01/Oct/2026
A relação entre rebanho, ágio do bezerro e retenção de fêmeas ajuda a antecipar os próximos movimentos da pecuária brasileira. Na pecuária de corte, as fêmeas possuem papel central na dinâmica produtiva, pois podem permanecer no rebanho como matrizes ou ser destinadas ao abate, conforme os incentivos econômicos da atividade. Essa decisão responde aos estímulos do mercado e influencia diretamente a oferta futura de animais. Na bovinocultura de corte, esse efeito é muito mais relevante porque o ciclo produtivo é longo. Entre a retenção de uma fêmea, o nascimento do bezerro e a chegada desse bovino ao abate, passam-se anos. Por isso, decisões de hoje podem repercutir sobre a oferta e os preços por vários anos. Nesse contexto, surge o ciclo pecuário. Em boa medida, porém, seu motor está na atividade de cria e nas decisões do produtor sobre o nível de investimento na produção de bezerros, seja pela retenção de fêmeas, pela suplementação das matrizes, pelo manejo ou por outras estratégias produtivas.
Por isso, o "ciclo da cria" pode ser entendido como um dos principais mecanismos por trás do ciclo pecuário, tendo como ponto central a atratividade econômica da produção de bezerros, que pode ser analisada, entre outros indicadores, pelo ágio da arroba do bezerro em relação à arroba do boi gordo. É possível observar três movimentos mais nítidos de alta do ágio: entre 2008 e 2010, 2015 e 2016 e entre 2020 e 2021. Nesses períodos, o ágio do bezerro indicou que houve incentivos econômicos para que os pecuaristas investissem mais na atividade de cria, principalmente por meio da retenção de fêmeas. Para demonstrar a relação entre o ágio do bezerro e a participação de fêmeas no abate, utiliza-se a média móvel de 12 meses em ambas as séries, suavizando oscilações de curto prazo e efeitos sazonais. Com as curvas suavizadas, a relação entre os dois indicadores fica evidente, permitindo observar como os movimentos na atratividade da cria se refletem, depois de algum tempo, na participação de fêmeas no abate.
O pico do ágio em cada ciclo parece estar relacionado à intensidade da retenção de fêmeas. Em 2015/16, por exemplo, o ágio máximo foi menor do que em 2008/10 e a retenção também foi menos intensa. Em 2020/21, o ágio atingiu o maior nível da série analisada, acompanhado também pela maior retenção de fêmeas do período analisado. Quando o ágio, na média móvel de 12 meses, supera 44,0%, a participação de fêmeas no abate passa a cair com maior frequência. Nos 265 meses observados desde 2003, quando o ágio esteve acima desse nível, a participação de fêmeas estava menor seis meses depois em 60,0% das vezes. Quando o ágio ficou abaixo de 44,0%, isso ocorreu em apenas 39,0% dos casos. Por fim, os picos do ágio tendem a ocorrer próximos aos vales da participação de fêmeas no abate. Essa relação sugere que ainda há um espaço relevante para avanço do ágio no ciclo atual, uma vez que os dados, na média móvel de 12 meses, indicam apenas o início de um movimento de retenção de fêmeas.
Para o criador, os próximos anos parecem ser de boas oportunidades. O principal interesse em entender os momentos de retenção ou descarte de fêmeas é que isso permite entender como deve ser a oferta de boiadas às indústrias. Em momentos de maior retenção, há maior dificuldade para as indústrias escalarem boiadas e, por consequência, precisam aumentar as ofertas de compra na arroba do boi gordo. O contrário também é válido, quando há mais descarte, a indústria oferta menos pois tem mais "matéria-prima" no mercado. Entretanto, em dois momentos da série isso não aconteceu. O primeiro foi em meados de 2009 a 2010, quando, mesmo em uma fase de retenção de fêmeas, a cotação caiu de forma sistêmica e por um período longo. Se a oferta encolhia e o preço cedia, a explicação está do lado da demanda, e foram três fatores somados: a crise financeira de 2008, que travou o crédito e derrubou a exportação brasileira de carne, a quebra do parque frigorífico, com Independência, Arantes, Quatro Marcos e outros em recuperação judicial, o que tirou compradores da praça e reduziu a disputa pelo boi, e o câmbio, com a forte valorização do Real comprimindo a receita do exportador e chegando ao pecuarista como arroba mais barata.
A virada veio em 2010-2011, quando a demanda se recuperou e o aperto de oferta da retenção chegou ao mercado. Mais recentemente, desde o fim de 2024, a arroba do boi gordo tem se mantido em patamares mais sustentados, mesmo diante de um descarte intenso de fêmeas. Esse comportamento reforça o papel da demanda, que, diferentemente de 2009/10, tem sido mais firme, sobretudo pelo desempenho das exportações. Em 2025, o Brasil registrou o maior volume de carne bovina in natura exportado de sua história. Mantida a demanda em patamares elevados, cenário que hoje parece provável, e com o início da retenção de fêmeas, a tendência é de que a arroba do boi gordo trabalhe sustentada nos próximos anos. Por fim, prever o comportamento do ágio do bezerro, o fio inicial do ciclo, é difícil. Sabemos que ele é cíclico e que, em determinados momentos, sobe, enquanto em outros desce. O caminho direto seria acompanhar quantos bezerros nascem por ano, mas esse dado simplesmente não existe de forma confiável no Brasil.
Tentar estimá-lo a partir de taxas de natalidade, desmama, mortalidade e descarte de matrizes, significa empilhar premissas sobre premissas. No fim, o resultado tende a refletir mais as hipóteses adotadas do que o próprio mercado. Existe, porém, um atalho: o tamanho do rebanho bovino, estimado anualmente pelo IBGE, município por município. Esse é um dos melhores indicadores antecedentes que temos para o ágio do bezerro, com uma defasagem de aproximadamente três anos. A relação é inversa e bastante forte: quando o rebanho cresce, o ágio tende a cair três anos depois; quando o rebanho encolhe, o ágio tende a subir. A variação do rebanho associada a 2027 corresponde à mudança observada em 2024 em relação a 2023. A defasagem de três anos tem uma explicação essencialmente biológica e remete ao início deste texto: é o tempo necessário para reter a fêmea, emprenhar, parir e desmamar, até que o aumento na oferta de bezerros chegue ao mercado.
Com mais bezerros disponíveis, o ágio tende a ceder, quando o rebanho encolhe, ocorre o movimento contrário. Testamos diferentes defasagens entre as séries e o melhor encaixe ocorreu justamente em três anos. Na prática, essa relação nos dá cerca de dois anos de previsibilidade. Em 2024, o rebanho brasileiro caiu em relação a 2023, o que aponta para um ágio maior em 2027, cenário bastante plausível diante do momento atual do ciclo. Com a divulgação pelo IBGE dos dados do rebanho de 2025 a acontecer nos próximos meses, teremos mais uma indicação de como o ágio do bezerro, a retenção de fêmeas e, consequentemente, a arroba do boi gordo poderão se comportar em 2028. Fonte: Alcides Torres. Broadcast Agro.