ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

08/Sep/2026

Boi: entrevista com Larissa Wachholz - Vallya

A China poderá, em algum momento, reconsiderar as cotas de importação de carne bovina se as políticas adotadas conseguirem fortalecer a pecuária, avalia a sócia da Vallya, Larissa Wachholz. Ela diz que a política do presidente Xi Jinping foi desenhada para durar três anos e, embora possa ser revista antes, não há expectativa de isso ocorrer em 2026. A partir de 2027, uma eventual revisão dependeria de o governo chinês considerar que seus objetivos, principalmente a melhora da renda dos pecuaristas, foram alcançados. No fim do ano passado, a China impôs limites de importação aos principais países fornecedores de carne bovina; o Brasil foi "contemplado" com uma cota de 1,106 milhão de toneladas, abaixo do 1,7 milhão de toneladas enviadas ao país em 2025. Austrália, Argentina, Uruguai e Paraguai também tiveram definido seu quinhão. Para Wachholz, a medida não deve ser interpretada como uma barreira aos exportadores, mas como parte de uma estratégia para proteger e reorganizar a pecuária chinesa. Mesmo assim, ela avalia que o Brasil, principal fornecedor global da proteína, tem legitimidade para continuar negociando com a China, inclusive pleiteando a revisão das cotas e o preenchimento de volumes não utilizados por outros países. Wachholz pondera, contudo, que as expectativas brasileiras precisam estar alinhadas ao objetivo chinês de reduzir a dependência externa e, ao mesmo tempo, garantir a viabilidade econômica da produção doméstica. Segue a entrevista:

Como você interpreta a decisão do governo chinês de impor cotas e uma tarifa extracota à carne bovina? O que está por trás dessa política?

Larissa Wachholz: Observamos uma clara divergência entre importadores de carne e produtores locais. Enquanto os importadores buscam a manutenção do livre comércio, os pecuaristas chineses enfrentam um cenário crítico. Dados da associação setorial de criadores indicavam que, durante o período da investigação sobre o impacto das importações na viabilidade da pecuária doméstica, cerca de 70% dos produtores operavam com prejuízo. E a China, sendo a segunda maior economia do mundo, prioriza a segurança alimentar como pilar estratégico. A política nacional estabelece que o país deve suprir grande parte de sua demanda internamente, utilizando as importações como complemento, e não como fonte primária de abastecimento. No plano quinquenal vigente à época da investigação, o governo havia estipulado a meta de produzir 85% do consumo nacional de carne bovina; contudo, a produção local estava estagnada em torno de 70%. Essa dificuldade em atingir as metas, somada à baixa competitividade dos produtores, gerou um impasse. Nesse contexto, a implementação de cotas reflete a necessidade de o governo chinês equilibrar os interesses comerciais com a proteção do setor primário. A medida visa organizar a cadeia produtiva local, permitindo que a pecuária interna se reestruture.

Há possibilidade de a China revisar as cotas dos países exportadores no curto prazo?

Larissa Wachholz: Para que o governo reconsidere essa medida, é imprescindível que a rentabilidade do produtor local seja sustentável. Pequim não interpreta a situação como concorrência desleal de fornecedores estrangeiros específicos, como o Brasil, mas reconhece a dificuldade de tornar a pecuária bovina chinesa competitiva. A China vê como estratégico garantir um patamar mínimo de produção nacional, assegurando a viabilidade financeira desses produtores. Paralelamente às cotas, o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China tem promovido ajustes na matriz produtiva do país. O foco consiste em reduzir a participação de produtores ineficientes e fomentar o crescimento daqueles com maior produtividade. Entre as iniciativas destacam-se a redução dos custos com ração, o estímulo à melhoria da qualidade do produto interno e uma reforma estrutural no setor. Em suma, a revisão das cotas está diretamente vinculada ao sucesso dessas políticas de fortalecimento do setor doméstico, reduzindo o risco de expor os produtores locais a novos ciclos de vulnerabilidade financeira.

Em quanto tempo essa revisão poderia ocorrer?

Larissa Wachholz: Embora a política vigente tenha sido projetada para durar três anos, ela pode, em tese, ser revista antes, a depender das circunstâncias. Mas é necessário um período mínimo para avaliar os resultados. A partir de 2027, tal possibilidade existe, caso o governo chinês considere seus objetivos plenamente atendidos. Embora essa não seja uma discussão corrente no cenário atual, é um fator a ser considerado.

O Brasil já sugeriu, por exemplo, "cobrir" a cota de outros países que não conseguirem preenchê-la. Há espaço para uma renegociação das cotas país a país?

Larissa Wachholz: Acredito que o cenário dependerá, fundamentalmente, da viabilidade econômica. A liderança chinesa é notória pelo seu pragmatismo; o objetivo não é obstruir o comércio internacional, mas sim priorizar o atendimento à demanda do produtor local neste momento. Por outro lado, o Brasil, como maior exportador, possui plena legitimidade para pleitear a revisão das cotas e exigir o cumprimento daquelas que outros países não tenham condições de suprir. Essa postura é esperada e condizente com o nosso interesse de ampliar as exportações. Portanto, não há nenhum equívoco em persistir nessas negociações e manter o diálogo aberto. Mas é necessário alinhar as expectativas dentro dos parâmetros citados - de busca da redução de dependência e viabilização econômica da pecuária internamente.

Com a imposição da cota chinesa no fim do ano passado, o Brasil acelerou as exportações de carne bovina no primeiro semestre, que bateram recorde. Podemos terminar 2026 com desempenho próximo ao de 2025 ou o tombo será grande sem a China?

Larissa Wachholz: Podemos ser afetados em certa medida, pois, embora tenhamos expectativa de queda superior a 30% no volume de exportações para os chineses em comparação com o ano passado, ao analisarmos a média de 2022, 2023 e 2024, observamos que o desempenho atual tende a permanecer dentro da normalidade, uma vez que 2025 apresentou um pico atípico nos embarques. Caso a tarifa extracota da China não nos permita manter a competitividade, a projeção é a de que exportaremos volumes próximos aos de 2022 a 2024. Esse cenário, contudo, ainda está condicionado às oscilações de preços no mercado chinês. Devido à alta competitividade do produto brasileiro, existe a possibilidade teórica de mantermos nossa competitividade mesmo com a taxação, caso ocorra uma ruptura que eleve drasticamente os preços internos na China. Mas essa não é a tendência. Atualmente, os preços da carne bovina chinesa estão em processo de recuperação, o que indica que a salvaguarda está atingindo seu objetivo de recompor a renda dos pecuaristas locais. E um acontecimento muito bom para os exportadores brasileiros foi a autorização dos Estados Unidos para importação de 300 mil toneladas de carne com redução tarifária, por uma necessidade de abastecimento interno. Essa oportunidade compensa boa parte do volume que deixou de ser exportado para a China. Embora esse redirecionamento não tenha sido planejado pelas empresas, revelou-se um desfecho positivo para o setor.

Os embarques para cumprir a próxima cota, referente a 2027, devem começar em outubro, conforme as projeções do mercado. Isso pode provocar uma nova aceleração das exportações brasileiras, como ocorreu no primeiro semestre? E ainda contribuir para um bom resultado anual em 2026?

Larissa Wachholz: Em relação aos embarques e considerando a cota de 2027, é evidente que, caso não haja uma estruturação logística por parte do Brasil, o cenário de urgência observado no primeiro semestre deverá se repetir. Esse, contudo, não é o ideal. O modelo atual, que privilegia a celeridade dos exportadores de maior potencial logístico a alcançarem o mercado, revela-se ineficiente, pois impõe um ritmo frenético a toda a cadeia produtiva - desde a originação dos animais até a operação dos frigoríficos - em busca de uma entrega imediata. Tal dinâmica gera instabilidade e desequilíbrios mercadológicos. Seria preferível que as remessas em 2027 fossem conduzidas de maneira organizada, mediante um cronograma estabelecido entre os fornecedores. Essa articulação não compete ao governo chinês, mas sim a uma iniciativa interna do setor produtivo brasileiro em parceria com o governo federal.

Fonte: Broadcast Agro.