08/Sep/2026
Segundo o Santander Brasil, os preços das carnes, que já acumulam alta acima da variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nos últimos 12 meses, devem exercer pressão adicional sobre a inflação no restante de 2026 e em 2027. A avaliação considera que a reversão do ciclo pecuário brasileiro em direção a uma fase de maior valorização dos preços está próxima de se intensificar, em um ambiente global também restritivo para a oferta, o que tende a elevar os preços da carne bovina ao consumidor. Os preços do boi gordo devem alcançar cerca de R$ 370,00 por arroba no fim de 2026 e R$ 400,00 por arroba em 2027. Em agosto, a cotação média do boi gordo em São Paulo ficou em R$ 345,00 por arroba. Considerando repasse de aproximadamente 50% dos preços do boi gordo ao varejo, as carnes devem registrar alta de 12% em 2026 e de 8% em 2027 dentro do IPCA, após avanço de apenas 1,22% em 2025.
Embora a inversão do ciclo pecuário já tenha começado a se refletir em preços mais elevados neste ano, o mercado ainda subestima a magnitude da redução de oferta que poderá ocorrer com a saída do Brasil de uma das fases mais profundas de abate de fêmeas das últimas décadas. Esse movimento ocorre em um contexto internacional igualmente desafiador para a oferta de carne bovina. Em períodos de maior rentabilidade, os produtores tendem a elevar o abate de fêmeas para maximizar a geração de caixa no curto prazo, reduzindo simultaneamente o rebanho reprodutor. Com o passar do tempo, a menor quantidade de fêmeas destinadas à reprodução limita a produção de bezerros, reduz a disponibilidade futura de gado e cria condições para a próxima fase de alta do ciclo pecuário. O mercado brasileiro se aproxima desse ponto de inflexão.
Os dados de abates do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que os volumes permanecem historicamente elevados, mas a expansão da oferta associada à fase de liquidação de fêmeas está perdendo força, em linha com uma transição gradual para um cenário de menor disponibilidade. O abate total de bovinos alcançou 10,7 milhões de cabeças no segundo trimestre de 2026, com crescimento de 1,3% em relação ao mesmo período de 2025 e de 4,2% ante o primeiro trimestre de 2026. Embora tenha ocorrido recuperação parcial em relação ao vale registrado no primeiro trimestre, o ritmo de crescimento anual continuou desacelerando. Na margem, o abate de fêmeas bovinas fiscalizado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) caiu 31,69% em julho em relação ao mesmo mês de 2025. A participação do abate de fêmeas no total de bovinos abatidos ficou abaixo da registrada nos três anos anteriores pela primeira vez em 2026.
Com a retomada gradual da retenção de fêmeas, caracterizada pela manutenção de vacas e novilhas reprodutoras no rebanho em vez do envio para abate, a produção brasileira de carne bovina tende a ficar mais restrita. Historicamente, esse movimento antecede períodos de valorização da arroba do boi gordo. O aumento dos custos de ração, que representa cerca de 80% dos custos operacionais do confinamento no Brasil, acrescenta uma fonte adicional de pressão sobre os preços. A vantagem proporcionada pelo milho e pelo farelo de soja, considerados excepcionalmente baratos no ano passado e no início de 2026, está perdendo força, diante da perspectiva de menores estoques finais de milho nos Estados Unidos e dos riscos associados ao fenômeno El Niño. No mercado internacional, os fundamentos também apontam para um ambiente de preços mais elevados.
Grandes produtores enfrentam limitações estruturais de oferta, enquanto o aumento dos custos de alimentação eleva o piso dos custos de produção. Nesse cenário, o Brasil permanece como principal exportador marginal de carne bovina. A demanda robusta da China, a ampliação recente das cotas de importação pelos Estados Unidos e a maior diversificação dos destinos das exportações brasileiras formam um ambiente externo favorável à valorização dos preços. A transmissão dos preços do boi para o consumidor tende a ser relativamente rápida e relevante. O modelo que relaciona as variações mensais das cotações do boi gordo ao componente de carnes do IPCA, formado em aproximadamente 88% por carne bovina, estima repasse de cerca de 50% dos preços do boi para o varejo.
O efeito ocorre em um horizonte de até cinco meses, com maior concentração nos três primeiros meses. Com a arroba do boi gordo em R$ 370,00 no fim de 2026 e próxima de R$ 400,00 no final de 2027, o componente de carnes do IPCA deve subir 12,1% neste ano e registrar alta adicional de 8,1% no próximo ano. O Santander projeta alta de 4,9% do IPCA em 2026, acelerando para 5,3% em 2027. Dentro dessas projeções, o impacto direto das carnes sobre o índice é estimado em 0,35% em 2026 e em 0,23% em 2027. Os cálculos consideram apenas o impacto direto sobre o componente de carnes. Com base no comportamento observado em 2024, preços mais elevados da carne bovina também podem estimular a valorização de proteínas substitutas, principalmente aves, além de provocar pressões defasadas sobre os serviços de alimentação. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.