04/Aug/2026
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) iniciam uma nova etapa do Projeto Forrageiras para o Semiárido com o lançamento do Rally Forrageiras para o Semiárido, iniciativa voltada à disseminação de tecnologias de produção para pecuaristas do Nordeste e do norte de Minas Gerais. O programa busca transformar em soluções aplicadas nas propriedades rurais os resultados obtidos ao longo de quase uma década de pesquisas conduzidas em parceria com o Instituto CNA, Federações de Agricultura, sindicatos rurais e com respaldo técnico da Embrapa. O lançamento ocorre durante um Dia de Campo realizado em Baixa Grande (BA), reunindo produtores rurais, técnicos, pesquisadores, representantes das Federações de Agricultura, sindicatos rurais e lideranças do setor.
A programação contempla visitas às Unidades de Referência Tecnológica (URTs), distribuição de guia técnico com recomendações práticas, demonstrações sobre manejo e conservação de forragens, propagação de palma forrageira, apresentação dos resultados obtidos pelo projeto e exposição de tecnologias como drones para pulverização e equipamentos destinados à produção de silagem. Após a etapa inaugural na Bahia, o Rally percorrerá dez municípios da Região Nordeste e do norte de Minas Gerais entre os meses de agosto e novembro, adaptando o conteúdo técnico às características produtivas de cada região e abrangendo sistemas de pecuária de leite, de corte, além da criação de ovinos.
Criado em 2017, o Projeto Forrageiras para o Semiárido tem como objetivo desenvolver e transferir tecnologias para fortalecer a produção pecuária em regiões semiáridas por meio da adoção de espécies forrageiras adaptadas e de técnicas de manejo capazes de garantir disponibilidade de alimento aos rebanhos durante todo o ano. Ao longo de sua execução, foram avaliadas aproximadamente 30 espécies de gramíneas, palmas forrageiras, leguminosas e outras plantas adaptadas às condições climáticas da região, implantadas 27 Unidades de Referência Tecnológica e capacitadas mais de 10,4 mil pessoas entre produtores, técnicos e estudantes. Os estudos demonstraram que não existe uma única espécie capaz de atender a todas as condições de produção, sendo recomendada a adoção de um cardápio forrageiro composto por diferentes espécies e manejos ajustados às características de cada propriedade.
Essa estratégia tem permitido ampliar a segurança alimentar dos rebanhos e elevar a produtividade dos sistemas pecuários em regiões de clima semiárido. Um dos exemplos de adoção dessas tecnologias é a Fazenda Várzea da Baraúna, localizada em Miguel Calmon (BA), onde a atividade leiteira passou por mudanças estruturais após a participação nos programas de capacitação da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb) e do Senar Bahia, iniciados em 2009, e, posteriormente, com a adesão ao Projeto Forrageiras para o Semiárido. Na propriedade, a produtividade média por vaca aumentou de cerca de 8 litros para 21 litros de leite por dia após a adoção das recomendações técnicas relacionadas ao manejo alimentar e à gestão da atividade. Atualmente, o rebanho conta com 21 vacas em lactação das raças girolando, jersolando e três-quartos Holandesa, produzindo aproximadamente 440 litros de leite por dia.
A produção é destinada à Cooperativa Agropecuária de Miguel Calmon (Coopag), além da fabricação de queijos comercializados no mercado local. As melhorias envolveram a implantação de áreas com capim paiaguás, ampliação do cultivo de palma forrageira, milho para silagem e capim-açu, formando um sistema de alimentação baseado em pastejo rotacionado, silagem composta por 50% de milho e 50% de capim-açu, palma forrageira picada e suplementação concentrada com ingredientes como torta de algodão e ureia. Na propriedade de 46 hectares, aproximadamente 15 hectares são destinados ao cultivo de palma forrageira, incluindo a variedade mão de moça, selecionada pelo projeto por sua adaptação às condições do Semiárido. Também são cultivadas áreas com milho para silagem e capim paiaguás, enquanto parte das pastagens permanece com braquiária decumbens.
As avaliações de campo demonstram maior permanência de massa verde no paiaguás mesmo após cerca de dois meses sem precipitações, em comparação com a braquiária. O manejo também contempla controle da intensidade de pastejo para preservar a capacidade de rebrota das forrageiras e realização anual de calagem do solo, prática que reduz a acidez, favorece o aprofundamento do sistema radicular das plantas e aumenta a resistência das pastagens aos períodos de estiagem. Apesar dos avanços, a disponibilidade de água continua sendo um dos principais fatores limitantes da expansão da produção. A propriedade utiliza sistemas de captação de água da chuva para abastecimento humano e animal, mas considera a perfuração de um poço artesiano fundamental para ampliar a capacidade produtiva. Uma maior disponibilidade hídrica permitiria elevar a produção diária para aproximadamente 1.500 litros de leite.
A CNA avalia que a ampliação da produtividade da pecuária brasileira depende da disseminação de tecnologias, assistência técnica contínua e políticas públicas direcionadas aos pequenos produtores. A adaptação às mudanças climáticas exige preparar os agricultores para enfrentar eventos extremos, como a possibilidade de ocorrência de um super El Niño na safra 2026/27. O foco da estratégia deve estar na preparação dos produtores para conviver com cenários climáticos adversos, por meio de pesquisa permanente, transferência de tecnologia e adoção de práticas de manejo adaptadas às condições regionais. O Rally Forrageiras para o Semiárido representa uma nova etapa de um trabalho iniciado há quase uma década pela CNA para identificar e validar espécies forrageiras adaptadas ao clima semiárido. A iniciativa demonstra o potencial de aumento da produtividade da pecuária mesmo em regiões submetidas a longos períodos de estiagem.
A cadeia leiteira da Bahia enfrenta como principal desafio a ausência histórica de políticas públicas voltadas aos pequenos produtores. O Estado, que já liderou a produção de leite na Região Nordeste, perdeu posição para Pernambuco e Ceará, em um cenário de baixa adoção de tecnologias, limitada assistência técnica e menor capacidade de investimento dos produtores de menor escala. A produção leiteira possui forte participação da agricultura familiar e de pecuaristas de pequena escala, segmentos que dependem de orientação técnica para elevar produtividade, reduzir custos e ampliar a geração de renda. Uma das principais estratégias para reduzir os impactos da sazonalidade produtiva é garantir oferta de alimento para as vacas durante todo o ano. Entre as alternativas estão o uso de palma forrageira, silagem e outras técnicas de conservação de forragens, que permitem formar reservas estratégicas para os períodos de estiagem.
Embora o foco da apresentação tenha sido a pecuária leiteira, o Rally Forrageiras para o Semiárido também desenvolve tecnologias de alimentação animal voltadas à pecuária de corte, ovinos e caprinos, atividades adaptadas às condições do Semiárido brasileiro. O programa busca contribuir para a formação de uma nova classe média rural, com acompanhamento técnico realizado por agrônomos e médicos veterinários, oferecendo orientações sobre nutrição animal, manejo e gestão das propriedades. Mais de 300 mil produtores já recebem esse tipo de assistência técnica. A ampliação do acesso à tecnologia é uma ferramenta para reduzir a concentração de renda no campo e aumentar a competitividade dos pequenos produtores. A assistência técnica deve ser transformada em política pública permanente, embora o Sistema CNA/Senar também tenha ampliado sua atuação nessa área por meio dos recursos próprios destinados à capacitação e ao atendimento aos produtores.
Em relação à cadeia do leite, a recuperação da rentabilidade depende principalmente da redução dos custos de produção e de medidas para equilibrar a concorrência com produtos importados. A produção de alimento para o rebanho dentro das propriedades é uma das principais formas de reduzir despesas e aumentar a eficiência produtiva. Cerca de 20% dos produtores brasileiros deixaram a atividade leiteira nos últimos cinco anos, embora a produção nacional tenha continuado crescendo devido ao aumento da produtividade das propriedades que permaneceram no setor. A CNA considera que o papel do governo deve ser a criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento da atividade, com políticas públicas consistentes voltadas à competitividade e à inovação. O aumento da produtividade continuará sendo a principal estratégia para tornar a agropecuária brasileira mais resiliente diante das mudanças climáticas e da maior concorrência internacional. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.