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24/Sep/2026

Boi: remanejamento das cotas depende da China

O Brasil busca negociar com a China o remanejamento de parte das cotas de exportação de carne bovina de países que não devem utilizar integralmente seus limites, mas a efetivação da medida depende da aprovação chinesa. A possibilidade ganhou força após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva agradecer, em 21 de setembro, ao presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, pela disposição de ceder parte da cota uruguaia ao Brasil. Para a Vallya, o remanejamento é tecnicamente possível, mas a decisão final cabe ao governo chinês. No fim de 2025, a China estabeleceu limites de exportação de carne bovina para os países fornecedores da proteína, com o objetivo de proteger a pecuária doméstica diante de reclamações sobre excesso de produto importado no mercado interno. Para o Brasil, foi definida uma cota de 1,106 milhão de toneladas em 2026, com sobretaxa de importação de 55% sobre os volumes que excederem esse limite.

Em 2025, o Brasil exportou 35% mais carne bovina para a China, atingindo o recorde de 1,7 milhão de toneladas, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Dados mais recentes do Ministério do Comércio da China (Mofcom), de 11 de agosto, indicavam que o Brasil já havia utilizado 90% de sua cota. Para o Uruguai, o limite sem sobretaxa foi estabelecido em 324 mil toneladas, das quais menos de 25% haviam sido utilizadas até a metade de 2026, conforme dados do Mofcom. Avaliações do setor indicam que o Uruguai teria condições de ceder pelo menos 80 mil toneladas de sua cota ao Brasil. O eventual remanejamento poderia ocorrer sem aumento do volume total de carne bovina autorizado pela China. O país estabeleceu limite global de importação de 2,7 milhões de toneladas para 2026, de modo que a transferência de uma parcela não utilizada pelo Uruguai para o Brasil apenas redistribuiria um volume já previsto, sem alterar a política chinesa de restrição à entrada de grandes volumes de carne bovina.

A autorização, entretanto, não é automática e dependerá da análise do governo chinês. A possibilidade de redistribuição não estaria restrita ao Uruguai. Cotas ociosas de outros países que não consigam cumprir integralmente seus limites também poderiam, em tese, ser destinadas a exportadores com maior demanda. Na decisão anunciada pelo Mofcom em 31 de janeiro de 2025, a China estabeleceu cotas de 511 mil toneladas para a Argentina e de 324 mil toneladas para o Uruguai. O restante foi distribuído proporcionalmente entre Austrália, Estados Unidos, Nova Zelândia e outros exportadores de menor porte. O mecanismo indicado pelos chineses dependeria inicialmente de um entendimento entre o Brasil e o país que disponha de espaço em sua cota. Na sequência, seria necessária a autorização de Pequim. Esse segundo estágio representa a principal incerteza, uma vez que a administração das cotas permanece sob controle chinês e a aprovação de uma transferência não ocorre de forma automática.

A existência de excedentes de cota em alguns países e insuficiência em outros também evidencia limitações no desenho do atual sistema chinês. A distribuição definida para 2026 não teria refletido integralmente os fluxos comerciais mais recentes nem a capacidade efetiva de fornecimento de cada país exportador. Nesse contexto, um mecanismo de redistribuição poderia ter sido previsto desde o início ou as cotas poderiam ter sido calibradas de forma mais próxima da realidade do comércio de carne bovina. O principal fator de incerteza, contudo, é o momento da implementação. Como 2026 é o primeiro ano de vigência do novo regime de cotas, existe dúvida sobre a disposição de Pequim para realizar ajustes já no primeiro ciclo. A decisão tende a considerar as condições do mercado interno chinês e a avaliação sobre o impacto de uma eventual ampliação dos embarques brasileiros sem tarifa adicional. Mesmo com uma autorização rápida, existe uma limitação operacional para o aproveitamento da cota adicional ainda em 2026.

O processo envolve aquisição dos bovinos, abate, processamento, estocagem, embarque e trânsito marítimo até os portos chineses. Dessa forma, o intervalo restante do ano pode não ser suficiente para transformar a autorização em novos volumes efetivamente desembarcados na China. Cargas brasileiras que já estejam em trânsito poderiam ter maior possibilidade de escapar da cobrança da tarifa extracota, dependendo das regras aplicáveis. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) avaliou que a iniciativa brasileira de buscar o remanejamento é positiva, mas reconhece que o impacto em 2026 tende a ser limitado pelo tempo necessário para negociar a transferência, embarcar os produtos e concluir o transporte até a China. Para 2027, entretanto, o excedente potencial da cota uruguaia pode representar uma alternativa mais relevante, principalmente diante do risco de a cota brasileira voltar a ser utilizada integralmente de forma antecipada caso o ritmo de vendas permaneça elevado.

Para 2027, a cota brasileira sem tarifa adicional será ampliada para 1,128 milhão de toneladas. Ainda assim, a possibilidade de esgotamento antecipado permanece relevante caso o ritmo de exportações continue próximo dos níveis registrados em 2026. A utilização de cotas ociosas de outros fornecedores poderia funcionar como mecanismo complementar para ampliar o acesso brasileiro ao mercado chinês sem alterar o volume total autorizado pela China. A manutenção da estratégia de negociação é considerada relevante para o Brasil em razão do peso econômico da cadeia de carne bovina nas regiões exportadoras. A dependência de frigoríficos voltados ao mercado chinês alcança municípios inteiros, de modo que as decisões relacionadas às cotas afetam não apenas as empresas exportadoras, mas também a atividade pecuária, o processamento industrial, a geração de empregos e as economias locais vinculadas à cadeia produtiva. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.