inflação medida pelo IPCA, de 4,44% no mesmo período.
- Verônica Preuss está à frente da marca Kakao Blumenn, produção artesanal de chocolate na Amazônia, instalada em Brasil Novo, no Pará. Ela lidera uma fábrica que produz cerca de 200 quilos de chocolate por mês, apostando na qualidade da matéria-prima regional. A gente trabalha com cacau desde 2009 e com chocolate desde 2019. A gente fez uma verticalização da produção com chocolate, porque agregou valor à nossa amêndoa”, afirma. A produtora diz que um dos diferenciais do cacau produzido na região da Transamazônica está diretamente ligado ao solo. “A nossa região aqui tem uma terra vulcânica, com propriedades que fazem com que o nosso cacau tenha um terroir, um sabor diferenciado. É diferente da Bahia e de outras regiões”, conta. Verônica Preuss afirma que o modelo de produção da fazenda também segue princípios sustentáveis. “A nossa produção é toda feita no sistema florestal, em que a gente busca que tudo seja economicamente viável e socialmente justo.” No Pará, há cerca de 205 mil hectares de cacaueiros plantados, com produção concentrada em regiões como a Transamazônica. A produtividade média chega a 960 kg por hectare. Essa questão sustentável é também notada pelo consumidor, que cada vez está mais atento à qualidade do chocolate. “O consumidor hoje está mais consciente. Ele quer um produto de qualidade, não quer comer qualquer coisa. Ele quer algo que realmente vale a pena”, afirma a produtora. Preuss explica que o "chocolate paraense é diferenciado” e está ligado com a experiência de consumo. “A partir do momento que você come, você não quer mais saber de comprar aquele chocolate de supermercado”, diz, embora a marca seja comercializada em redes de varejo e via site próprio.
- Patrícia Viana Lima (57 anos), em Barro Preto, no sul da Bahia, a trajetória da Fazenda São José reúne tradição familiar e aposta na produção de cacau orgânico e chocolate de origem. Hoje, à frente da marca Modaka Cacau, ela lidera a gestão da fazenda e da fábrica. “Eu morei 40 anos em Salvador, sou engenheira civil de formação. Meus pais estavam precisando muito de ajuda por conta da crise e resolvi vir. Essa fazenda que a gente mora e trabalha vem da linhagem da minha mãe, então já venho de uma linhagem de mulheres", conta. O retorno ocorreu em meio aos impactos da vassoura-de-bruxa, doença que atingiu a cacauicultura baiana a partir dos anos 1990. “Detonou muito a produtividade. Eu convivo com menos de 10% do que os meus pais já tiveram", relata. Diante da queda na produção, a família buscou alternativas para manter a atividade. A saída foi investir na transformação do cacau em produtos com maior valor agregado. “Minha mãe começou a brincar com as amêndoas, um chocolate bem rústico que a gente chamava de cocadinha de cacau.” E anos depois, a iniciativa evoluiu para a criação da marca própria, em 2012. “A gente começa a olhar pra isso justamente para viabilizar a fazenda, agregar valor". Em 2017, Patrícia Viana passou a atuar diretamente na gestão da fazenda. Hoje, a produção é feita dentro da própria propriedade, com foco em qualidade e processamento integral do cacau. “A gente torra, faz nibs, chá de cacau, amêndoas caramelizadas e chocolates”, explica. A Modaka Cacau aposta em produtos sem ingredientes de origem animal e com maior teor de cacau, priorizando o 70%, com uma linha sem glúten e lactose. “Como não trabalho com leite, uso castanhas na massa. Investimos muito nos 70% para ir mudando a cultura de consumo de açúcar”, disse. O sistema produtivo adotado na fazenda, também baseado no modelo cabruca, preserva a vegetação nativa. "Se você olha, parece uma mata, mas é um sistema produtivo. É corredor ecológico, é Mata Atlântica. É floresta em pé. A gente conserva e produz ao mesmo tempo".
Segundo o Ministério da Agricultura, a cadeia produtiva do cacau no Brasil gera quase 300 mil empregos diretos, do campo à indústria. As mulheres ampliam a presença em todas as etapas, do cultivo à comercialização, com foco em sustentabilidade e identidade regional. Ao chegar ao Pará, Verônica Preuss relata ter enfrentado resistência, mas destaca avanços, especialmente no protagonismo feminino. “No começo, quando cheguei aqui, o pessoal olhava meio atravessado. Mas quando você mostra seu potencial, as pessoas passam a te respeitar”, relata. Patrícia Viana concorda. "É um meio muito masculino, sem dúvida é um desafio. Mas a mulher chega com sensibilidade e vai conquistando respeito”. A trajetória de Ana Paranhos também foi marcada por desafios de gênero.
Em um setor historicamente masculino, ela precisou conquistar seu espaço desde cedo. “No início não me levavam muito a sério. Era uma garota jovem cuidando de uma fazenda grande”, conta. Segundo ela, a maturidade traz vantagens. “Você já chega com experiência, sabe o que está falando e o que quer”, diz. Apesar dos avanços na questão de gênero, as produtoras apontam desafios no dia a dia da atividade, especialmente relacionados aos novos trabalhadores. “O maior desafio hoje é a mão de obra. O jovem não está com tanto estímulo para ir ao campo”, afirma Viana. "O cacau envolve várias etapas, como poda, limpeza, colheita e quebra. É um trabalho que pode ser feito por pessoas de diferentes idades, mas depende de quem tenha interesse em realizá-lo”, disse Verônica Preuss.
Para além do chocolate, as produtoras explicam que o cacau é extremamente versátil e aproveitado quase por completo: da polpa e do chamado mel de cacau surgem sucos, geleias e até bebidas alcoólicas. As amêndoas dão origem aos nibs, consumidos como superalimento, e a casca pode virar chá aromático. Na indústria, a manteiga de cacau é usada em cosméticos e medicamentos, enquanto resíduos do fruto servem como biofertilizantes ou ração animal. Para outras mulheres 50+ interessadas no setor do cacau, as produtoras destacam a importância da identificação com a atividade. “O cacau é uma paixão. Se sentir essa conexão, vá em frente. Porque os desafios existem, mas a conexão sustenta”, disse Patrícia Viana. Fonte: Broadcast Agro.