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03/Sep/2026

Carnes: UE fecha mercado premium e pressiona margens

A entrada em vigor, em 3 de setembro, da nova lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal para a União Europeia interrompe as vendas de carnes brasileiras ao bloco e obriga frigoríficos a redirecionar cargas para outros mercados. O Brasil foi retirado da relação de países autorizados em razão das exigências europeias relacionadas ao controle do uso de antimicrobianos na produção animal. O impacto sobre o volume total de carnes exportado pelo Brasil tende a ser limitado, mas a perda de um destino com maior remuneração pela proteína deve pressionar as margens da indústria. De janeiro a julho, o Brasil exportou US$ 1,277 bilhão em carnes para a União Europeia, correspondentes a 297,7 mil toneladas. As exportações de carne bovina somaram US$ 556,2 milhões e 63,1 mil toneladas, enquanto as de frango alcançaram US$ 680,0 milhões e 226,2 mil toneladas. O bloco respondeu por 4,7% do volume total de carnes embarcado pelo País e por 6,2% da receita. A carne bovina brasileira foi comercializada para a União Europeia por cerca de US$ 8,81 por quilo entre janeiro e julho, ante US$ 5,88 por quilo na média de todos os destinos.

No frango, o valor médio para o bloco foi de US$ 3,01 por quilo, contra US$ 1,95 por quilo considerando todos os mercados. Dessa forma, mesmo com o redirecionamento de parte dos volumes para outros destinos, a receita por tonelada tende a ser menor. O principal desafio para a indústria é substituir um mercado premium por compradores com menor capacidade de remuneração. No segmento de frango, o impacto sobre o resultado do ano tende a ser menor devido à antecipação das compras pelos importadores europeus antes da entrada em vigor da restrição. Os embarques brasileiros, historicamente entre 15 mil e 20 mil toneladas por mês, passaram a superar 30 mil toneladas em boa parte do primeiro semestre e chegaram a 40 mil toneladas em maio. De janeiro a julho, as vendas de frango para a União Europeia cresceram 73%. A antecipação indica formação de estoques na Europa e reduz o risco de excesso de oferta no mercado brasileiro no curtíssimo prazo. Na carne bovina, também houve antecipação de embarques entre junho e agosto, o que deve amortecer o impacto em setembro, mas não elimina as dificuldades nos meses seguintes.

O mercado internacional apresenta condições para absorver parcela relevante da carne que deixar de ser enviada à Europa, mas o principal desafio será preservar a rentabilidade das operações. Os Estados Unidos aparecem entre as principais alternativas para a carne bovina brasileira, após a ampliação temporária da cota livre de tarifas, que abriu espaço para até 300 mil toneladas de carne bovina magra nos próximos 90 dias. Chile, México, Oriente Médio, Rússia e mercados asiáticos também são apontados como possíveis destinos. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), entretanto, avalia que não existe substituição automática do mercado europeu, uma vez que cada destino apresenta diferentes exigências e demanda por cortes e produtos específicos, o que pode dificultar a realocação dos volumes. A suspensão também terá efeitos diferentes entre os frigoríficos. Empresas com maior exposição ao mercado europeu e maior concentração de cortes destinados ao bloco tendem a sofrer impacto mais significativo, enquanto companhias com operações geograficamente diversificadas possuem maior capacidade de redirecionamento.

A Minerva Foods avalia compensar a menor disponibilidade de carne brasileira na Europa com produção e exportações originadas na Argentina, no Uruguai e no Paraguai. Além do impacto direto sobre a União Europeia, a retirada do Brasil da lista de países autorizados gera efeitos potenciais sobre terceiros mercados. O caso mais concreto é o da Noruega, que também adotará restrições a partir de 3 de setembro ao condicionar a importação de determinados produtos de origem animal à presença do país exportador na lista de autorizados pela União Europeia. No primeiro semestre, o Brasil exportou US$ 119,6 milhões em carnes e produtos do complexo de proteína animal para o mercado norueguês. O Reino Unido, por sua vez, não replicará imediatamente a decisão europeia. O país manterá as importações de carnes brasileiras a partir de 3 de setembro e realizará sua própria avaliação do sistema brasileiro de controle de antimicrobianos. A Irlanda do Norte constitui exceção e aplicará a proibição adotada pela União Europeia. O horizonte de retomada também é diferente entre as proteínas.

Para frango e mel, a expectativa do governo e dos exportadores é de que a exclusão possa ser revertida em novembro, após a conclusão da auditoria europeia. Na carne bovina, o processo tende a ser mais longo. Como o ciclo completo de produção do animal pode levar de 24 a 36 meses, o primeiro grupo de bovinos submetido aos novos procedimentos desde o nascimento só estaria disponível por volta de meados de 2028. Diante desse cenário, a indústria defende a adoção de um regime de transição. A Abiec informa que 100% das empresas associadas e habilitadas para o mercado europeu aderiram ao protocolo privado de controle de antimicrobianos desenvolvido em conjunto com a Associação Brasileira das Certificadoras por Auditoria e Rastreabilidade (Abcar) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A CNA também solicitou ao governo providências para reverter a suspensão e defendeu o acionamento do Mecanismo de Reequilíbrio de Concessões previsto no acordo Mercosul-União Europeia.

Na avaliação da entidade, o instrumento permitiria buscar compensações ou, de forma subsidiária, suspender concessões tarifárias ao bloco. A confederação também solicitou ao Congresso Nacional medidas urgentes para avaliar os impactos da decisão e eventuais ações de defesa comercial. O Brasil foi retirado da lista de países habilitados depois que a União Europeia considerou insuficiente a documentação apresentada para comprovar os mecanismos de controle e rastreabilidade. Desde 1º de julho, o País adotou novos procedimentos oficiais de fiscalização, mas o bloco ainda precisa avaliar a suficiência das medidas implementadas. A partir de 3 de setembro, o Brasil não poderá certificar novos lotes destinados à União Europeia enquanto permanecer fora da lista de países autorizados. Cargas certificadas até 2 de setembro poderão continuar sendo embarcadas e recebidas posteriormente. Essa regra reduz o efeito imediato da suspensão e contribui para explicar a antecipação dos embarques observada nos últimos meses. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.