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16/Sep/2026

Boi: retenção de fêmeas sustenta alta dos preços

Após um primeiro semestre marcado pelo aumento dos abates de bovinos, o mercado brasileiro começa a apresentar sinais de redução na oferta de bovinos, em um movimento associado principalmente à retenção de fêmeas para reprodução. A valorização do bezerro e de outros animais jovens tem estimulado os pecuaristas a manterem mais matrizes nas propriedades, reduzindo o envio de fêmeas para os frigoríficos. A menor disponibilidade interna tende a dar suporte às cotações do boi gordo e da carne bovina, em um cenário reforçado pela expectativa de aumento das compras dos Estados Unidos e pela retomada das aquisições da China para recomposição da cota de 2027. Os contratos futuros do boi gordo na B3 já incorporam esse cenário de menor oferta. Em 11 de setembro, o contrato com vencimento em 30 de setembro fechou a R$ 358,55 por arroba, enquanto o contrato para o fim de outubro encerrou a R$ 377,40 por arroba e o de janeiro de 2027, a R$ 385,30 por arroba.

A estrutura de preços futuros indica expectativa de valorização gradual ao longo dos próximos meses, acompanhando a mudança na disponibilidade de animais para abate e a perspectiva de maior demanda externa. A participação das fêmeas no total de bovinos abatidos no Brasil, considerando apenas as unidades com registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF), caiu de 44,7% em fevereiro para 32,1% em agosto. Em julho, enquanto o abate total de bovinos recuou 22%, o abate de fêmeas apresentou queda mais intensa, de 32%. O movimento caracteriza uma reversão inicial do ciclo pecuário, com tendência de intensificação da retenção de matrizes até o fim de 2026. A participação das fêmeas nos abates tende a continuar diminuindo nos próximos meses e ao longo de 2027.

Com menos matrizes destinadas ao abate, a produção de carne bovina deverá recuar, ao mesmo tempo em que os frigoríficos terão de administrar uma demanda externa potencialmente maior, especialmente dos Estados Unidos e da China. A combinação entre menor oferta interna e maior procura internacional tende a sustentar a arroba e elevar os preços da carne bovina. Nos Estados Unidos, foi anunciada a importação adicional de 300 mil toneladas de carne bovina sem tarifa por 90 dias, medida em vigor desde 1º de setembro e limitada a 100 mil toneladas por mês. Os produtos deverão ser comercializados a preços 25% inferiores aos praticados atualmente. Para o Brasil, a estimativa é de possibilidade de embarques de até 50 mil toneladas por mês.

A medida amplia, ainda que temporariamente, o potencial de absorção da carne brasileira pelo mercado norte-americano e acrescenta um fator de sustentação à demanda externa. Na China, a expectativa é de retomada da produção destinada ao mercado chinês no último trimestre de 2026, com possibilidade de embarques ainda neste ano para chegada ao país asiático em janeiro e contabilização na cota de 2027. A China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas, sem a tarifa adicional de 55% aplicada ao volume excedente. A cota de 2026 já estava praticamente preenchida no fim de julho. A perspectiva de renovação da demanda chinesa influencia também as decisões dos confinadores, que tendem a reduzir o confinamento no terceiro trimestre e concentrar maior parte da estratégia no quarto trimestre, quando a demanda chinesa deverá retornar.

No mercado físico, as cotações permanecem praticamente estáveis desde o início de setembro nas principais praças pecuárias, refletindo o equilíbrio entre uma oferta de bovinos controlada e compradores ainda cautelosos, embora com disposição para novas aquisições. Em Araçatuba (SP), o boi gordo estava em R$ 345,00 por arroba em 11 de setembro, mesmo nível observado no início do mês e com valorização acumulada de 10,6% no ano. O preço médio do boi gordo se mantém estável em R$ 349,50 por arroba na mesma data, acumulando alta próxima de 1,5% no mês. A trajetória de alta, contudo, tende a ser gradual, devido à necessidade de preservar o consumo doméstico.

Cotações muito elevadas da carne bovina podem reduzir a demanda e acelerar a substituição por proteínas mais competitivas, especialmente a carne de frango. Esse fator constitui o principal limitador para uma valorização mais acentuada da arroba e da carne no mercado interno. A tendência, portanto, é de avanço dos preços em ritmo moderado, condicionado à capacidade de absorção do consumidor. A menor oferta doméstica de bovinos deverá resultar em redução da disponibilidade interna de carne, criando condições para elevação dos preços ao longo dos próximos meses. A perda do mercado da União Europeia tende a ter impacto limitado sobre a formação das cotações, já que o bloco representa entre 3% e 4% das exportações brasileiras de carne bovina.

O mercado europeu, contudo, permanece relevante como referência de qualidade e exigência sanitária, podendo influenciar padrões adotados por outros compradores internacionais. O cenário para a pecuária bovina combina, assim, uma mudança gradual do ciclo produtivo, com maior retenção de fêmeas e redução da oferta futura de animais para abate, e uma demanda externa potencialmente mais firme. A expansão das compras dos Estados Unidos e a recomposição da demanda chinesa para a cota de 2027 tendem a reforçar a sustentação das cotações. A intensidade da valorização dependerá, principalmente, da velocidade da redução da oferta, do comportamento do consumo doméstico e da efetiva concretização dos volumes adicionais de exportação. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.