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06/Aug/2026

Boi: entrevista com Paulo Mustefaga - Abrafrigo

O esgotamento da cota chinesa deve reduzir o volume das exportações brasileiras no segundo semestre, mas a receita do setor tende a permanecer próxima à de 2025, sustentada pelos preços internacionais, diz o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Paulo Mustefaga. Ele estima queda de cerca de 10% no volume embarcado em 2026, parcialmente compensada por preços médios cerca de 20% superiores aos do ano passado.

Para o executivo, o impacto será maior sobre frigoríficos médios e empresas da Região Norte, especialmente do Pará, sem acesso a mercados como Estados Unidos, União Europeia, Chile e México. Segundo Mustefaga, a desaceleração dos embarques começou a ser percebida no fim de junho, quando muitas indústrias interromperam a produção destinada à China para evitar o risco de incidência da tarifa adicional de 55% sobre cargas que chegassem ao país asiático após o preenchimento da cota.

Algumas empresas conseguiram redirecionar parte da produção para os Estados Unidos. Frigoríficos mais dependentes da China reduziram a produção e, em alguns casos, enxugaram quadros. O cenário contrasta com o desempenho recorde do primeiro semestre, quando as exportações brasileiras de carnes e subprodutos bovinos somaram US$ 9,929 bilhões, alta de 33,4% ante igual período de 2025, enquanto o volume embarcado cresceu 7,3%, para 1,811 milhão de toneladas, segundo levantamento da Abrafrigo com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Mustefaga atribui esse resultado à corrida das indústrias para embarcar carne dentro da cota chinesa de 1,106 milhão de toneladas isenta da sobretaxa de 55%, além da retomada das compras pelos Estados Unidos. Na entrevista, ele também comenta os impactos da possível interrupção das exportações para a União Europeia por causa do veto ao uso de antimicrobianos na produção e analisa os efeitos da virada do ciclo pecuário sobre a rentabilidade da indústria frigorífica. Segue a entrevista:

O primeiro semestre foi marcado por recordes nas exportações brasileiras de carne bovina. Na avaliação da Abrafrigo, quais foram os principais fatores que explicam esse desempenho?

Paulo Mustefaga: Eu destacaria dois fatores principais. O primeiro foi o efeito da cota da China. As indústrias correram para embarcar o maior volume possível dentro da cota de 1,106 milhão de toneladas, que é isenta da tarifa adicional. Ninguém queria correr o risco de deixar embarques para depois do esgotamento da cota e pagar uma sobretaxa de 55%. O segundo fator foi a recuperação das exportações para os Estados Unidos. No ano passado houve uma série de dificuldades naquele mercado, mas agora a situação foi equacionada e os Estados Unidos passaram a ter um protagonismo muito relevante para a carne bovina brasileira.

Embora a China ainda não tenha anunciado oficialmente o esgotamento da cota, o mercado já trabalha com esse cenário e os dados preliminares de julho apontam desaceleração das exportações. A indústria já sente esse impacto?

Paulo Mustefaga: Sem dúvida. O impacto começou a aparecer no fim de junho. Muitas empresas interromperam a produção para evitar que cargas chegassem à China após o preenchimento da cota. Algumas empresas conseguiram redirecionar o produto para outros mercados, principalmente os Estados Unidos. Outras, reduziram a produção e algumas até enxugaram quadros.

Considerando que o Brasil exportou cerca de 1,65 milhão de toneladas de carne bovina para a China no ano passado, bem acima da nova cota de 1,106 milhão de toneladas, outros mercados têm capacidade para absorver parte do volume que deixará de seguir ao país asiático?

Paulo Mustefaga: O Brasil exporta para mais de 150 países, mas poucos mercados têm escala para absorver volumes relevantes. Os Estados Unidos devem ser o principal destino alternativo, seguidos por Chile, Rússia e alguns outros. Ainda assim, conseguiremos substituir apenas parte do volume que deixará de ir para a China.

Diante do desempenho recorde do primeiro semestre e da desaceleração esperada para a segunda metade do ano com o esgotamento da cota chinesa, qual é hoje a estimativa da Abrafrigo para o fechamento de 2026?

Paulo Mustefaga: A nossa leitura hoje é que os mercados alternativos devem absorver algo em torno de 250 mil toneladas da carne que deixará de seguir para a China. Ainda assim, podemos ter uma redução de aproximadamente 250 mil a 300 mil toneladas nas exportações brasileiras no fechamento de 2026, o que representa algo próximo de 10% do volume embarcado em 2025. Por outro lado, os preços médios das exportações estão cerca de 20% acima dos registrados no ano passado. Então, apesar da redução do volume, acredito que a receita das exportações deve permanecer mais ou menos no mesmo patamar.

Esse impacto tende a atingir todas as empresas da mesma forma ou há regiões e perfis de frigoríficos mais expostos?

Paulo Mustefaga: O Estado que mais preocupa hoje é o Pará. Tem o segundo maior rebanho bovino do País e possui um parque frigorífico muito importante, mas não pode exportar para mercados relevantes como Estados Unidos, União Europeia, Chile e México. Em termos de empresas, quem mais sofre é a média indústria exportadora, que dependia da China e não tem alternativas relevantes para redirecionar esse volume.

Parte da carne que deixará de ser exportada poderá ser redirecionada ao mercado interno. O consumo doméstico tem condições de absorver esse excedente?

Paulo Mustefaga: Não automaticamente. Existe um limite para isso. Com a alta do preço da arroba, a carne bovina também fica mais cara para o consumidor brasileiro, que muitas vezes migra para proteínas substitutas, como frango e carne suína. Então não dá para imaginar que todo esse volume será absorvido internamente.

Paralelamente aos desafios impostos pela China, o setor também acompanha com preocupação as exigências da União Europeia sobre antimicrobianos, que entram em vigor em setembro e podem interromper as exportações brasileiras ao bloco caso não haja um entendimento entre as partes. Como a Abrafrigo avalia esse momento?

Paulo Mustefaga: Vemos essa situação com bastante preocupação. O Ministério da Agricultura tem conduzido essa negociação de maneira muito técnica e acreditamos na capacidade do governo brasileiro de encontrar uma solução. O importante é preservar a relação de confiança construída entre Brasil e União Europeia e manter o País habilitado a exportar para aquele mercado.

O debate sobre os antimicrobianos ganhou força justamente por causa desse impasse. Há quem defenda restringir completamente o uso dessas substâncias na pecuária brasileira e quem proponha apenas a segregação da produção destinada à União Europeia. Qual é a posição da Abrafrigo?

Paulo Mustefaga: A posição da Câmara Setorial da Carne Bovina, da qual a Abrafrigo faz parte, é que o Brasil atenda às exigências da União Europeia apenas para a produção destinada àquele mercado. Não vemos necessidade de restringir um produto aprovado pelos organismos internacionais para toda a pecuária brasileira.

Além das incertezas no mercado externo, o setor acompanha uma possível virada do ciclo pecuário, com menor oferta de animais e valorização do bezerro. Como esse movimento pode afetar a rentabilidade da indústria frigorífica?

Paulo Mustefaga: Esse movimento comprime as margens, principalmente das empresas voltadas ao mercado interno. O boi representa cerca de 80% do custo de uma indústria frigorífica. Quando a oferta diminui e o preço sobe, a margem encolhe. As empresas exportadoras conseguem repassar parte desse aumento para o mercado internacional. Já quem atua apenas no mercado doméstico sofre muito mais.

Fonte: Broadcast Agro.