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16/Feb/2026

Análise Técnica do Mercado de Feijão no Brasil: Queda de Consumo

1. Tendência Estrutural de Redução do Consumo

O mercado brasileiro de feijão apresenta trajetória consistente de retração do consumo per capita nas últimas décadas. Segundo a Embrapa Arroz e Feijão, o consumo médio aparente de feijão-comum foi de 12,8 kg por habitante em 2023, ante 18,8 kg em 1996, evidenciando redução acumulada superior a 30% no período.

Estimativas atuais do setor apontam consumo em torno de 12 kg per capita ao ano, com redução também na frequência de consumo regular (cinco ou mais dias por semana). Projeções acadêmicas indicam manutenção dessa tendência até 2030, caso não haja mudanças estruturais na estratégia de estímulo à demanda.

Os principais vetores associados à retração incluem:

Mudanças no padrão alimentar urbano;

Redução do tempo disponível para preparo doméstico;

Percepção de baixa praticidade;

Desconhecimento relativo ao valor nutricional;

Substituição parcial por alimentos prontos ou ultraprocessados.

Sob a ótica comportamental, a variável “conveniência” se destaca como principal fator de substituição.

2. Impacto de Medicamentos para Perda de Peso

A disseminação de medicamentos injetáveis para emagrecimento introduz novo elemento na equação de demanda. A redução do apetite e do volume ingerido pode alterar a composição do prato médio do consumidor, favorecendo alimentos de menor volume físico ou maior densidade energética.

Representantes da cadeia produtiva avaliam que essa tendência pode afetar alimentos tradicionalmente consumidos em porções maiores, como feijão e arroz, gerando potencial impacto estrutural na demanda agregada.

3. Reação Institucional da Cadeia Produtiva

Diante do cenário, o Instituto Brasileiro de Feijão e Pulses (Ibrafe) coordenou a criação de um comitê multissetorial envolvendo produtores, indústria, consumidores e instituições de pesquisa.

Os objetivos estratégicos incluem:

Elaborar diagnóstico técnico aprofundado da queda de consumo;

Desenvolver campanhas de valorização nutricional;

Estimular maior oferta de feijão pronto para consumo;

Avaliar políticas públicas de inclusão do produto na cesta básica.

A estratégia central busca reduzir a barreira de preparo e reposicionar o feijão dentro do conceito contemporâneo de alimentação saudável e prática.

4. Dinâmica de Oferta e Pressão Altista de Preços

Apesar da retração de demanda estrutural, o mercado apresenta pressão altista no curto prazo em função de restrições de oferta.

Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea):

Feijão-carioca de melhor qualidade atingiu R$ 297,93 por saca de 60 kg no leste de Goiás (+12,77% no mês);

Feijão-preto no sul do Paraná alcançou R$ 183,23 por saca (+4,43% no mês).

A sustentação dos preços decorre de:

Redução aproximada de 20% na primeira safra de feijão-carioca;

Queda entre 20% e 25% na primeira safra de feijão-preto;

Estoques iniciais baixos;

Problemas climáticos;

Intervalo temporal até a entrada da segunda safra (prevista para maio).

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab):

A área plantada na primeira safra 2025/26 deve atingir 807,6 mil hectares (-11,1%);

A produção estimada é de 983,6 mil toneladas (-7,4%);

O plantio da segunda safra encontra-se em 88,8%, abaixo do ritmo do ano anterior.

5. Síntese Econômica

O setor de feijão enfrenta um cenário de desalinhamento entre demanda estrutural e dinâmica conjuntural de oferta:

Demanda: retração gradual e persistente, associada a mudanças culturais e comportamentais.

Oferta: ajuste produtivo, redução de área e impactos climáticos sustentando preços no curto prazo.

No primeiro semestre, os preços tendem a permanecer acima da média do ano anterior. O comportamento do segundo semestre dependerá do desempenho da terceira safra (irrigada), que será determinante para recomposição de oferta e possível estabilização do mercado.