02/Sep/2026
A União Europeia deve suspender nos próximos dias as importações de proteínas animais do Brasil em decorrência das regras europeias sobre o uso de antimicrobianos na produção animal, estabelecidas em 2023. O Brasil teve período para adequar seus sistemas de produção e controle, mas deixou a implementação dos procedimentos para a etapa final do processo regulatório e agora busca, por meio de negociações diplomáticas, uma extensão do prazo que não foi obtida internamente. O Brasil foi retirado da lista de fornecedores autorizados da União Europeia por não apresentar garantias consideradas suficientes para o cumprimento das exigências. Apenas em julho de 2026, o governo brasileiro adotou novos procedimentos de controle e solicitou uma transição que permitisse a manutenção das vendas durante a realização das auditorias.
O pedido de transição foi negado pelas autoridades europeias. Outros países da América do Sul, como Argentina, Uruguai e Paraguai, também foram submetidos às mesmas normas e avançaram na adequação de suas cadeias produtivas. Esses países permanecem habilitados a exportar para o mercado europeu. No Brasil, parte do período disponível foi utilizada em discussões sobre a razoabilidade e o eventual caráter protecionista das exigências, enquanto a adequação operacional das cadeias produtivas avançou de forma mais lenta. Para frango e mel, a suspensão das exportações pode terminar em novembro. No caso da carne bovina, entretanto, a retomada dependerá de um processo mais longo, devido às exigências que precisam ser cumpridas durante todo o ciclo de produção do animal.
O ciclo de um bovino leva de 24 a 36 meses, e o protocolo europeu precisa ser observado desde o nascimento. Cerca de 200 fazendas solicitaram adesão às novas regras, homologadas pelo Ministério da Agricultura em julho, mas ainda estão na fase documental. Os primeiros animais que terão cumprido integralmente o ciclo produtivo sob os novos controles somente estarão disponíveis em 2028, o que impede uma solução rápida para a recomposição das exportações de carne bovina à União Europeia. O impacto econômico potencial é relevante. O setor brasileiro pode deixar de exportar US$ 1,8 bilhão por ano em carne bovina para a União Europeia. No segmento de frango, dois meses sem vendas ao bloco representariam outros US$ 243 milhões.
A carne bovina brasileira destinada ao mercado europeu alcança preços cerca de US$ 3 mil por tonelada superiores à média do mercado internacional, ampliando o custo econômico de uma interrupção das vendas. O governo brasileiro mantém as negociações com as autoridades europeias. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou correspondência à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, solicitando a reinclusão do Brasil. A retomada das exportações de carne bovina, contudo, dependerá do cumprimento do protocolo europeu, que acompanha o animal desde o nascimento e exige um horizonte de anos, e não de meses. A situação também amplia a importância dos demais prazos regulatórios em negociação com a União Europeia. Em dezembro, entram em vigor novas exigências europeias relacionadas ao desmatamento, com regras de rastreabilidade para produtos relevantes da pauta brasileira, entre eles carne bovina, soja e café.
A União Europeia também anunciou alterações nos limites máximos de resíduos de agrotóxicos permitidos nos alimentos, tema com impacto direto sobre o agronegócio brasileiro. O Brasil ainda dispõe de tempo para participar das discussões e preparar suas cadeias produtivas para as novas exigências europeias. O episódio relacionado aos antimicrobianos evidencia, contudo, o risco associado à postergação das medidas de adequação. Entre a publicação das regras europeias, em 2023, e a adoção dos novos procedimentos de controle pelo governo brasileiro, em julho de 2026, transcorreu período suficiente para preparação das cadeias produtivas, mas a implementação ocorreu apenas na etapa final, elevando os riscos para produtores e exportadores. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.