04/Nov/2026
A combinação de retomada da demanda chinesa, exportações firmes para os Estados Unidos, oferta restrita de animais para abate e valorização recente do dólar colocou o preço do boi gordo no Brasil próximo de R$ 400,00 por arroba, patamar recorde. A alta amplia a pressão sobre os custos da indústria frigorífica e pode chegar ao consumidor, com reflexos sobre o mercado interno de carne bovina. Em São Paulo, principal referência de preços do maior produtor e exportador mundial de carne bovina, o boi gordo está cotado a R$ 390,00 por arroba, com valorização superior a 20% no acumulado de 2026. Cerca de um terço desse avanço ocorreu em outubro. Entre os fatores mais recentes de sustentação estão a expectativa de retomada das compras chinesas entre novembro e dezembro, para aproveitamento da cota tarifária de 2027, e a valorização de 9,15% do dólar frente ao Real na semana anterior, após a reação do mercado ao resultado do segundo turno das eleições. A valorização cambial aumenta a competitividade da carne brasileira no mercado internacional e melhora a atratividade das exportações para os frigoríficos, que recebem em dólares.
Esse movimento amplia a disposição da indústria em disputar bovinos no mercado interno, contribuindo para a elevação da arroba. O câmbio favorável coincide com a expectativa de retorno da China ao mercado brasileiro. O país, maior comprador da carne bovina nacional, havia esgotado sua cota tarifária de 2026 por volta de meados do ano. Para 2027, o volume destinado ao Brasil será de 1,128 milhão de toneladas, com tarifa de 12%. As importações que ultrapassarem esse limite estarão sujeitas a uma alíquota de 55%, o que estimula os frigoríficos a programar embarques dentro do volume beneficiado pela tarifa menor. A expectativa de retomada das compras chinesas já influencia as negociações. Segundo a Datagro, foram registrados negócios com frigoríficos exportadores em patamares de R$ 400,00 por arroba. Também ocorreram negociações nesse nível por empresas voltadas ao mercado interno, tradicionalmente mais aquecido no fim do ano em razão das festas. Para a indústria que abastece o mercado doméstico, entretanto, R$ 400,00 por arroba tende a representar um limite, uma vez que o custo da matéria-prima começa a comprometer a capacidade de consumo.
A demanda sazonal de fim de ano ainda pode oferecer sustentação às cotações, mas o nível de preços já se aproxima de patamares elevados. Também há preocupação com o comportamento do consumo em 2027, diante de possíveis medidas de ajuste fiscal pelo governo. A oferta restrita de bovinos para abate e a demanda externa devem limitar o espaço para recuos mais expressivos da arroba até a virada do ano e, possivelmente, ao longo do primeiro semestre de 2027. A valorização da carne brasileira no mercado internacional, impulsionada pelas compras da China e dos Estados Unidos, também contribui para sustentar os preços do boi. No mercado interno, não há expectativa de mudanças significativas no consumo até o fim de 2026, o que reforça o equilíbrio entre oferta e demanda. A elevação dos preços, contudo, tende a pressionar as margens de diferentes elos da cadeia pecuária em 2027. O consumidor deverá pagar mais pela carne bovina, enquanto os terminadores, responsáveis pela engorda de animais, também enfrentam custos maiores na aquisição de bezerros e bois magros.
O diferencial entre o preço de compra do gado e o valor de venda da carne está entre os menores desde 2023. Para os frigoríficos, a alta da arroba reduz inicialmente as margens de processamento. A expectativa da Agrifatto é de que parte dessa pressão seja compensada posteriormente pela receita das exportações, especialmente com a valorização do dólar e o aumento das compras chinesas e norte-americanas. Os Estados Unidos, segundo principal destino da carne bovina brasileira, permanecem relevantes para a estratégia de embarques, em razão da remuneração oferecida pelo mercado. O cenário indica que a sustentação dos preços do boi gordo dependerá da continuidade da demanda externa e da disponibilidade limitada de animais para abate. Ao mesmo tempo, o avanço da arroba aumenta o desafio de repasse dos custos ao longo da cadeia, com possíveis restrições ao consumo doméstico e margens mais estreitas para frigoríficos e pecuaristas. Fonte: Reuters. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.