17/Sep/2026
O aumento das importações de carne bovina pelos Estados Unidos pode aliviar a escassez de oferta no mercado norte-americano no curto prazo, mas tende a reduzir o estímulo à recomposição do rebanho e prolongar a dependência de fornecedores externos. Nesse cenário, há espaço para ampliação das vendas brasileiras ao mercado norte-americano, que deverá continuar com oferta restrita de bovinos pelos próximos dois a três anos. A maior entrada de carne importada reduz a pressão sobre os preços nos Estados Unidos e melhora as margens da indústria frigorífica, mas, ao mesmo tempo, limita a valorização do boi pago ao produtor. Esse mecanismo reduz o sinal econômico para a retenção de fêmeas e para a reconstrução do rebanho, cujos efeitos sobre a oferta de carne aparecem apenas depois de alguns anos devido ao longo ciclo de produção bovina.
O mercado norte-americano permanece com baixa disponibilidade de animais. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) contabilizou 94,2 milhões de bovinos e bezerros em 1º de julho, alta de 0,2% ante um ano antes e primeira elevação desde 2018. O rebanho de vacas de corte, porém, recuou cerca de 1%, para 28,5 milhões de cabeças. Já o número de novilhas retidas para reposição avançou 3%, para 3,8 milhões de cabeças, indicando início de maior retenção de fêmeas, ainda em nível historicamente baixo. Em paralelo, o governo norte-americano ampliou temporariamente o espaço para importações. Em 26 de agosto, autorizou a entrada de 300 mil toneladas adicionais de carne bovina magra sob a tarifa aplicada dentro da cota, por 90 dias a partir de 1º de setembro. A medida tem como objetivo ampliar a oferta disponível e conter os preços ao consumidor.
A maior disponibilidade de carne importada reduz parte do sinal de preços necessário para estimular o produtor norte-americano a reconstruir o rebanho. A consequência potencial é uma maior dependência de fornecedores externos para atender ao consumo, incluindo Brasil e México. Como as decisões de retenção e reprodução têm efeitos defasados, as medidas adotadas no mercado atual deverão influenciar a oferta de carne apenas nos próximos anos. O Brasil já vem ampliando sua participação no mercado norte-americano. Entre janeiro e agosto, os Estados Unidos importaram 269,1 mil toneladas de carne bovina brasileira, alta de 28,7% ante igual período de 2025, tornando-se o segundo maior destino do produto brasileiro, atrás apenas da China, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Em agosto, com a redução das compras chinesas após o esgotamento da cota anual, os Estados Unidos assumiram a liderança entre os destinos mensais da carne bovina brasileira, com 35,3 mil toneladas.
A competitividade da carne brasileira em relação ao produto norte-americano e a outros fornecedores mantém espaço para novos aumentos dos embarques caso a restrição de oferta persista nos Estados Unidos. O perfil da demanda norte-americana, porém, é diferente do mercado chinês. Uma parcela relevante das importações é composta por carne magra destinada à mistura com produto doméstico na fabricação de carne moída, e não necessariamente por cortes de maior valor agregado. O cenário combina oferta restrita de bovinos nos Estados Unidos, ampliação temporária das importações e aumento da participação brasileira no mercado. A evolução das compras norte-americanas dependerá da duração do aperto de oferta, das condições de preço e das regras de acesso ao mercado, enquanto a recomposição do rebanho seguirá condicionada à capacidade de geração de incentivos econômicos ao produtor. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.