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01/Jul/2026

Pecuária: EUDR redefine acesso ao mercado da UE

O avanço das exigências de rastreabilidade territorial e de comprovação da origem da produção está redefinindo os critérios de acesso aos mercados internacionais para as cadeias agropecuárias. Além de preço, volume e requisitos sanitários, a capacidade de demonstrar onde e como os alimentos são produzidos passa a integrar os fatores de competitividade, impulsionada pela entrada em vigor do Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). A legislação estabelece que empresas responsáveis pela comercialização de determinados produtos na União Europeia deverão comprovar que esses itens não estão associados ao desmatamento ocorrido após a data de corte definida pelo regulamento. Para atender às exigências, será necessário implementar procedimentos de diligência (due diligence), incluindo coleta de informações geográficas, avaliação de riscos e comprovação, por meio de dados auditáveis, da origem e das condições de produção ao longo de toda a cadeia produtiva.

Entre os principais requisitos estão a identificação das coordenadas geográficas das áreas de produção, a comprovação de ausência de desmatamento após a data estabelecida pela norma, mecanismos de rastreabilidade capazes de acompanhar a cadeia produtiva e documentação técnica passível de auditoria. No caso da pecuária bovina, a exigência pode envolver o rastreamento de todos os estabelecimentos por onde o animal passou durante seu ciclo produtivo. Embora a responsabilidade legal recaia sobre operadores e comerciantes que atuam na União Europeia, a tendência é que essas exigências sejam incorporadas aos contratos firmados com fornecedores em diferentes países, tornando-se requisito para acesso aos mercados internacionais. Dessa forma, produtores rurais e demais integrantes das cadeias de suprimento passam a ser demandados por informações cada vez mais detalhadas sobre a origem da produção.

Inicialmente concentradas nas cadeias de carne bovina e soja, as novas exigências tendem a influenciar outros segmentos do agronegócio à medida que empresas globais ampliam suas políticas de sustentabilidade, rastreabilidade e transparência. No caso da cadeia leiteira brasileira, leite e derivados não estão contemplados diretamente no Anexo I do EUDR. Além disso, a produção nacional permanece predominantemente voltada ao mercado interno, com exportações concentradas em volumes pontuais de derivados. Ainda assim, especialistas avaliam que os novos padrões internacionais deverão influenciar gradualmente a organização da cadeia, tanto pela adoção de políticas globais de compras por grandes empresas e redes varejistas quanto pela incorporação dessas referências em políticas públicas e iniciativas privadas.

Outro fator apontado é a crescente demanda por transparência ambiental, que tende a ampliar a necessidade de sistemas integrados de gestão das informações produtivas, independentemente do destino final dos produtos. Nesse contexto, o georreferenciamento das propriedades rurais ganha importância estratégica. No Brasil, instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) já representam uma base relevante para a organização das informações territoriais, embora o processo de consolidação, validação e integração desses dados ainda esteja em evolução. Além da regularização ambiental, o georreferenciamento passa a desempenhar papel crescente na rastreabilidade da produção, na gestão territorial e na comprovação da conformidade socioambiental das propriedades. O que anteriormente possuía caráter predominantemente cadastral tende a se consolidar como infraestrutura essencial para o funcionamento das cadeias agroalimentares.

A transformação também amplia o valor estratégico dos dados gerados nas propriedades rurais. Informações sobre localização das áreas produtivas, histórico de uso da terra, indicadores ambientais, emissões de gases de efeito estufa, bem-estar animal e práticas de manejo passam a integrar os critérios utilizados por compradores, financiadores e consumidores na avaliação da sustentabilidade da produção. Esse novo cenário reforça a importância da gestão de informações como instrumento de competitividade. A transparência sobre os sistemas produtivos passa a fortalecer a confiança entre produtores, empresas, governos e consumidores, ampliando a capacidade de inserção em mercados que adotam critérios socioambientais cada vez mais rigorosos. O fortalecimento dessa infraestrutura de dados também depende da ampliação do acesso a ferramentas de gestão e monitoramento que permitam aos produtores organizar informações sobre sustentabilidade e desempenho das propriedades.

Iniciativas voltadas à mensuração de indicadores ambientais, pegada de carbono, bem-estar animal e critérios ESG contribuem para preparar as cadeias produtivas para um ambiente regulatório em rápida transformação. A tendência observada é de que a rastreabilidade territorial deixe de ser apenas uma exigência regulatória para tornar-se um componente permanente da governança dos sistemas alimentares globais. Para a pecuária brasileira, esse movimento representa o desafio de estruturar sistemas robustos de coleta, integração e comprovação de dados, ao mesmo tempo em que abre oportunidades para ampliar a competitividade por meio da demonstração objetiva da sustentabilidade e da conformidade da produção. Fonte: MilkPoint. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.